ARTIGOS


Retorne à alegria




Geraldo Bonadio

Há quem confunda a Palavra com a legislação de trânsito; o Evangelho com a lista de punições aplicáveis aos motoristas infratores, sob a forma de multa e pontos negativos.

Esse é um entendimento equivocado e traz, consigo, muitas coisas ruins. Ele cega nossos olhos para as inúmeras passagens em que Deus revela, àqueles que navegam pelas Escrituras, que seu objetivo, em relação aos seres humanos, não é o de emitir sentenças condenatórias e punições. Quando convida as pessoas a examinarem suas próprias condutas, o que ele quer é deflagrar, nelas, um processo de análise e correção de suas atitudes.

Tal revisão não intenciona triturá-las por dentro. Ao contrário, quer reconstruí-las e reaproximá-las dele e dos outros, num modo de vida que tenha como marcas a integridade, a auto realização e o contentamento.

Quando a pessoa mergulha num processo depressivo ou se autoflagela, ainda que imagine estar percorrendo um caminho que a leva a Deus, está se distanciando dele.

Todos temos erros a corrigir.

Reconheça os seus, com humildade, mas sem a disposição daninha de humilhar a si mesmo. Acolha o perdão e a alegria que vem com ele. Assim restaurado, retome a sua vida com olhos abertos para as bênçãos e os incentivos que o Pai Celestial quer conceder a você e, por seu intermédio, àqueles que consigo convivem, na família, no trabalho, na escola e na comunidade.

"Purifica-me de minha impureza e ficarei limpo; lava-me e ficarei mais branco que a neve. Devolve-me a alegria e a felicidade! (...)"

Salmo 51:7-8 Nova Versão Transformadora
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com


A Pátria em Chuteiras




Edgard Steffen

A Seleção é a Pátria em chuteiras (Nelson Rodrigues)

Nossa Pátria anda pouco disposta a calçar chuteiras. A Rússia também. Por lá sobram ingressos. Talvez porque a fraquinha seleção deles tem poucas chances de chegar à final. Por aqui sobram produtos verde-amarelos nas prateleiras.

Segundo o Datafolha, 53% dos brasileiros não estão nem aí para com os canarinhos. Estão mais preocupados com sobrevivência, ameaça de desemprego e contas a pagar. Comparam sua corrida diuturna atrás de caraminguás com milionários proventos que talentosos selecionáveis auferem para correr atrás da bola nos campos do mundo.

Vamos estrear contra a Suíça. Há 58 anos, no 28 de junho de 1950, os dois times se enfrentaram pela vez primeira. Meu pai e alguns amigos descendentes de suíços, alugaram uma máquina (como se denominavam os táxis no interior) para levá-los ao Pacaembu. Queriam ver jogadores das duas pátrias: a própria e a de seus ascendentes. Os cariocas eram maioria no escrete nacional. Nenhum "estrangeiro" foi convocado. Desconfio que "seu" Christiano, brasileiro neto de suíços, além das duas pátrias acrescentou uma terceira. A corintiana. Naquela partida, o técnico escalara paulistas; entre eles o centerfor* Cabecinha de Ouro do Corinthians. O jogo terminou empatado (2x2). Para sua alegria, Baltazar marcou um gol.

Aquela Copa foi a que acabou no sepulcral silêncio do Maracanazo e também com a alegria de viver do goleiro Barbosa. A imprensa futebolística o culpou pela derrota. Talvez por ser preto num país dominado por brancos...

A Copa seguinte aconteceu na Suíça (1954). Fomos vingados do Uruguai pela Hungria. Em compensação a seleção magiar também nos eliminou, por 4x2. Como não havia televisão, o ufanismo radiofônico convenceu o Brasil em chuteiras que o grande culpado foi um tal de Mr. Ellis, árbitro inglês.

As copas de 58, 62, 70, 94 e 2002 serviram para levantar o moral da nossa seleção. Ajudaram dourar os anos JK (1958), retardar a derrubada de Jango Goulart (1962), camuflar os porões da ditadura Médici (1970), esquecer a farsa collorida e dar alento ao Plano Real do inexpressivo Itamar Franco (1994), inflar o ego de FHC (2002). Mas o Penta não impediu a eleição de Lula.

Em 2010 o Brasil vestia chuteiras. Pelo menos é o que constatei relendo crônica publicada no Cruzeiro do Sul em maio daquele ano. Reescrevo um parágrafo.

Que não se fazem mais freiras como antigamente. Que alegria e diversão é coisa do Coisa-ruim dirão fundamentalistas conservadores por acharem que religião deva ser coisa triste cheia de mea-culpa, mea maxima culpa. Na Fazendinha, freiras foram assistir treino do Glorioso Timão e tietaram Ronaldo "O Fenômeno". Chegaram a simular uma disputa de pênaltis e ensaio comemorativo dos gols. A maior craque entre as religiosas bateu o pênalti por cima da trave. Cavalheirescamente Ronaldo bateu o dele para fora.

O encontro apareceu no Fantástico. A reportagem mostrou que as monjas negociaram com aluna(o)s futebol vs dedicação aos estudos. A TV local as exibira disputando partida de futebol de salão com alunos. O destaque foi a grandalhona Irmã Mary Helen. Com pinta de craque e um canhão na perna canhota, esbanjava simpatia. Em clima de Copa, as irmãs fizeram sua parte no incentivo à equipe canarinha que iria à África do Sul.

Este ano Tite vetou religiosos na concentração. Não quer interferências divinas?... Ou teme que a Argentina copie a fórmula e também use o prestígio de Francisco?... Ou receia que eventual hexacampeonato favoreça políticos que também mereceriam ver o sol nascer quadrado?...

Pela Seleção, torcer. Pelo Brasil, rezar.

(*) Center-forward, centro-avante no jargão interiorano.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço - edgard.steffen@gmail.com