LETRA VIVA


Carta ao criador do espaço kids




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Prezado criador do espaço kids: acho que você é jovem. É que a sua criação se espalhou apenas nos últimos anos, mas pode ser que eu esteja enganado e você seja um senhor respeitável, desses que cultivam hortaliças num sitiozinho qualquer, aproveitando a merecida aposentadoria. Se assim for, peço desculpas.

Mas continuo achando que você é jovem. A culpa, claro, é dessa minha mania de reclamar da vida. É que, vira e mexe, eu banco o sociólogo ácido, louquinho para apontar os desatinos de nossa sociedade. Já perdi a conta de quantas vezes me peguei vendo comerciais na TV, encontrando padrões, elaborando teorias sofisticadas. Às vezes, exercitando meu masoquismo, eu abro uma dessas revistas de negócios, só para me empanturrar de bobagens otimistas sobre o rumo da humanidade. Mas o que isso tem a ver com a juventude de quem, em tese, criou o espaço kids?

Sou uma montanha de equívocos, e o meu esporte predileto é tirar conclusões precipitadas. Vou tentar explicar resumidamente: acredito que os males do mundo contemporâneo são criados por pessoas que estão na minha faixa etária. Ou seja: homens e mulheres que estão na casa dos quarenta anos. Mudanças no organograma da firma? Lampejo do gênio de quarenta anos. Varanda gourmet? Arquiteto de quarenta anos. Aplicativos imbecis? Certamente o chefe da empresa tem quarenta anos. E por aí vai. E é por isso que eu acho que você é jovem.

Mas falemos mais a fundo de sua criação. O grande Machado de Assis dizia que o menino é o pai do homem. Parece filosofia de boteco, mas não é; é, isso sim, a mais retumbante verdade. Nossa personalidade é forjada nos anos iniciais. Nossa vida adulta é mero desdobramento da época em que brincávamos de Comandos em Ação. E, se não estou equivocado, nos anos 1980, anos da minha infância, restaurantes e afins não tinham espaços kids em suas dependências. Se eu acho que era melhor? Difícil responder.

Vai ver que eu não sei responder direito porque passei minha infância numa cidade que não era tão grande assim nos anos 1980. Não havia as hamburguerias a cada esquina. Apenas um shopping center aparecia no horizonte. À noite, nos primeiros dias da semana, o cenário era de faroeste. Só faltava o tufo rodando ao vento. Enfim, era um cenário de escassez. E você sabe muito bem que as menores coisas ganham relevância num cenário de escassez. Puxa vida, eu venho de uma época em que as pessoas rezavam por uma lata de batatas fritas vinda do exterior. Assim, a gente, desde cedo, aprendia a agarrar com ferocidade as oportunidades. E ir ao restaurante era uma dessas oportunidades.

Claro que não é só isso. Tem a ver, também, com a maneira como os pais se relacionavam com os filhos, mas não quero abordar este ponto aqui. Fiquemos com uma das camadas do que estou tentando dizer: ir a um restaurante era algo solene. Não éramos burros: sabíamos interpretar essas coisas básicas da vida. Os restaurantes não tinham algo que chegasse perto do espaço kids. Não havia cor berrante, musiquinha, brinquedos espalhados pelo chão. A mensagem era clara: éramos coadjuvantes. Tudo ali era feito por adultos e para adultos. Era nossa obrigação entender a mensagem da maneira mais indolor possível. Ou era aquilo ou era ficar em casa, vendo os cinco ou seis canais de televisão da época. Não precisávamos de espaço kids, é o que estou tentando dizer. Ver os arabescos do cardápio já estava de bom tamanho.

Hoje, você sabe melhor que todos nós, o espaço kids se alastrou. Esses curraizinhos que você criou são os respiros para muitos pais angustiados. Se eu acho isso bom ou ruim? Juro que não sei responder. Depende do dia. Tem dia que eu acho necessário. Basta observar por alguns minutos o comportamento indômito de algumas crianças. Tem dia que eu acho uma monotonia atroz. Sempre o tapetinho de borracha. (Imagino que esses tapetinhos são o paraíso das bactérias.) Sempre duas ou três televisões mostrando desenhos criados por algum devoto apreciador de LSD.

Às vezes, o espaço kids é mera continuação da ala adulta, o que não deixa de ser paradoxal. Outras vezes, ele fica longe da ala adulta, o que pode ser um problema, uma vez que os pais tendem a ficar angustiados com o pimpolho distante dos seus olhos. É um problema insolúvel.

E agora, pensando bem, não sei dizer se a sua criação é maldita ou é a salvação da lavoura. Depende do meu humor. Espero que você entenda.


Carta ao inventor do rojão




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Estimado inventor do rojão: sou um apaixonado pelos meandros da ciência. Sempre que posso, leio livros que contam como se deu a descoberta X ou a descoberta Y. Na minha modesta opinião, os livros escritos pelo Oliver Sacks são literatura do mais alto nível. Por que, sendo um leigo, sou um apaixonado pelos meandros da ciência? A resposta é simples: é que eu acho que as trevas só podem ser combatidas com a luz do intelecto.

Não que eu seja um deslumbrado com todos os cacarecos que povoam nossas vidas. Tem dia que eu sou meio ludista, tomado pela vontade de sair quebrando máquinas. Por exemplo, abomino o tal "sistema" de cadastro de muitas instituições. Não pelo sistema em si, mas pelos problemas que ele sempre gera. E, se você parar pra pensar, é um sistema meio maroto. Ele não apaga de jeito algum uma pendência que você eventualmente tenha com determinada instituição, mas vá dizer ao tal sistema que a conta já foi paga. Ele irá negar até a morte, ou até o "reset", que é uma espécie de desmaio da máquina.

Na semana passada, soube que o Detran tinha liberado a CNH para celulares. Como eu sou meio alegrinho, achei por bem comemorar. Pena que a minha felicidade durou pouco. Descobri que, para ter a CNH no celular, seria necessário enfrentar as filas do Poupatempo. Um dia eu conto com mais detalhes o trauma que eu tenho do Poupatempo.

Nos dias de trânsito mais carregado, eu lamento a proliferação de carros e motos. Quem nunca passou por isso? Mas a ranhetice passa logo. Não trocaria meu carro por uma charrete. É a velha história: em muitos casos, a culpa não é da máquina, e sim de quem a opera.

Eu estou enrolando porque tenho pavor de grosseria. É que o meu desejo é dizer que a sua invenção, o rojão, é uma tragédia para nossas vidas. No seu caso, impossível bancar o doutor Victor Frankenstein e alegar que a criatura saiu do controle e se rebelou contra o criador. No caso do rojão, convenhamos, o equívoco estava cristalino desde o início.

Talvez você queira perguntar se a minha bronca com o rojão é caso antigo. Preciso ser honesto: até alguns anos atrás, eu tolerava o rojão. Veja bem: tolerava, o que significa que eu nunca fui fã. Eu era uma espécie de resignado. Achava o estourar do rojão uma coisa besta, sem sentido, símbolo de comportamentos com os quais tendo a não compactuar.

O problema é que a gente envelhece, e acaba ficando mais chato. Há quem glamourize o envelhecimento, só que eu nunca fui um desses. Antes de dormir, sempre me vejo, magrinho, correndo atrás de uma bola. Mas o que eu estava dizendo é o seguinte: a gente, ao envelhecer, tende a ficar mais sincero, com menos preocupações em relação à opinião dos que nos cercam. Pode soar como egoísmo, mas é o que vem acontecendo comigo.

Para mim, hoje, não há perdão para quem solta rojão. Sabe, eu adoro descer a marreta nas redes sociais, dizendo que elas estão tornando as pessoas mais burras, mais intolerantes, mais precipitadas, mais cafonas, mais narcisistas, mais um monte de coisas; mas tem hora que a gente acha umas coisas relevantes no Facebook. Por exemplo: fotos e vídeos dos bichinhos sofrendo horrores por causa dos malditos rojões. A Florzinha, a gatinha dos meus pais, sai correndo para debaixo da cama mais próxima quando algum amaldiçoado resolve soltar um rojão. O pior é pensar que, hoje, muita gente tem Facebook e vê essa tristeza toda. Pergunte se deixam de soltar rojão. Deixam nada. Depois perguntam por que acho que a humanidade é inviável. Imagine o transtorno para os que estão adoentados, para os nenês, para os que acabaram de dormir a duras penas.

Você tem todo direito de dizer que estou sendo egoísta, que estou tentando que o mundo siga os meus ditames, que tem gente que acha o máximo soltar rojão, que não estou pensando na alegria da multidão. Egoísta todo mundo é, pelo menos eu assumo. Não quero que o mundo siga os meus ditames: mas não custa nada pedir um pouco de noção. Prefiro não comentar a respeito dos que acham o máximo soltar rojão. Sobre a alegria da multidão: não existe multidão alegre; o que existe é multidão perigosa.

Eu espero não ter sido duro. E eu espero que o seu sono seja estilhaçado pelo barulho mais imbecil que alguém poderia ter inventado.


Carta ao criador do espaço gourmet




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
Caro criador do espaço gourmet: acho que você está rindo à toa. No seu lugar, eu também riria. Você deve se sentir a última bolacha do pacote, o rei da cocada preta, o eleito, o ungido. No seu lugar, eu também me sentiria.

Deve dar um orgulho danado ver que uma criação da nossa cabeça tomou conta de muitos lares deste Brasil. Quem diria que um estalo viraria uma revolução? É de cair o queixo mesmo.

Se bem que eu acho que foi uma revolução trágica. Acho que você não imaginou que a coisa ganharia tamanha proporção. É a velha história da criatura que saiu do controle do criador. Uma coisa típica de Frankenstein.

Sou implicante pra caramba. Talvez, para muita gente, a coisa não seja tão trágica assim, mas para mim é. Vou tentar explicar as minhas razões.

A primeira delas tem a ver com a monotonia. É muito irritante ver as propagandas dos empreendimentos imobiliários da minha cidade. Eu abro o jornal e vejo a foto perfeita da família assando uma carninha no espaço gourmet. Eu paro no semáforo e recebo um panfleto com a foto gloriosa da varanda gourmet. Eu ouço o rádio, e o locutor da propaganda usa um tom de voz meio sensual para descrever um espaço gourmet qualquer. Parece que a casa é mixuruca se não oferece um lugarzinho para as estripulias culinárias.

O que me leva à segunda das minhas razões. A gente acaba se sentindo meio inferiorizado. Pela quantidade de imóveis com espaços gourmet, imagino que a galera domine magistralmente espátulas, espetos e grelhas. É o invejoso falando aqui: não sei fritar um ovo. Aliás, acho um absurdo usar o ovo frito como exemplo de culinária elementar. Você poderia responder que eu deveria parar de choramingar e aprender a cozinhar. Pode ser, pode ser.

Outra razão, mais sutil: espaços gourmets tendem a gerar conversas desagradáveis. É que, em tese, o felizardo que é dono de um espaço gourmet gosta de receber convidados. Tudo seria belo se a operação se resumisse ao preparo de iguarias. O problema é que o encontro vira palco para longas explicações sobre a carne maturada, o tempero da picanha, o tempo certo de tirar a pizza do forno. Como somos todos amadores, a carne sai borrachuda, a picanha sai dura, a pizza sai meio barroca. O pior é que não podemos falar a verdade. Diante de tanto esforço e conversa, é deselegante bancar o crítico gastronômico. Se bem que tem uma boa tática de sobrevivência para essas ocasiões: comer muitos amendoins e deixar pouco espaço para os pratos principais.

Eu até suporto heroicamente as conversas cansativas sobre o preparo de alimentos. Como sem reclamar a carne meio esquisita. Só que as coisas sempre podem piorar. É que quem é dono de um espaço gourmet gosta de promover noitadas ecléticas. O dono de um espaço gourmet não se contenta em convidar amigos do mesmo núcleo: ele gosta de misturar a turma. Claro, eu sei, é um problema meu não ficar à vontade em conversas com desconhecidos. Acho um pavor dizer, sorrindo: prazer, Neto. As pessoas são civilizadas, simpáticas, e eu não sou. Fico aflito porque sei o que vem a seguir: as perguntas sobre a minha profissão, por exemplo. Eu sou professor e escrevo pro jornal. Nessas horas, sou obrigado a responder se os alunos de hoje são mais difíceis ou mais tranquilos, de a turma gosta de ler, de onde tiro as ideias pros meus textos. Cá entre nós: às vezes, dá uma preguiça danada.

Se bem que eu estou reclamando de barriga cheia. Às vezes, a conversa com o estranho pode invadir o lodo da vida política brasileira. Tenho amigos com vocação de missionários, dotados de uma paciência sem fim para debates que não levam a nada. Se você perguntar se eu acompanho a nossa tétrica vida política, eu respondo que sim. Mas não gosto de conversar sobre essas coisas. Não gosto porque não me sinto um catequista. Não gosto porque as pessoas têm berrado muito. Não gosto porque não quero ser desagradável. Respeito profundamente quem entra nesses embates, mas sou humilde o suficiente para reconhecer que essa coisa toda não é para mim.

Se você não pensou em todos esses desdobramentos que acabei de mencionar, peço desculpas. Agora, se pensou, torço para que o seu sorriso seja cada vez mais amarelo. Se você disser que também criou o espaço kids, nossas relações estão cortadas para sempre.


O estranho caso do futebol




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
Se algum programa macabro de televisão resolvesse colocar alguma câmera minúscula no meu corpo e acompanhar um dia inteiro da minha vida, talvez os espectadores levassem um susto. O susto viria da quantidade de tempo que gasto falando sobre futebol ou vendo futebol.

Na escola onde trabalho, a sala dos professores é o cenário de inflamados debates que englobam as várias camadas do futebol. Muitos dos meus colegas são profundos conhecedores do assunto. Falamos de táticas, das contratações, do comportamento de dirigentes, de grandes jogos do passado. É uma festa.

Em casa, a Patrícia tira sarro. É que eu só vejo canais esportivos. Ou é um jogo que está passando ou é um debate sobre a última rodada. Talvez, no início, ela tenha achado esquisito esse meu hábito. Hoje a Patrícia aceita as coisas como elas são. No máximo, ela faz algum comentário irônico sobre os caras que ficam se esgoelando nesses debates na televisão.

Vocês leram os três primeiros parágrafos deste texto e estão pensando: o cronista deve ser um torcedor fanático, desses que, nas noites de quarta-feira, quando sai um gol do seu time, vai correndo até a janela e fica berrando de um jeito constrangedor. Se pensaram nessas coisas, erraram. Já fui escandaloso, mas já faz um bom tempo que acompanho os jogos do meu time sem gritar, sem dar murros na parede, sem ter vontade de chorar. Alguns dirão que isso é amadurecimento. Às vezes eu penso que é mesmo; mas tem vez que eu acho que não é. E eu fico me lamentando pelos cantos.

Torço para o São Paulo. E vocês sabem que os torcedores do São Paulo tiveram sua cota de glória nos anos 90 e no início dos anos 2000. Meu caráter de torcedor foi forjado justamente na época em que o São Paulo deu uma arrancada espetacular em termos de conquistas de títulos. Eu tinha uns onze, doze anos. Até então, eu torcia moderadamente para o São Paulo. Foi um despertar tardio? Acho que sim. Conheço muita gente que já era fanática aos seis, sete anos. Mas não importa. O que importa é que eu vivi alguns anos torcendo para um time de um jeito maníaco.

Quando os anos 90 começaram, enquanto o professor explicava a matéria lá na frente, eu ficava desenhando esquemas táticos no caderno. O primeiro desenho do dia tentava seguir o esquema que o time já vinha usando. Nas páginas seguintes, eu trabalhava com as variações. Primeiro, mexidas não muito ousadas: avançar um pouco um lateral com talento para o ataque; colocar o zagueiro mais habilidoso à frente da zaga. Depois, a coisa degringolava, e o meio de campo ficava povoado de meias habilidosos. O meu time faria uns cinco gols por jogo, e levaria uns seis. As escalações do São Paulo em 92 e 93 eram repetidas por mim como mantras. Eu quase chorei quando o Raí foi vendido para o Paris Saint-Germain. No futebol da escola, eu tentava dar os passes geniais do Palhinha. Eu queria correr que nem o Cafu. Eu queria ter a serenidade do Walber. Claro que eu não conseguia, mas sempre era bom ter essas referências. Meus pais, sempre generosos, compraram, ao longo de vários anos, tudo quanto é tipo de camisa do São Paulo para mim e para o meu irmão. Tínhamos a camisa de treino, o primeiro uniforme, o segundo uniforme, a camisa com o patrocinador X, a camisa com o patrocinador Y, a camisa com o patrocinador Z. Quando o São Paulo ganhava um título, comprávamos, no dia seguinte, o pôster que homenageava os campeões. Nos anos 90, ficamos acordados nas duas vezes em que o São Paulo jogou de madrugada no Japão e ganhou os títulos mundiais. Ainda hoje eu fico meio emocionado quando revejo o Raí fazer o gol de falta contra o Barcelona, na narração do Luciano do Valle. Em 94, o São Paulo perdeu a final da Libertadores e eu não consegui dormir direito. De hora em hora, eu acordava sem saber se a derrota tinha sido de verdade ou um pesadelo.

É comum ridicularizarmos o passado. Olhamos os comportamentos inflamados de épocas remotas e damos um risinho que significa: como eu era tonto! Acho até que é saudável que isso aconteça. Mas, no meu caso com o São Paulo, eu fico mais triste do que cínico. É claro que eu continuo vendo os jogos do meu time, mas não sinto mais aquela paixão. Vários dos jogadores são estranhos para mim, por exemplo. Vai ver que a vida está brincando comigo nestes últimos anos, reservando a volta do meu fanatismo bem na hora em que os cabelos brancos começam a despontar. Se for assim, juro que não vou reclamar.


Carta ao operador de telemarketing




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
Caro operador de telemarketing: esta é uma carta de solidariedade. Você é o alvo preferencial do nosso triste modelo econômico. Tento imaginar quantos impropérios você ouve num só dia. E você ali, firme, Sísifo moderníssimo, empurrando sua pedra gigante até o topo da montanha. 
Não é menosprezo, longe disso, mas você é uma peça minúscula no sistema. Eu também sou. Então, como andam dizendo por aí, estamos juntos! Conheço muita gente que diz que você é uma praga. Discordo veementemente. A praga é a estrutura. Você é a ponta final do processo. Você é o sujeito que dá a cara a tapa. Acho isso louvável.

Longe de mim querer bancar o santinho por aqui. Já perdi a conta de quantas vezes fui grosseiro com você. A carta ficaria longa se eu entrasse nos detalhes dessa minha grosseria. É que foram vários, digamos, lapsos de educação ao longo dos últimos anos. Já bati boca com você. Já fui ameaçador, recorrendo ao sórdido argumento de recorrer à gerência. Já dei uma de falsário, dizendo que eu não era o Nelson Fonseca Neto, e que o Nelson Fonseca Neto estava viajando a negócios e voltaria dali alguns meses.

Se eu me arrependo? Em parte, sim. Faltou, nessas vezes todas, me colocar em seu lugar, tentar sentir o drama de ficar o dia todo com um fone desconfortável no ouvido, espremido numa baia de compensado, submetido a um regime espartano de intervalos e metas. Então é claro que eu me arrependo.

Mas, se estou exercitando a empatia, eu gostaria que você tentasse entender meu lado. Começando com um cacoete meu: eu detesto telefone. Sou daqueles que acham que um dos males do mundo moderno é a facilidade com que as pessoas se comunicam. É um horror. Muito bem, não estou aqui para falar das minhas manias medievais. O que eu quero que você entenda é o seguinte: para mim, falar ao telefone não é das tarefas mais amenas. Agora, imagine quando preciso falar com um desconhecido.

Outro cacoete meu: não sou o sujeito mais afável deste mundo. Minha veia política sempre foi doente. Claro que tenho amigos, que gosto de algumas pessoas, que amo minha esposa, que amo meus familiares, mas tenho que me esforçar muito para fazer novas amizades. Eu tenho pavor de papo furado no elevador: quando alguém que eu não conheço resolve puxar assunto, só falta eu enfiar a cabeça num dos livros que eu tenho a mania de carregar. Fique sabendo, portanto, que entabular uma conversa com um desconhecido é uma jornada meio épica para mim. Assim, quando você liga, eu já atendo com umas quinhentas pedras na mão.

Você deve ter notado que eu, até agora, tratei de questões insolúveis: o sistema é perverso, você é uma vítima, eu sou meio maluco. Dá para fazer alguma coisa para suavizarmos a situação? Eu acho que dá. Não sou dado a pensamentos utópicos, não fico sonhando com o paraíso na terra. Tento ser pragmático. Um pragmático otimista. Acho que é possível, com uma boa dose de esforço, ter uma vida menos aborrecida. Tudo depende de alguns movimentos.

Por exemplo, você precisa falar como um robozinho frenético? A empresa para quem você trabalha é tão exigente assim no cumprimento do roteiro? Se for, peço perdão. Mas se não for, melhore. Mesmo apertados, talvez exista uma margem de manobra para a suavização dos problemas. Tente falar com calma. Leve em conta que nem todos têm ouvido de afinador de piano. Tem mais: por incrível que pareça, eu consigo falar com alguém na Rússia em poucos segundos, eu posso entrar no Google e fazer um passeio virtual por Bergen (uma simpática cidade norueguesa), eu posso ver um filme raro do Buster Keaton; eu posso fazer essas coisas todas, mas não consigo me livrar do chiado das ligações. Sempre que você liga, a chamada é péssima. Não deixa de ser irônico que, muitas vezes, você liga oferecendo serviços telefônicos.

Se você aprimorar o ritmo da fala, um novo mundo se abre, pode apostar. E, para finalizar, um conselho com ares filosóficos: "não" é "não". Quem não deseja que a vida seja um hipermercado com tudo grátis? Mas não é assim. Quando eu digo que não quero mais um maldito cartão de crédito, é verdade. Não é tão difícil de entender.

De resto, vale o que eu escrevi no início: estamos juntos.


Carta ao homem da caminhonete




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Prezado homem da caminhonete: acho importante colocar todas as cartas na mesa. Sinto medo quando vejo você pelas ruas da cidade. Talvez você esteja pensando se é um medo racional ou irracional. Se eu quisesse ser desonesto nesta carta, eu responderia que o medo é irracional, que tudo é coisa da minha cabeça. Mas eu estou aqui para dizer a verdade.

Meu medo não é irracional e é baseado nas observações. Talvez seja um medo injusto, generalista, e você poderia dizer, com toda justiça, que nem todos os motoristas de caminhonete inspiram medo. É verdade, mas todos nós precisamos de um bode expiatório de vez em quando. Mas vamos ao que interessa.

Temos idades próximas. Estamos na casa dos 40. E a nossa semelhança termina aí. Você se preocupa com a moda. Eu sempre uso o kit básico: calças jeans, camiseta (pra bloquear o suor), camisa e tênis (ou bota). Por conta da minha forma física, opto pelas calças largonas. Você, preocupado com o peso, veste calças justíssimas. Você usa camisa polo, e eu detesto camisa polo. Elas são ásperas e pinicam. Eu já usei camisa polo, e naquela época o jacarezinho era minúsculo, uma belezinha. Agora é um baita de um jacaré anabolizado.

Você gosta de usufruir do potencial da aparelhagem de som da sua caminhonete. Eu tento ouvir a música ou o noticiário de um jeito que o carro ao lado não se sinta invadido. Preciosismo da minha parte? Eu prefiro chamar de polidez. Ainda sobre o tópico barulhos: quando o sinal abre, tento não cantar pneus. Também é uma questão de polidez. Não sei se você notou, mas as pessoas sempre se assustam com pneus cantando. A vida já é dura: não precisamos de um trânsito povoado de sons aterradores.

Agora eu preciso confessar uma maluquice minha: quando vejo algo, mesmo que dure alguns míseros segundos, eu projeto para uma cenário maior. Por exemplo, se você gosta de cantar pneus no semáforo, eu imagino que: você fala berrando no celular; você chama qualquer um de "irmão"; você fica deliciado com as páginas do Içami Tiba; você fala "breja" e "churras"; onde você mora tem uma varanda gourmet ou um espaço para churrascos e pizzadas (e que nesse espaço tem um monte de enfeite pendurado na parede); você está por dentro dos meandros da bolsa de valores; você é versado em todas as conspirações que assolam o mundo.

Você quer perguntar: como, Sherlock, você chegou a essas conclusões? Minha resposta: é o jeito metonímico de ver o mundo. Metonímia: parte pelo todo. Ou seja: uma coisinha de nada é profundamente reveladora. Recomendo o exercício. A vida fica mais colorida e engraçada. Às vezes a gente acerta, às vezes a gente erra. Faz parte do jogo. Mas cá entre nós: com um pouco de treino e disciplina, o índice de acertos é bem alto.

Eu escrevo a você e fico meio orgulhoso. Orgulho de quê? Da minha evolução. De como a minha paciência ficou robusta. Muitos anos atrás, eu não escreveria uma carta: eu mostraria meu desagrado no instante em que os pneus da sua caminhonete cantassem. Eu pediria, todo enfezado, que você baixasse a porcaria do rádio, e diria que ninguém tem a obrigação de ouvir o lixo que você gosta de consumir.

Hoje, o medo que sinto não é exatamente de você, mas de como eu vou reagir. É que eu não quero que a minha vida ande pra trás. Eu tenho pavor de brigas no trânsito. Eu tenho pavor de gente que berra. Eu cheguei a este momento zen da minha vida, mas nada é definitivo. O diabo sempre está à espreita. Assim, quando você para ao meu lado, eu respiro fundo, conto as inspirações e as expirações, e penso nas boas coisas da vida.

Tem dado certo. A minha parte eu estou fazendo. Esta carta é um apelo. Faça a sua parte. Sinta o mundo ao redor. Pense nos sofredores ao seu lado. Hoje, tem muita gente preocupado com "empatia", em "ser empático". Pra variar, estão trucidando as palavras. Estão confundo "simpatia" com "empatia". O simpático é o gente fina. Até que é fácil ser simpático. A simpatia tem um quê de falsidade. E essa falsidade, desde que não seja patológica, é parte do jogo. Do contrário, estaríamos no estado de natureza hobbesiano. Dureza mesmo é a tal da empatia: colocar-se no lugar do outro, tentar sentir o que o outro sente. Impossível atingir a empatia plena, mas vale a pena tentar. Não precisa ser nas grandes coisas, nos grandes dramas. Basta exercitar nas miudezas do cotidiano. Tipo: quando eu canto pneus como um alucinado, a pessoa ao lado tem um sobressalto.

Acho que você entendeu. Forte abraço.


Reunião de condomínio (final)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
À primeira vista, era um cenário de descontração. Salão de festas, cadeiras de metal típicas de boteco, pernas cruzadas, bermudas, chinelos, sapatênis e rasteirinhas. E eu achando que a formalidade imperaria. Numa mesa maior, uma senhora, que representava o escritório de contabilidade que presta serviço ao condomínio, arrumava uns papéis. Ela conduziria a reunião. Perto da senhora do escritório de contabilidade, a conversa corria amena. Tudo indicava que os minutos seguintes seriam exemplares. Seriam uma amostra de como a humanidade pode ser viável. 
Evidentemente, o horário marcado para o início da reunião foi descumprido. Ninguém pareceu dar muita bola. A partir de uma contagem superficial, notei que menos de quarenta por cento dos condôminos que poderiam votar estavam presentes. Vai ver que o resto do pessoal chegaria com alguns minutos de atraso. Não foi o que aconteceu. Chegou somente um retardatário, e logo depois a reunião começou. Sou daqueles que acham que muita coisa nesta vida, para dar certo, depende do ritmo adequado. Vai ver é cacoete de professor meticuloso, que prepara a aula levando em conta que há momentos em que a concentração é maior e que há momentos de dispersão. Não sei se a reunião do condomínio foi planejada levando isso em conta. Talvez tenha sido. Sempre somos gloriosos nos planejamentos. O problema sempre está na execução.

Agora, depois que tudo passou, fico pensando se eu faria diferente caso fosse o responsável pela condução da reunião. Acho que eu levaria em conta o princípio do final feliz. Como se a reunião fosse um roteiro manjado de filme de sessão da tarde. Eu colocaria os problemas mais espinhosos no começo e no meio do encontro. Deixaria o trecho final para a redenção. Ou, no caso, para as amenidades. E cada um voltaria para o seu apartamento pensando que, apesar dos pesares, a vida pode ser conduzida com leveza. Zero de rancor. Zero de conspirações paralelas. Zero de conversas paranoicas indo até meia-noite.

Pena que a reunião foi concebida por alguém com gostos heterodoxos de narrativa e roteiro. Começamos com os assuntos tidos como leves. Aquele tipo de conversa que não tem como ocorrer polêmica. Aquele tipo de conversa que alimenta, de forma traiçoeira, nossa boa vontade. Claro que precisamos analisar a questão do desperdício de água. Claro que precisamos ver como melhorar o funcionamento do aquecedor central. Ficamos um bom tempo fazendo movimentos de concordância com a cabeça. E assim nossas almas foram ficando entorpecidas. Entorpecidas e desarmadas para o que viria a seguir.

A cuíca sempre ronca mais forte quando o assunto versa sobre dinheiro imediato. É que os tópicos da primeira parte do encontro eram, digamos, etéreos. A gente sabia que demoraria um tempão para a verificação do encanamento. A gente sabia que não seria para a semana seguinte que o aquecedor central teria o seu desempenho melhorado. Não parece aquele papo de emagrecer no começo do ano? A gente fala mesmo, numa boa. Dureza é quando chega a fatura, quando é hora de iniciar o regime, quando é hora de assinar o cheque.

Foi assim que caímos das nuvens. Necessário discutir o reajuste da taxa mensal. Também era fundamental encontrarmos meios para aumentar o fundo de reserva. Se pensarmos com calma, não é drama exclusivo de onde moro. Acho que todos os condomínios, horizontais ou verticais, precisam lidar com essas questões. Eu sei que não bato bem das bolas, mas quando a senhora que trabalha para o escritório que faz a contabilidade do prédio levantou os temas dos aportes financeiros, percebi que a maioria dos condôminos sentou mais durinha nas cadeiras de metal. A postura ficou ereta. Deu para ouvir que a respiração também se alterou. A senhora do escritório de contabilidade foi muito profissional quando explicou o que estava acontecendo e o que precisaria ser feito. Pensei: essa senhora poderia trabalhar tranquilamente em Brasília, ocupando cargos de alto escalão no Ministério da Fazenda ou no Ministério do Planejamento. Tudo que ela disse fez sentido. Pensei que todos estávamos de acordo. Mas não estávamos. A divergência ficou evidente quando a discussão entrou no terreno das medidas necessárias para melhorar a saúde financeira do condomínio. Nessas horas, tudo vira sempre um auto de Gil Vicente. Tem tipo de tudo quanto é jeito. Tem o conformado, tem o agressivo, tem o filósofo, tem o estadista, tem o terrorista, tem o cientista maluco. Enfim, vocês sabem como a banda toca.

Horas depois, eu caía exausto na cama, com a convicção de que foi a primeira e última reunião de condomínio da qual eu participaria.


Reunião de condomínio (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
Eu acho que vocês já passaram por isto: nas horas ociosas, os pensamentos nos levam a tópicos interessantes. Por exemplo, meio que rascunhamos uma lista das situações pelas quais jamais passaremos de livre e espontânea vontade. Não conheço a lista de vocês. Talvez vocês não queiram falar a respeito. Eu entendo, mas como sou tagarela, falo um pouquinho da minha lista. 

Sei que jamais irei a uma micareta. Nem sei se existe micareta ainda. Sei que jamais estarei numa estrada rumo ao litoral no dia 31 de dezembro. Sei que jamais estarei no meio de um bloco carnavalesco. Sei que jamais irei a um show de sertanejo universitário. Sei que jamais comprarei um livro de youtuber. Deixando claro que o "jamais" é dito levando-se em conta condições normais de pressão e temperatura. Pode ser que, com uma arma encostada na têmpora, eu reveja meus conceitos. Deixando claro, também, que a lista das situações pelas quais jamais passaremos de livre e espontânea vontade é alterada porque a vida é assim mesmo. Não se entra duas vezes no mesmo rio, essas coisas. Vocês entenderam. (E o tal "jamais" ficou de uma cretinice só.)

O tópico "reunião de condomínio" sempre foi um dos campeões da lista. Não por medo. Acho que era preguiça mesmo. Ou vai ver que tinha a ver com um certo estilo de vida. Essa história de não dar bola para questões triviais como encanamento, fundo de reserva, pintura da fachada, transformação do salão de festas em espaço gourmet, regras para o uso da garagem, dedetização da área comum. Lógico que é uma postura arrogante. Como se eu, o escolhido, o ungido, devesse ocupar meu cérebro com as questões realmente cruciais da nação. Que os mortais comuns queimem suas horas de descanso discutindo ninharias. Dá até vergonha dizer uma coisa dessas, mas não tem problema, não estou aqui para dourar a pílula.

A vida sabe lá jogar sua capoeira. As rasteiras são de ordem variada. E foi assim que participei da minha primeira reunião de condomínio. A Patrícia estava em São Paulo, e não dava para jogar a batata quente no cola dela. O papel grudado no plastiquinho do elevador mostrava pontos importantes que seriam discutidos. Parte crucial da vida do prédio seria discutida na reunião. Não tinha como escapar.

Eu disse acima que não dou bola para questões triviais. Mentira. Eu vivo pensando em abobrinhas. Horas antes da reunião do condomínio, por exemplo, eu não estava matutando sobre posições contundentes que eu poderia assumir nos assuntos mais polêmicos. Eu estava, isso sim, pensando na indumentária dos condôminos. Seria uma coisa mais formal? Seria puro desleixo? Isso realmente me preocupava. Também pensei se haveria algo para comer. A reunião estava marcada para o início da noite, e eu ainda não tinha jantado. Nessas horas, sempre penso no pior. Não terá comida. Melhor devorar uns três sanduíches. Também pensei se o síndico seria uma espécie de magistrado de filme norte-americano, conduzindo as discussões com um martelinho e proferindo sentenças lapidares. Cada condômino teria um tempo determinado para tecer suas considerações? Todos poderiam falar? Questões, como vocês notaram, meio idiotas. Preguiça dá nisso mesmo, minha gente.

E então foram surgindo as perguntas mais relevantes. O que eu vou dizer a respeito da prumada, do sistema de aquecimento a gás, do uso do salão de festas, do fundo de reserva, das questões prementes de segurança, do consumo de água? Vou passar vergonha? Vou contribuir decisivamente para a harmonia do nosso querido edifício?

Bem alimentado, sede saciada, fui à reunião, que seria no salão de festas. Eu estava alguns minutos adiantado. Já tinha gente no salão. Não sou de fazer entradas triunfais. Sempre mapeio o terreno. Não tinha comida. Vi pedaços de pernas: bermudas e chinelos. Cadeirinhas de metal, daquelas que arrebentam a lombar do cidadão e da cidadã. Que ótimo, um clima de descontração e de fraternidade. Um papo cálido. Gente civilizada resolvendo os problemas mais cabeludos. Todos rindo gostosamente ao final da reunião. Minha cândida imaginação trouxe essas imagens de supetão.

Pra variar, eu estava enganado.

(Continua na próxima semana.)


O cronista e os temas




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Quem escreve semanalmente para um jornal já ouviu a pergunta: de onde surgem os temas das crônicas?

Eu gostaria de ser um homem sério e responder: dos mais intrincados problemas da humanidade. Eu gostaria de ser um homem sério e escrever sobre imperativos categóricos, sobre a hiperinflação dos anos 80, sobre a teoria estética de Hegel, sobre a influência do humor britânico na obra do Machado de Assis. Eu bem que tentei numa época, nas primeiras semanas desta coluna. Rapidamente eu percebi que não estava dando certo. Culpa do leitor? De forma alguma. Culpa do cronista. Cem por cento de culpa do cronista.

Como eu não sou um homem sério, quando alguém pergunta de onde surgem os temas das crônicas, eu respondo: da vida.

Juro que não é uma resposta evasiva, daquelas que a gente dá para se livrar de um chato qualquer. É da vida que eu tiro os temas das crônicas. Melhor dizendo: não existe tema desprezível para o cronista. Não deveria existir. Como vocês sabem, o Rubem Braga tirou ouro de uma borboleta amarela. E por aí vai.

Quando eu respondo que a vida dá de bandeja os temas das crônicas, eu não me vejo como um contemplativo iluminado. É justamente o contrário. Sou irritadiço, implicante, resmungão, e um sujeito que reúne tão desprezíveis características está muito longe da sabedoria. E está muito longe da fruição ideal da vida.

Sorte que um sujeito desses, apesar dos pesares, não é um tapado completo. Um sujeito desses tem lá os seus lampejos e consegue perceber o encanto das coisas pequeninas. Importante dizer: essas pequeninas coisas não precisam ser necessariamente bonitinhas. Dá, sim, para escrever uma crônica sobre, sei lá, uma barata voadora, que é o terror condensado em alguns centímetros.

Alguns leitores, ao longo destes anos, vieram até mim, com a maior educação do mundo, dizendo que eu carrego a tinta nas referências autobiográficas depreciativas. Vocês, que me acompanham faz um tempinho, sabem que, vira e mexe, eu registro aqui alguns desastres que protagonizo no cotidiano. Mas fazer o quê? Eu sou meio desastrado mesmo. E tem mais: advogar em causa própria é meio ridículo. Dei até um apelido para gente assim, que advoga em causa própria: cavador de pênalti. Quando um cavador de pênalti desanda a falar de suas espetaculares qualidades, o espetáculo é sempre constrangedor. Constrangedor pela empáfia, e constrangedor porque todos ao redor do cavador de pênalti percebem o ridículo da situação, menos o cavador de pênalti. É como se eu saísse de casa todo emperiquitado e esquecesse de fechar o zíper das calças.

Eu até que gostaria de trazer até vocês as pepitas do cotidiano valendo-me de instrumentos mais objetivos. De vez em quando, bate aquela vontade de escrever aquele texto perfeito, seco, objetivo, com o autor brincando de bancar o invisível. Tentei algumas vezes, mas nunca deu certo. Um texto assim, quando eu tento escrever, fica pedante e sem sal. Tem gente maravilhosa escrevendo desse jeito, pena que não é para mim. E, assim, a gente recorre aos atributos que a natureza nos oferece.

Seria uma tremenda bobagem dizer que eu, ao escrever sobre as trapalhadas e as miudezas da vida, atingi um patamar elevado de sabedoria. Mas seria outra tremenda bobagem dizer que eu, ao escrever sobre as trapalhadas e as miudezas da vida, não me divirto com isso tudo. Não é a diversão histérica dos que gargalham por qualquer coisa. Não é a bondade suspeita dos que acham tudo lindo. Não é a paciência budista dos que olham serenamente para a pessoa que está berrando ao lado. É, isso sim, uma diversão meio amarga, daquelas que não transtornam o juízo. É, isso sim, a arma de que disponho para enfrentar as canalhices, as maldades, as crueldades, as sacanagens, as rasteiras. É uma tentativa, isso sim, de atravessar a vida com uma certa dignidade.

E é por isso que eu gosto de responder que a vida oferece os temas para as minhas humildes crônicas.


A vida contemporânea explicada por um velho




Nelson Fonseca
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
(segunda parte)

Acabei enrolando vocês no último texto. A ideia inicial era dar conta do recado em apenas uma coluna. Pena que, no texto da semana passada, parte considerável dele -- mais da metade -- foi ocupada por um preâmbulo que, agora percebo, poderia ocupar apenas um parágrafo. Mas não tem problema. Coisas da vida. Estou aqui para arrumar as cretinices que às vezes escapam.

Não sei se vocês estão lembrados, mas eu tinha explicado o que era o YouTube e o que eram os youtubers. A Patrícia e eu gastamos alguns minutos cruciais acompanhando vídeos de youtubers que davam dicas de leitura. Constatamos que havia uma uniformidade irritante. Eu poderia escrever um texto mais frio descrevendo o fenômeno, mas achei melhor recorrer a um tempero mais picante. O que vocês lerão a seguir é uma espécie de síntese da fala dos youtubers que dão dicas de leitura. Sou o primeiro a reconhecer: é um processo artificial. Por outro lado, não inventei nada. Comecemos.

(Cenário: um cômodo de apartamento. Uma prateleira branca ao fundo. Livros e bonequinhos de heróis de histórias em quadrinhos. O youtuber tem uns trinta anos. Óculos de aros grossos. Camiseta com dizeres engraçadinhos. Antes de o youtuber começar a falar a respeito de algum livro, alguns segundos de tentativas de ajeitar a câmera e caretas de menino trapalhão.)

"Fala, galeraaaaaaa! Hoje eu vou falar sobre livros superbacanas da literatura brasileira! Curtam a página e comprem o livro pelo link que aparece no canto da tela! Eu ainda não li os livros, mas uma galera falou que eles são superlegais! O primeiro deles (o youtuber se esforça para pegar um livro da pilha) é de uma menina superfofa que eu conheci na Bienal. É uma história meio fantasiosa. É meio ficção científica e tem muita magia também. Eu não sei direito o que acontece nele, galera. Mas tem um monte de seguidor dizendo que é muito, muito, muito bom. Então eu decidi ler. Olha como a capa é superlinda. Esse é o primeiro livro que eu vou ler pro desafio. Eu ia ler este livro no ano passado, mas apareceram umas outras coisas, e eu não consegui ler. Eu só li umas dez páginas, mas eu esqueci tudo. (Surge um barulhinho para marcar a trapalhada). Não esquece de dar um joinha na página. Comente um livro que você gostou de ler, e eu vou tentar colocar na minha listinha. O próximo livro, que eu ainda não li, a editora X mandou. Nos próximos meses eu vou fazer uma resenha só sobre ele. É só fazer parte do canal aqui no Youtube. Não esquece de dar um joinha. Tipo assim, o livro que a editora X mandou veio numa caixinha superbacana. (O youtuber acaricia fervorosamente a caixinha). É a história de um serial killer que gosta de adotar gatinhos de rua. Aí, ele se apaixona por uma menina que não gosta de conversar com ninguém. É superatual. Pareque que vai virar seriado na Netflix. Mas eu prefiro ler antes. Ler é tudo de bom. Não esqueça de mandar um joinha. No fim do ano eu vou sortear um box com uns livros em capa dura, uma caneca personalizada e bloquinho com capa de couro. Pra participar, é só se inscrever no canal. Ajuda aí, galera. O próximo livro quem indicou foi o Tatau, lá nos comentários. Eu não sei direito sobre o que é, mas parece que é sobre pacto fáustico. Eu adoro pacto fáustico. Sempre que tem pacto fáustico num livro eu compro na hora. Então, este livro que o Tatau indicou é bem gordinho. Tem umas duzentas páginas. Então, eu vou ler o livro nos próximos meses. Quando der, eu falo uma resenha só sobre ele. Eu vou tentar cumprir as promessas neste ano. No ano passado não deu certo. Eu esqueci por qual motivo não deu certo. (Musiquinha: toin oin oin oin). O próximo livro é um clássico. É bom ler um clássico. É o livro "São Bernardo", do Graciliano Ramos. Tem um monte de gente nos comentários falando que eu tenho que ler. Parece que tem referências ao diabo. (Faz parte do jogo. O youtuber, no auge da empolgação, confundiu "São Bernardo" com "Grande sertão: veredas"). Então é isso, galera! Semana que vem eu volto com um outro vídeo. Manda um joinha. Clique no link. Tchau!"

(Por alguns minutos, uma musiquinha fofinha toca, enquanto não aparecendo os erros de gravação: o youtuber gaguejando; o youtuber gesticulando afobadamente, derrubando um dos bonequinhos da estante; o youtuber interrompendo a fala por causa do cãozinho Lulu da Pomerânia que resolveu dar um latidinho agudo.)

E assim passamos a nossa noite de sábado, na companhia de gente como a gente. Na companhia de gente que faz.