ARTIGOS


Inspirações em Moncloa




Flavio Amary

Moncloa é o nome do Palácio, sede do governo espanhol, onde em 1977 foi assinado o Pacto de Moncloa, uma união de todos os setores, partidos, empregadores e empregados em prol da construção de um novo país.

Não quero comparar a Espanha, daquela época, com o Brasil de hoje, mas apenas buscar uma inspiração, pois cada época tem uma característica específica, e cada país tem suas necessidades únicas. Entretanto, curiosamente, me parece que é, exatamente, isso que precisamos hoje.

Com 35 partidos políticos registrados e alguns outros, na fila, para serem criados, mesmo com a cláusula de barreira, que deverá começar a ter efeitos em alguns anos, os próximos governadores e, principalmente, o próximo presidente precisarão ter o mínimo de governabilidade para viabilizar reformas e ajustes necessários para a evolução de nossa sociedade.

Além da dificuldade na governabilidade, algumas reformas são absolutamente imprescindíveis e um pacto, por um país melhor, se faz necessário. Sofremos muito e o número de desempregados ainda possui 8 dígitos e, embora a recuperação esteja acontecendo, precisamos continuar com um processo reformista para incentivar o investimento produtivo e a criação de empregos e renda.

A janela do bônus demográfico (período de uma sociedade onde a população economicamente ativa é superior aos que não possuem idade para trabalhar e aos aposentados) está fechando e é neste período demográfico que a economia de uma sociedade se prepara para seu envelhecimento.

Embora, em uma eleição democrática, o vitorioso seja legitimado pelo resultado das urnas para implementar sua proposta de governo, o pacto da sociedade como um todo e o apoio, principalmente, da maioria dos partidos políticos se faz necessário durante o governo.

Talvez o melhor momento para essa proposta seja após o resultado das eleições. Pretendo, em todos os contatos que farei com os pré candidatos durante o período eleitoral, levar essa proposição -- o país clama pela união.

Contemplaríamos as áreas todas da economia às sociais, com objetivo de viabilizar, com menos turbulências políticas, a transição para um país que precisa crescer e gerar empregos para que, com boa gestão, possa atender as necessidades básicas da população.

Como já disse, em outras oportunidades, estamos, em varias áreas, na direção oposta, criando burocracia e dificuldades quando precisamos, exatamente, do oposto.

Com inflação e taxas de juros historicamente baixos, o incentivo para investimento, na produção e criação de empregos, é grande, mas é fundamental que este cenário perdure por bastante tempo e que não tenhamos mais um "voo de galinha".

A globalização nos permite dizer, hoje, que os capitais, que flutuam pelo mundo, observam e aguardam, com atenção, o resultado das eleições brasileiras para decidir se investem aqui ou em outro canto do globo.

A estabilidade e a previsibilidade são temas fundamentais na atração de investimento produtivo. Não podemos dar voz àqueles que pregam o desrespeito constitucional e a desordem social.

Conhecer a história pode nos proporcionar bons e maus exemplos de como levar um país para o sucesso ou fracasso. Embora alguns possam achar utópico e muito pouco provável, acredito que, com a união dos protagonistas da sociedade civil organizada e partidos políticos, pavimentaremos o caminho para chegar, mais rapidamente, onde já deveríamos estar.

Flavio Amary é presidente do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) e reitor da Universidade Secovi - famary@uol.com.br


O silêncio ensina a ouvir




Geraldo Bonadio

Nos anos 1970, Murray Schafer, educador musical canadense, cunhou a expressão paisagem sonora para dar nome ao cenário em que vive a maioria dos grupos urbanos de nossos dias. No livro em que expôs seus aspectos básicos, ensinou que os sons -- antes algo cuja apreciação cabia à vontade da pessoa determinar -- tornaram-se imposição, realidade que nos acompanha em qualquer quadrante, dentro ou fora da casa e do ambiente de trabalho. Preenchem até os menores espaços e os trajetos mais curtos, como o do elevador que conduz alguém do térreo a um andar determinado.

Essa exposição constante despeja em nossos ouvidos um elevado volume de decibéis -- como ocorre nas modernas salas de cinema, em que, não raro, a trilha se faz mais relevante que o fluxo de imagens.

Daí decorre um efeito colateral indesejado e indesejável: nosso estranhamento e aversão face ao silêncio. Para muitos, colocar em funcionamento alguma fonte sonora é a segunda coisa que fazem, depois de abrirem a porta de casa, do apartamento ou do carro.

Inseridos num mundo ruidoso, acordamos ao som do despertador, tomamos o café e nos deslocamos para a escola ou o serviço embalados pela cadência monocórdica de engenhocas mecânicas ou eletrônicas, à qual um ou mais narradores tentam se sobrepor, gritando seus textos.

A palavra é dom de Deus. Use-a para testemunhar a fé, corrigir o aflito, reivindicar a eliminação de falhas ou denunciar injustiças. Mas, a todas essas situações ruidosas, urge que aprenda a, em dados momentos, contrapor o silêncio.

Gandhi, jovem ainda, aprendeu em sua passagem pela África do Sul: "Somos frágeis seres humanos. Com muita frequência não sabemos o que dizemos. Se quisermos escutar a voz ainda débil que fala, sempre e sempre em nosso interior, é necessário silenciarmos, pois não a ouviremos, se falarmos sem cessar."

Vale o mesmo para as lições que o Espírito se empenha em transmitir, momento a momento, ao nosso coração.

"(...) o Senhor está em seu santo templo: Silêncio diante de sua face, ó terra inteira!"

Habacuc 2:20 Tradição Ecumênica da Bíblia
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com