A vida chama


Frustração: a dor diante do "não"




Você já parou para pensar que o único período da vida onde tivemos todas as nossas necessidades supridas foi quando estávamos dentro do útero materno? Pois é, todo ser humano ¿ sem exceção - está sujeito às frustrações assim que aterrissa neste mundo. Isso acontece desde quando somos bebês e permanece na vida adulta. Teoricamente, ao longo da vida, a tolerância vai sendo desenvolvida e o indivíduo aprende a lidar com as adversidades. Mas, na prática, nem sempre isso acontece. Tem muito marmanjo reagindo de forma infantil e mimada diante de um "não". 
 
É o caso, por exemplo, de quem se deprime quando não consegue algo. Tem também o indivíduo que dá chilique e bate o pé porque não admite ser contrariado. Ainda vemos por aí aquela pessoa que paga "o que for preciso" para ter o que quer. Independente do modus operandi quanto menor a sua capacidade de aceitar as situações e se adaptar a elas, menor a tolerância à frustração. E o que determina este grau é, basicamente, sua história e as experiências vivenciadas. 
 
Por isso é tão importante que o indivíduo aprenda, desde criança, que viver implica algumas restrições. Só passando por situações de privação e aprendendo a lidar com elas é possível adquirir habilidades importantes como resiliência, perseverança, empatia e flexibilidade. 
 
Como fazer isso? O filósofo Confúcio já dizia: "Eduque seus filhos com um pouco de fome e frio". Parece tirania mas, cientificamente, ele estava certo. Um experimento realizado nos anos 1960 ficou famoso entre os psicólogos e deu origem a uma série de novas pesquisas nesse campo. O livro que relata essa pesquisa chama-se "O Teste do Marshmallow: Por que a Força de Vontade É a Chave do Sucesso" e foi escrito por Walter Mischel, reconhecido professor de psicologia na Universidade de Columbia (EUA). Na experiência dele, a criança recebia um marshmallow e a seguinte instrução: pode comer o doce imediatamente ou esperar 20 minutos e comer dois.
 
A decisão tomada pela criança previa algo sobre seu futuro? Sim! Com base em décadas de pesquisa, Mischel demonstrou que a criança que resistia ao sentimento de frustração por não ter seu desejo atendido imediatamente se tornava mais resiliente, mais resistente ao estresse do dia a dia e tinha potencial para um futuro promissor. Isso significa que, se os pais não derem limites e não negarem alguns caprichos às crianças, elas não aprenderão a lidar com as adversidades que surgirem pelo caminho. A decepção, em determinado grau, é uma forma de autorregulação e autocontrole.  
 
Uma pergunta recorrente dos pais é: qual a medida certa das frustrações? Não existe receita pronta! O que vale é o bom senso! Uma boa referência é os pais perceberem a quantidade de prazer em sua relação com os filhos. Se, no dia a dia, os adultos sempre estão no papel dos que proíbem, é preciso repensar a frequência. Temos que usar o "não" somente quando for preciso. Em questões de menor importância, ele pode ser deixado de lado. Isso poupa energia para as restrições importantes e permite que a criança explore o mundo. 
 
Mesmo porque, uma pessoa permanentemente frustrada pode desenvolver depressão, agressividade, sentimentos de baixa autoestima e até mesmo pensamentos suicidas. Tendo suas expectativas constantemente não realizadas, ela pode achar que a vida não tem mais sentido. Portanto, a frustração, em hipótese alguma, deve ser subestimada, negligenciada.
 
Para nós, adultos, cabe transformar todo esse conhecimento em uma grande oportunidade de aprendizado. Sabe como? Primeiro, temos de exercitar a humildade ao alinhar o sonho à realidade, sem criar expectativas infundadas. Não podemos nos esquecer também de que tudo na vida tem o momento certo e, nem sempre, as coisas acontecem com a rapidez que desejamos. Caso algo dê errado, é essencial avaliar a situação, aprender com os erros e não deixar a peteca cair! Afinal, pra todo "game over" existe um "play again"!
 
Rita Bragatto é psicanalista 
Atendimento presencial e por Skype
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Desprograme-se




Acordar. Trabalhar. Pagar contas. Dormir.
 
Acordar. Trabalhar. Pagar contas. Dormir.
 
Acordar. Trabalhar. Pagar contas. Dormir.
 
Ah, quando a gente coloca a vida no piloto automático tudo fica tão previsível e confortável, não é? A mecanização é muito útil para a economia de energia mental e psíquica. Mas atenção: ela também nos distancia dos nossos sentimentos. É, agindo assim, você corre o sério risco de deixar de sentir o fluxo da vida pulsando dentro de si! 
 
A reflexão que eu trago hoje é embasada na animação dirigida por Daniel Martínez Lara & Rafa Cano Méndez. O desenho é um verdadeiro choque de realidade. Não só para os adultos que têm filhos. Vale pra todo mundo.
 
Nossas ações são consequências diretas daquilo que pensamos. E os nossos pensamentos tendem a se converter em um monólogo que pode nos levar a um estado de inconsciência. Seguimos e agimos apáticos, olhando o mundo de forma pré-programada, com conceitos, opiniões e atitudes. Se não nos policiarmos, entraremos numa frequência de torpor existencial.
 
A vida é muito, muito mais do que “Acordar. Trabalhar. Pagar contas. Dormir.” Transcende o físico e o empírico. Tem a ver com possibilidades. Com improvisação. Com o sentir. Portanto, desprograme-se! Aguce seus cinco sentidos e, principalmente, a intuição. Mantenha a atenção necessária para a plenitude da consciência. Esse é o famoso “aqui e agora”. Comece com o simples exercício de sentir o ar que entra e sai dos seus pulmões e, logo, logo, acredite: você passará a enxergar muita beleza por aí.
 





 
 
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Impermanência: o sim diante da vida




A natureza é uma grande fonte de conhecimento. Ela pode nos informar e nos inspirar. Se a observarmos iremos aprender várias lições - principalmente com os animais. O problema é que insistimos em viver na selva de pedra, desconectados dessa grandiosa fonte de ensinamentos e força. E fica difícil mesmo enxergar enquanto estamos confinados.
 
Exatamente por isso gosto tanto de fazer imersões na natureza. Não só para recarregar os meus pulmões com ar mais puro mas, essencialmente, para observar. A natureza nos apresenta uma série infindável de manifestações, um constante "vir a ser". 
 
Para ilustrar os ensinamentos que podemos obter hoje trago um vídeo onde o rabino e psiquiatra Dr. Abraham Twerski nos leva a refletir sobre a impermanência, utilizando a metáfora da lagosta. Esse crustáceo vive, tranquilamente, no fundo do mar, protegido pela sua carapaça dura e resistente. Mas, dentro da carapaça, a lagosta continua a crescer. 
 
Ao final de um ano, sua "casa" fica pequena e a lagosta tem de enfrentar um grande dilema: ou permanece dentro da carapaça e morre sufocada ou arrisca sair de lá, abandonando-a, até que seu organismo crie uma nova carapaça de proteção, de tamanho maior, que lhe servirá de couraça por mais um ano. É óbvio que, sem a carapaça, a lagosta fica vulnerável aos muitos predadores. Mesmo assim, ela sempre prefere sair. Ela sabe que dentro desta "redoma" não tem nenhuma chance de vida. Fora, sim. 
 
Vamos trazer esse ensinamento da natureza para o nosso dia a dia. Quantas vezes nos sentimos prisioneiros de várias carapaças, sufocados, nos encolhendo diante da vida? Pense nos hábitos repetitivos, nos condicionamentos, nas situações que não nos oferecem mais oportunidades de crescimento. Por falta de coragem nos acostumamos à falsa segurança de uma vida monótona que, fatalmente, como a velha carapaça da lagosta, acabará por nos sufocar. A impermanência causa certa angústia diante das incertezas. Mas a permanência, na maioria das vezes, causa a morte lenta. Como você reagiria diante deste dilema? Que escolhas faz para sua vida?
 





 
 
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