ARTIGOS


Escola: a fantástica fábrica de cotidianos




Tersio Guilherme de Souza Cruz

Não é de hoje que alguns estudiosos destacam a necessidade de se trazer elementos do cotidiano dos estudantes para as aulas de Física (e de outras disciplinas). A ideia é destacar a importância da área para o dia a dia do aluno, motivando-os na sala de aula com questões reais e de interesse próprio (utilizando-se de situações vividas pelos alunos no seu cotidiano). Com isso espera-se melhorar a quase sempre conturbada relação entre a disciplina e a maioria dos educandos, que em geral, tem a certeza de que ela é aplicável somente em situações abstratas, esquisitas e até inimagináveis para simples mortais não iniciados.

Evidentemente, a discussão é muito mais complexa do que estas parcas linhas podem fazer parecer. No entanto, parto delas para compartilhar-vos um segredo: a minha fascinação pela Física e pelas outras disciplinas escolares surgiu diametralmente do oposto: descobri que a escola era a minha única oportunidade de escapulir do meu cotidiano de trabalho duro e de muita exploração (traços característicos de um povo que estuda pouco). E do meu futuro -- aquele reservado a quem pobre nasce nestas terras de tamanha imobilidade social. Certa vez um jogador famoso afirmou que, graças Deus, já estava numa condição financeira tal que e o filho, caso não quisesse, não precisaria estudar. É claro que a sua própria ignorância o impediu de perceber que a escola é tábua de salvação para vários oceanos. Mas ele sabia que um deles é o da miséria.

A verdade é que a vida não é fácil para ninguém. Contudo, a estatística e a lógica são cristalinas quando apontam que é mais fácil permanecer na posição mais acima da pirâmide em que se veio ao mundo do que galgar até lá. Além disso, globalmente, a chance de ser um jogador de futebol rico (ou algo que o valha) é estatisticamente nula. No meu caso, portanto, restava-me apenas um ascensor: a escola pública.

Mas havia mais motivos para fugir do meu cotidiano para a escola. É que esta proporcionava-me uma infinidade de novos e mágicos cotidianos. Permitia-me que, na palma da mão, eu vivesse o cotidiano dos jagunços das Veredas e ouvisse as histórias de Riobaldo, sentado numa sombra à beira do São Francisco. Permitia que eu fugisse da seca nas Alagoas, compartilhasse da solidão dos Buendías e me molhasse na chuva incessante de Macondo. No cotidiano escolar, eu podia viajar na Jangada de Pedra, namorar as prostitutas bonitas de Paságarda e ver o Tejo passar pela minha aldeia. Ensinou-me a andar no cume da Cordilheira dos Andes, passear nas muralhas da China, participar de revoluções e redescobrir o zero.

Já a Física do meu cotidiano nunca foi páreo para todos os cotidianos da Física vividos na escola. Viajava até os confins do universo e era sempre jovem, pois estava quase à velocidade da luz. Pulava entre camadas atômicas e, se necessário, tinha a chance de tunelar. E apresentou-me Sir Isaac Newton, que numa conversa sem precedentes à sombra de uma macieira, contou-me que os movimentos de maçãs e de mundos são de mesma natureza.

A vida seguiu com novos cotidianos, mas sem nunca abdicar dos proporcionados pelo saber. Pois hoje eu sei que a terra não é plana, que macacos não causam febre amarela e que a história tende a ser cíclica para os que não a compreendem. Os benefícios do conhecimento são para a vida toda. Por isso, o meu fascínio pela escola e pelo saber agora é acompanhando por uma imensa gratidão: já que não tenho dúvida de que tudo o que tenho e sou veio da educação.

Tersio Guilherme de Souza Cruz é professor do Departamento de Física, Química e Matemática da UFScar/Sorocaba


Sua fé precisa de um "up"




Geraldo Bonadio

Há quem, na administração do lar, sente-se inseguro se o arroz e o óleo na despensa forem insuficientes para preparar as refeições da família por dois ou três meses. Existem gestores de empresa que ficam intranquilos quando o estoque de peças e componentes no almoxarifado se reduz.

Muito a grosso modo, a tendência à estocagem se alinha com o chamado taylorismo e a redução desta com o sistema de produção da Toyota, adotado em suas unidades ao redor do mundo.

A vantagem deste é funcionar bem com almoxarifado menor, reduzindo o capital imobilizado em peças e componentes. No lar, reduz o espaço para armazenagem de alimentos e lhe permite projetar a troca da casa por um apartamento menor, mas melhor localizado.

Boa parte da sua tranquilidade interior se alicerça sobre a certeza de que seu fornecedor entregará a tempo alimentos e produtos para limpeza da casa. No trabalho, confia, sem vacilação, que os componentes do motor a ser montado daí a uma semana estarão no almoxarifado dentro do prazo.

Estranhamente, age de modo diverso nas suas relações com Deus, "exigindo" dele que, com grande antecipação, coloque em suas mãos tudo quanto julga indispensável -- material, física e psicologicamente -- para o seu próximo passo na vida. Nesse caso, o indispensável para hoje não o contenta. Se não houver um horizonte maior, deixará de realizar muito do que poderia fazer, caso sua fé fosse maior e mais profunda.

Confiar mais no supermercado e na quitanda do que em Deus sinaliza que a gestão de sua fé está em crise, reclamando urgente revisão. Busque, na Palavra e na oração, o necessário para, com urgência, dar um up em seu relacionamento com o Senhor.

"Quando passar por águas profundas, estarei ao seu lado. Quando atravessar rios, não se afogará (...). Pois eu sou o Senhor seu Deus, o Santo de Israel, seu Salvador."

Isaías 43:2-3 Nova Versão Transformadora
Geraldo Bonadio é jornalista. geraldo.bonadio@gmail.com