LETRA VIVA


O cronista e os temas




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Quem escreve semanalmente para um jornal já ouviu a pergunta: de onde surgem os temas das crônicas?

Eu gostaria de ser um homem sério e responder: dos mais intrincados problemas da humanidade. Eu gostaria de ser um homem sério e escrever sobre imperativos categóricos, sobre a hiperinflação dos anos 80, sobre a teoria estética de Hegel, sobre a influência do humor britânico na obra do Machado de Assis. Eu bem que tentei numa época, nas primeiras semanas desta coluna. Rapidamente eu percebi que não estava dando certo. Culpa do leitor? De forma alguma. Culpa do cronista. Cem por cento de culpa do cronista.

Como eu não sou um homem sério, quando alguém pergunta de onde surgem os temas das crônicas, eu respondo: da vida.

Juro que não é uma resposta evasiva, daquelas que a gente dá para se livrar de um chato qualquer. É da vida que eu tiro os temas das crônicas. Melhor dizendo: não existe tema desprezível para o cronista. Não deveria existir. Como vocês sabem, o Rubem Braga tirou ouro de uma borboleta amarela. E por aí vai.

Quando eu respondo que a vida dá de bandeja os temas das crônicas, eu não me vejo como um contemplativo iluminado. É justamente o contrário. Sou irritadiço, implicante, resmungão, e um sujeito que reúne tão desprezíveis características está muito longe da sabedoria. E está muito longe da fruição ideal da vida.

Sorte que um sujeito desses, apesar dos pesares, não é um tapado completo. Um sujeito desses tem lá os seus lampejos e consegue perceber o encanto das coisas pequeninas. Importante dizer: essas pequeninas coisas não precisam ser necessariamente bonitinhas. Dá, sim, para escrever uma crônica sobre, sei lá, uma barata voadora, que é o terror condensado em alguns centímetros.

Alguns leitores, ao longo destes anos, vieram até mim, com a maior educação do mundo, dizendo que eu carrego a tinta nas referências autobiográficas depreciativas. Vocês, que me acompanham faz um tempinho, sabem que, vira e mexe, eu registro aqui alguns desastres que protagonizo no cotidiano. Mas fazer o quê? Eu sou meio desastrado mesmo. E tem mais: advogar em causa própria é meio ridículo. Dei até um apelido para gente assim, que advoga em causa própria: cavador de pênalti. Quando um cavador de pênalti desanda a falar de suas espetaculares qualidades, o espetáculo é sempre constrangedor. Constrangedor pela empáfia, e constrangedor porque todos ao redor do cavador de pênalti percebem o ridículo da situação, menos o cavador de pênalti. É como se eu saísse de casa todo emperiquitado e esquecesse de fechar o zíper das calças.

Eu até que gostaria de trazer até vocês as pepitas do cotidiano valendo-me de instrumentos mais objetivos. De vez em quando, bate aquela vontade de escrever aquele texto perfeito, seco, objetivo, com o autor brincando de bancar o invisível. Tentei algumas vezes, mas nunca deu certo. Um texto assim, quando eu tento escrever, fica pedante e sem sal. Tem gente maravilhosa escrevendo desse jeito, pena que não é para mim. E, assim, a gente recorre aos atributos que a natureza nos oferece.

Seria uma tremenda bobagem dizer que eu, ao escrever sobre as trapalhadas e as miudezas da vida, atingi um patamar elevado de sabedoria. Mas seria outra tremenda bobagem dizer que eu, ao escrever sobre as trapalhadas e as miudezas da vida, não me divirto com isso tudo. Não é a diversão histérica dos que gargalham por qualquer coisa. Não é a bondade suspeita dos que acham tudo lindo. Não é a paciência budista dos que olham serenamente para a pessoa que está berrando ao lado. É, isso sim, uma diversão meio amarga, daquelas que não transtornam o juízo. É, isso sim, a arma de que disponho para enfrentar as canalhices, as maldades, as crueldades, as sacanagens, as rasteiras. É uma tentativa, isso sim, de atravessar a vida com uma certa dignidade.

E é por isso que eu gosto de responder que a vida oferece os temas para as minhas humildes crônicas.


A vida contemporânea explicada por um velho




Nelson Fonseca
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
(segunda parte)

Acabei enrolando vocês no último texto. A ideia inicial era dar conta do recado em apenas uma coluna. Pena que, no texto da semana passada, parte considerável dele -- mais da metade -- foi ocupada por um preâmbulo que, agora percebo, poderia ocupar apenas um parágrafo. Mas não tem problema. Coisas da vida. Estou aqui para arrumar as cretinices que às vezes escapam.

Não sei se vocês estão lembrados, mas eu tinha explicado o que era o YouTube e o que eram os youtubers. A Patrícia e eu gastamos alguns minutos cruciais acompanhando vídeos de youtubers que davam dicas de leitura. Constatamos que havia uma uniformidade irritante. Eu poderia escrever um texto mais frio descrevendo o fenômeno, mas achei melhor recorrer a um tempero mais picante. O que vocês lerão a seguir é uma espécie de síntese da fala dos youtubers que dão dicas de leitura. Sou o primeiro a reconhecer: é um processo artificial. Por outro lado, não inventei nada. Comecemos.

(Cenário: um cômodo de apartamento. Uma prateleira branca ao fundo. Livros e bonequinhos de heróis de histórias em quadrinhos. O youtuber tem uns trinta anos. Óculos de aros grossos. Camiseta com dizeres engraçadinhos. Antes de o youtuber começar a falar a respeito de algum livro, alguns segundos de tentativas de ajeitar a câmera e caretas de menino trapalhão.)

"Fala, galeraaaaaaa! Hoje eu vou falar sobre livros superbacanas da literatura brasileira! Curtam a página e comprem o livro pelo link que aparece no canto da tela! Eu ainda não li os livros, mas uma galera falou que eles são superlegais! O primeiro deles (o youtuber se esforça para pegar um livro da pilha) é de uma menina superfofa que eu conheci na Bienal. É uma história meio fantasiosa. É meio ficção científica e tem muita magia também. Eu não sei direito o que acontece nele, galera. Mas tem um monte de seguidor dizendo que é muito, muito, muito bom. Então eu decidi ler. Olha como a capa é superlinda. Esse é o primeiro livro que eu vou ler pro desafio. Eu ia ler este livro no ano passado, mas apareceram umas outras coisas, e eu não consegui ler. Eu só li umas dez páginas, mas eu esqueci tudo. (Surge um barulhinho para marcar a trapalhada). Não esquece de dar um joinha na página. Comente um livro que você gostou de ler, e eu vou tentar colocar na minha listinha. O próximo livro, que eu ainda não li, a editora X mandou. Nos próximos meses eu vou fazer uma resenha só sobre ele. É só fazer parte do canal aqui no Youtube. Não esquece de dar um joinha. Tipo assim, o livro que a editora X mandou veio numa caixinha superbacana. (O youtuber acaricia fervorosamente a caixinha). É a história de um serial killer que gosta de adotar gatinhos de rua. Aí, ele se apaixona por uma menina que não gosta de conversar com ninguém. É superatual. Pareque que vai virar seriado na Netflix. Mas eu prefiro ler antes. Ler é tudo de bom. Não esqueça de mandar um joinha. No fim do ano eu vou sortear um box com uns livros em capa dura, uma caneca personalizada e bloquinho com capa de couro. Pra participar, é só se inscrever no canal. Ajuda aí, galera. O próximo livro quem indicou foi o Tatau, lá nos comentários. Eu não sei direito sobre o que é, mas parece que é sobre pacto fáustico. Eu adoro pacto fáustico. Sempre que tem pacto fáustico num livro eu compro na hora. Então, este livro que o Tatau indicou é bem gordinho. Tem umas duzentas páginas. Então, eu vou ler o livro nos próximos meses. Quando der, eu falo uma resenha só sobre ele. Eu vou tentar cumprir as promessas neste ano. No ano passado não deu certo. Eu esqueci por qual motivo não deu certo. (Musiquinha: toin oin oin oin). O próximo livro é um clássico. É bom ler um clássico. É o livro "São Bernardo", do Graciliano Ramos. Tem um monte de gente nos comentários falando que eu tenho que ler. Parece que tem referências ao diabo. (Faz parte do jogo. O youtuber, no auge da empolgação, confundiu "São Bernardo" com "Grande sertão: veredas"). Então é isso, galera! Semana que vem eu volto com um outro vídeo. Manda um joinha. Clique no link. Tchau!"

(Por alguns minutos, uma musiquinha fofinha toca, enquanto não aparecendo os erros de gravação: o youtuber gaguejando; o youtuber gesticulando afobadamente, derrubando um dos bonequinhos da estante; o youtuber interrompendo a fala por causa do cãozinho Lulu da Pomerânia que resolveu dar um latidinho agudo.)

E assim passamos a nossa noite de sábado, na companhia de gente como a gente. Na companhia de gente que faz.


A vida contemporânea explicada por um velho




(primeira parte)
Nelson Fonseca Neto 
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Eu já escrevi aqui em outras ocasiões: sou um velho. Tenho 40 anos, e quando digo que sou velho muita gente acha que estou fazendo graça. Não é o caso. É o momento de explicar a minha velhice. Que fique claro logo de saída: a minha velhice é espiritual. Quanto aos aspectos físicos, eu engano bem. As pessoas acham que eu tenho trinta e poucos. Só uns fiozinhos brancos despontaram por enquanto. Não consigo detectar rugas profundas. Uma vez ou outra, o joelho operado dá sinal de vida. Mas não quero falar de corpo. Hoje eu estou transcendente. O assunto é a alma, o espírito.

Constato que a minha alma é de velho, e não vejo isso como um problema. Também não acho a coisa mais espetacular deste mundo. As coisas são como são. Não adianta chorar ou ficar eufórico. O negócio é tocar o barco com os equipamentos que a vida nos oferece.

São vários os exemplos que comprovam a velhice da minha alma. Não sou frenético. Não berro. Não gosto muito de sair de casa. Gosto de ler livros do século 19. Dirijo com muito cuidado. Mexo mal e porcamente no computador. Não faço transações financeiras pelo celular. Acho que o Atari é o videogame definitivo. Na fala, procuro usar corretamente as regências. Por exemplo, quando uso a palavra CERTEZA, recorro ao DE. Certeza de alguma coisa. Não consigo mais acordar muito tarde. Umas seis horas de sono já bastam. Essas coisas.

Pensando bem, não sou um velho tão puro assim. Tenho uma tatuagem. Às vezes, solto uns palavrões. Sou bem entrosado com os alunos adolescentes. Tenho conta no Facebook. Tenho um smartphone. Acompanho séries da HBO. Faço vídeos com palhaçadas. É uma velhice meio moleca, digamos assim.

Mas por que estou escrevendo essas coisas? Meditações profundas a respeito da alma? Bem que eu queria que fosse isso. Mas não é. O que vocês leram até aqui é um preâmbulo para o assunto principal. É que eu queria falar a respeito de youtubers que dão dicas de livros. Para os que também têm a alma idosa, um esclarecimento. Na internet, tem um negócio chamado YouTube. Já faz tempo que o YouTube virou febre. Lá vocês encontram vídeos de tudo quanto é tipo: filmes novos e antigos de longa duração, programas de televisão, comerciais antigos e vídeos feitos por gente do mundo inteiro (nenezinhos fofos, gatinhos e cachorrinhos aprontando, gente tropeçando na calçada, acidentes; enfim, coisas filmadas e protagonizadas por gente como a gente). De uns anos pra cá, pessoas descobriram que dá para ganhar uma boa grana com esses vídeos feitos por gente como a gente. São os famosos youtubers. E tem youtuber de tudo quanto é jeito. Tem o youtuber que dá dica de maquiagem, o youtuber especializado em videogame, o youtuber professor, o youtuber consultor de moda, o youtuber humorista etc. E tem o youtuber que dá dicas de livros.

Eu já tinha ouvido falar a respeito, mas confesso que tinha preguiça de encarar vídeos com dicas de leitura. Até que, poucos dias atrás, a Patrícia e eu resolvemos ver uns vídeos de dicas de leitura.

Foi numa madrugada de sábado. Tínhamos visto dois episódios geniais da série do Larry David. Estávamos bem nutridos. Decidimos, então, ver os vídeos com dicas de leitura no meu celular. Ficamos quase uma hora vendo dezenas de vídeos. Trocamoss olhares de perplexidade. Emitimos opiniões.

É triste dizer: encontramos um padrão. Padrão é bom pra um monte de coisa na vida. Dá estabilidade, não nos faz sair roendo a unha a cada instante. Mas há limites para o padrão. Ver gente do Brasil inteiro falando, nos vídeos, do mesmo jeito, com a mesma entonação de voz, recorrendo aos mesmos efeitos especiais e às mesmas piadas, convenhamos, é um pouco assustador. Um pouco, não: muito assustador.

Como eu prometi que em 2018 eu seria um homem útil para a sociedade, mostrarei para vocês, na semana que vem, o resultado de nossa pesquisa. É a chance que vocês terão para conhecer esse fenômeno -- o youtuber -- do mundo contemporâneo.


Na praia (segunda parte)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Semana passada, escrevi um pouco sobre praias que eu considerava boas e praias que eu considerava ruins. Tentei mostrar minha paixão por praias mais tradicionais (por exemplo: Mongaguá, Praia Grande, Santos, São Vicente e Guarujá). E mostrei minha aversão por praias paradisíacas.

Meus critérios são marcados pela subjetividade e, claro, pela memória. Fui feliz nas praias tradicionais. Sei como funciona o esquema nas praias paradisíacas. Mas acho que ficaria meio chato se eu escrevesse sobre o assunto sem entrar em detalhes. Ficaria parecendo coisa de cara birrento.

Quero que o meu julgamento seja, na medida do possível, distanciado. Quero encontrar os fios que possam amarrar paixões e aversões. Acho que encontrei um desses fios: a quantidade de natureza presente nas praias. Convém dizer que eu não sou um apaixonado por praias. Prefiro montanhas. Campos do Jordão ou Santo Antônio dos Pinhais (onde minha mãe nasceu) são lugares de sonho. Um dia eu ainda escrevo sobre o fascínio das montanhas, do tempo nublado, da chuva fininha.

Voltando às praias. Prefiro as que são mais urbanizadas, as que têm as avenidas principais bem iluminadas, as que têm livrarias, shoppings, vários tipos de restaurantes e bons hotéis. Tenho medo de pousadas, pois elas lembram cenários de filme de terror. Eu sei que é maluquice minha, mas as coisas são como são. Ué, mas praia não é natureza? Em partes, sim. Ué, não é paradoxal preferir praias urbanizadas? Talvez seja. Só que eu não consigo desgostar das praias tradicionais.

Acho das coisas mais alegres desta vida ver, tarde da noite, avenidas praianas movimentadas e barulhentas. São os sons que embalam o meu sono. Até que há um pouco de coerência aqui: não importa onde eu esteja, sempre durmo com a televisão ligado num volume baixinho. O silêncio maciço é perturbador para mim.

(Não deixa de ser curioso: passo vários dias do ano reclamando do movimento intenso em nossa cidade, mas fico deliciado com essa movimentação, elevada ao quadrado, nas praias do meu afeto.)

Não é preciso ser muito inteligente para saber que muitas de nossas preferências são moldadas na infância. Se, quando criança, eu frequentasse praias paradisíacas, certamente, hoje, elas estariam entre as minhas preferidas. Mas, para minha sorte, passei os anos cruciais da infância na praia de São Vicente. A família da minha tia Romilda tinha um apartamento lá, de frente para o mar e para a ilha Porchat. Da janelona da sala, víamos a avenida quase sempre entupida. Tarde da noite, eu, meu irmão e meus primos ficávamos jogando Banco Imobiliário na sala, enquanto o zunido se incorporava ao prazer de estarmos na praia, com os horários bagunçados, com as refeições fora de hora e várias outras delícias. Na praia da minha infância, sempre tinha um parquinho de diversões ou um circo por perto. Ver tudo aquilo brilhando, com o marzão ao fundo, foi uma experiência das mais fundamentais.

Como eu dizia, essas experiências da infância são cruciais. Ter feito um intensivão em São Vicente condicionou tudo o que veio depois. Como Santos é continuação de São Vicente, passou a fazer parte dos meus prazeres. Em que pese, pelo menos nos anos 80, um certo quê de esnobismo, o Guarujá também entrou na lista a partir da adolescência. Mongaguá, em escala reduzida, pertence ao mesmo tronco. Só fui conhecer, pra valer, a Praia Grande em janeiro deste ano. Tardiamente, ela entrou na lista, e dela não sai mais.

Passei as duas últimas semanas falando sobre praias, e talvez isso passe uma ideia equivocada: que o meu sonho é morar na praia, passando horas sentado no quiosque de batidinhas e porções. Não é pra tanto. Praia é bom, mas com moderação. Praia é bom pra passar alguns dias. Deve ser angustiante morar na praia nos meses de frio. Gosto do que faço, gosto de onde moro. Em alguns momentos do ano, a gente cansa da correria, mas isso passa. Um dos meus maiores medos: o dia típico de praia sendo replicado 365 vezes por ano.

Praia e férias são que nem leite condensado. Uma delícia nas primeiras colheradas. Um horror quando a lata chega na metade.


Na praia (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Conheço muita gente que adora viajar. É um treco meio místico. Para essas pessoas, o ano sem viagem marcante é maldito. Eu não estou brincando. Conheço gente assim. Se a grande viagem não acontece, o trauma é atroz. Longe de mim, ditar como as pessoas devem agir. Cada um sabe como o sapato aperta. Eu apenas quero falar, aqui, sobre viagens e praias.

Eu não adoro viajar. Digo mais: eu evito viajar. Não pensem que sou paranoico, que fico imaginando os desastres que rodeiam a mais trivial das viagens. Também conheço gente assim, mas não é o meu caso. Eu não viajo porque sou preguiçoso. Preguiça na hora de procurar um hotel. Preguiça de levar o carro pra revisão. Preguiça de enfrentar aeroportos. Preguiça de fazer malas. Preguiça de voltar cansado. Preguiça de encontrar a correspondência acumulada. Essas coisas.

Mas tem hora que não dá pra escapar. Não estou falando de viagens de negócios de suma importância. O que eu quero dizer é o seguinte: tem hora que a pessoa amada profere palavras melífluas, e aí fica difícil dizer não. Se a Patrícia pedir para eu sair pelado pelas ruas, eu saio. Sorte que ela é a mulher das palavras razoáveis. Desta vez, ela quis ir à Praia Grande.

Não tinha como negar. Viagem curta: ir no sábado e voltar no domingo. Meu sogro, minha sogra, meu cunhado e minha cunhada também iriam. Tudo colaborando para uma viagem amena. E foi mesmo. As estradas não estavam entupidas, as acomodações eram confortáveis, pouca bagagem no carro.

Parece pouca coisa, mas não é. Praia Grande estava cheia. A avenida principal estava repleta de carros, motos, bicicletas, trenzinhos e pedestres. Teve show do mágico no calçadão. A credencial do mágico: ter trabalhado no programa do Gugu Liberato. Os quiosques servindo caipirinhas encorpadas e porções cheirosas. Velhinhos nos bancos. A criançada lambuzando a cara de sorvete. Onze e meia da noite: a multidão batendo perna pela orla.

Para muita gente, o parágrafo que acabei de escrever é o retrato da praia ruim. Quem acha que é o retrato da praia ruim, me desculpe, não sabe aproveitar as coisas boas da vida. Quem acha isso, gosta, claro, das praias desertas, paradisíacas, situadas nos cafundós.

Desculpem se exagero, mas prefiro fazer um canal sem anestesia a ir a uma praia paradisíaca. Fazer um canal sem anestesia é ruim, mas a dor passa logo, é só tomar uns analgésicos potentes. O sofrimento que envolve uma praia paradisíaca é muito mais longo.

Começa pela dificuldade de se encontrar a dita cuja. O peregrino precisa de paciência para enfrentar umas estradinhas assustadoras. Mas isso não é o pior. A praia paradisíaca não tem a estrutura mínima para acolher o homem civilizado. Ou você acaba refém de um resort estelionatário ou depende de uma pousada que de ingênua só tem a fachada. Se o pneu do carro estoura, o borracheiro cobrará uns cinco mil reais pelo serviço. Isso se ele estiver de bom humor. Isso se ele for com a sua cara. Mas isso, por incrível que pareça, não é o pior.

O pior, claro, está nas pessoas. É que as pessoas que vão às praias paradisíacas são musculosas, ratazanas de academia, donas de óculos escuros gigantescos, conhecedoras de todas as dietas. Talvez a explicação para a minha aversão seja simples: eu sou gordo. A procissão de corpos perfeitos é um fator inibidor. Melhor dizendo, acho que o meu sobrepeso explica boa parte da minha aversão, mas não toda ela. Completando: os sarados e as saradas adoram tirar selfie fazendo bico. E isso eu não posso suportar. Mas paro por aqui com o azedume. Quero falar de coisas boas.

Na Praia Grande, encontramos os pneuzinhos, as celulites, as barriguinhas e as barrigonas. Lá, todo mundo é feliz com o corpo que tem. Vendo o desfile de tantas imperfeições, não teve como não descobrir que a humanidade ainda é viável. E não teve como não rever as praias da infância e da adolescência.

E é sobre essas praias verdadeiramente paradisíacas que eu escreverei na próxima semana.

Até lá.


Festa junina em janeiro




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Dizem que sou bonachão. Acho que é verdade. Poucas coisas me irritam, e uma delas é o calor. Fico triste quando acordo e vejo o céu escandalosamente azul. Vou trabalhar empolgado quando percebo que a chuvinha vai persistir o dia inteiro.

Demorei um bom tempo para encontrar uma tática que me ajudasse a suportar o calorão de janeiro. Importante dizer que a minha tática revela evolução espiritual. Aprendi a suportar o calor lendo textos que mostram os detalhes da Sibéria. Também pode ser uma viagem mental a épocas de glorioso frio. É o que estou fazendo neste momento. Meu cérebro está dominado por músicas, cheiros e imagens de festas juninas. Não estou pensando nas festas juninas da escola. Sim, elas eram maravilhosas, mas não é nelas que eu estou pensando. Eu estou, isso sim, de volta às festas juninas do CIC. Sei que vai parecer que eu tenho algum problema mental ao pensar em festa junina em janeiro, mas não tem problema. Ao longo destes anos, vocês já conhecem as minhas entranhas.

Sempre que eu passo em frente ao estádio na Santa Rosália e vejo aquela praça desolada, lembro que em junho e julho, lá pelos anos 80 e 90, a vida ficava mais colorida. Era um ritual familiar ir algumas noites bater perna naquele caos junino. Claro que a memória é traiçoeira e megalomaníaca, mas tenho certeza de que a cidade inteira cabia naquele terreno de terra batida.

Hoje, aos 40 anos, sou um sujeito mais precavido. Nem chego perto da maionese que repousa matreira na mesa do churrasco. Esse é um exemplo. Eu poderia dar outros, mas não quero embaralhar este texto. Sou um sujeito mais precavido, mais prudente, e olho um pouco horrorizado para as festas que aconteciam no CIC. Não estou falando da alimentação. Sempre me pareceu que as barraquinhas eram confiáveis. O que me espanta hoje era a imprudência no quesito brinquedos.

Eu era criança naquela época, mas já tinha capacidade para perceber a precariedade daquelas coisas. Quando ventava um pouco mais forte, a estrutura da montanha-russa dava umas balançadas esquisitas. Tinha um brinquedo em forma de prato, chamado Samba ou La Bamba, que arrebentava a espinha dos incautos. Juro que já vi gente sair de lá mancando feio ou com a boca sangrando. O espaço do carrinho de bate-bate era um terror. A gente levava uns trancos pesados na cervical. Como nunca tive índole agressiva, eu era o alvo preferencial dos frequentadores mais sádicos.

Entrava ano, saía ano, eu tinha que fazer meditação transcendental para enfrentar o trem-fantasma. Claro que eu sabia que aquilo era tosco, de mentira, ridiculamente de mentira. Mas vá fazer um ansioso nato encarar as coisas com a frieza necessária. Os minutos que antecediam a ida ao trem-fantasma eram testes para a bexiga e para o intestino. Depois, quando não tinha mais jeito, quando eu estava no carrinho, as coisas ficavam mais amenas. O trajeto durava, quando muito, uns dois minutos. Tinha o boneco de vampiro que levantava do caixão, tinha a moça toda ensanguentada, tinha uma caveira infame que esguichava água. O som lá dentro era repleto de gritos e de risadas tenebrosas. Eu saía de lá me sentindo a pessoa mais destemida do mundo. Essa empáfia durava até o meio do ano seguinte. Nunca mais fui a um trem-fantasma, estou bem mais velho, mas não consigo afirmar que iria sem medo novamente a um deles. Eu quero acreditar que iria sem medo. Como é bom ser otimista!

Eu lembro dos brinquedos, dos barulhos, da música, da comida. Eu lembro de tudo. E o mais importante: eu lembro do vento gelado. Eu lembro de ir à festa do CIC todo encapotado. E todo mundo estava encapotado. O frio de antigamente era mais encorpado. Será que estou ficando maluco? Não, não estou. O frio de antigamente era mais encorpado mesmo. Não aceito réplica. Eu preciso me nutrir de algumas poucas certezas.

Faz muito tempo que não tem mais festa junina no CIC. Sou um homem de fidelidades, e me recuso a ir aos lugares que o poder público escolheu nos últimos anos. Minha cabeça guarda as melhores festas juninas, com as comidas gordurosas, com os brinquedos perigosos, com o frio de cortar o rosto. E o frio de cortar o rosto daqueles junhos antigos me ajuda a encarar os janeiros infernais.


Dias de folga




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Estou aproveitando meus dias de recesso escolar. Os horários de dormir e acordar estão caóticos. E é bom que estejam. Dá para passear de improviso. Mais ou menos assim: Ei, amada esposa, que tal um pulinho em São Paulo? Podemos ver, soterrados pela pipoca, vários episódios do seriado do Larry David. Acho que vocês entenderam.

E dá para pensar em besteiras. Por exemplo, tabelinha com qualidades e defeitos. No caso, as minhas qualidades e defeitos. Não coloquei no papel. Ficou tudo zumbindo na cabeça. Quero dividir com vocês.

Vamos falar de coisas boas? Comecemos com as qualidades. Não costumo berrar. Guio meu carro sem acelerar demais. Detesto buzinar. Não sou muquirana. Ajudo as livrarias locais gastando uma parte suculenta do meu orçamento. Não tenho moto. Sou um ouvinte atento. Leio literatura russa. Não dou carteirada (pensando bem, nem teria como: não sou autoridade, não sou celebridade; pior, não tenho carteira, uso o plastiquinho de despachante do Keini para guardar documentos e cartões). Não sou metido a sommelier. Minha barba não é desenhada. Não falo "top" ou "topzeira". Só não gosto de comer ervilha torta, melão, melancia, frango ensopado e maionese. O resto cai muito bem neste corpanzil.

E assim acabaram as qualidades. Passemos aos defeitos. Só que não vai ter listinha. Não teria como ser uma listinha. Seria o "Guerra e paz" do século 21. Agora, peneirando os defeitos, consigo achar um que representa muito do que sou: minha absoluta falta de senso prático.

Conheço pessoas desprovidas de senso prático que são meio esnobes. Como se bater um prego fosse a mácula no caráter do intelectual. Mas eu não sou assim. Muito pelo contrário. Morro de vergonha quando vejo alguém abrindo o capô do meu carro e dizendo que o problema está na junção da peça X com o fio Y. E a pessoa diz isso com uma serenidade esmagadora. Dá vergonha porque, minutos antes do incidente com o carro, eu achava que tudo explodiria, formando uma nuvem em forma de cogumelo que chamaria a atenção de todos os sorocabanos.

Cresci numa época em que os adultos tinham em casa -- e guardavam com zelo maníaco -- a sacrossanta caixa de ferramentas. Sempre foi um assombro ver alguém lidando com uma furadeira. Demorei décadas para entender o que é uma chave Phillips. Aqui em casa, a dona da caixa de ferramentas é a Patrícia, e ela adora brincar com os trecos. Tenho certeza de que casei com o MacGyver.

A Patrícia e eu gostamos de bater perna por essas lojas de móveis mais moderninhas (Etna e Tok Stok). Vários dos móveis do nosso apartamento vieram dessas lojas. (Um dia, juro, escreverei sobre a experiência constrangedora de um sujeito do meu tamanho seguindo as setinhas coladas no chão dessas lojas e morrendo de medo de dar uma trombada nas centenas de vasinhos de cristal.) Não tem como não reparar nos dois preços que aparecem nas etiquetas de cada móvel. Preço maior para entrega do móvel montado, preço menor para o cliente que estiver disposto a levar os pedaços do móvel e montar tudo em casa. Do ponto de vista estritamente econômico, a diferença é compensadora. Compensadora para quem tem um mínimo de senso prático. Compensadora para a Patrícia, a minha amada MacGyver.

Compramos um dos móveis pelo sistema de levar e montar em casa. Eu lembro que fazia um calorão. Minhas mãos ficam suadas em dias de calorão. Subimos com as caixas e as deixamos num dos quartos. Eu nem saberia como abrir as caixas. A Patrícia pegou um estilete e cortou as fitas rapidamente. Dentro das caixas, peças que nem remotamente pareciam com o móvel que tínhamos visto na loja. Além das peças, um diagrama que, para mim, era James Joyce na versão aramaica. E não é que a MacGyver bateu os olhos no papel e disse que aquilo seria fácil, fácil. O ideal seria que eu deixasse a Patrícia sozinha no quarto, para evitar acidentes. Mas, aí, seria muita omissão.

E foi assim que eu, gloriosamente, passei alguns minutos segurando parafusos e estaquinhas para a minha amada esposa. Um passo de cada vez, já diria a sabedoria popular.


Na lojinha




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
 
Uma das boas épocas do ano é o intervalo entre o Natal e o réveillon. Cidade vazia, trânsito civilizado, essas coisas. Não costumamos viajar nessa época do ano. A cidade é só nossa. É bom cultivar esse tipo de ilusão.

Passamos os dias de folga vendo seriados, lendo, falando abobrinhas, comendo porcarias. Dá para dormir tarde sem dramas de consciência. Acordar tarde já é outra história. Não somos adolescentes. Nem me lembro mais quando foi que acordei depois das dez da manhã.

Também vamos ao shopping. O contraste é dos mais interessantes. Dias antes, o shopping era o inferno na terra. Chegar até lá já era teste para pessoas calminhas. Depois tinha a luta renhida por uma vaga no estacionamento. Depois tinha aquele mundaréu de gente nos corredores. Depois tinha a fome. Depois tinha os pés em frangalhos. De uma semana para a outra, as coisas voltam aos seus lugares. Ainda bem. Fica fácil achar a vaga de sempre, perto do elevador. Dá até para dançar nos corredores largos.

Houve uma época em que eu ficava meio envergonhado de dizer que passeava no shopping. Não que eu ache o shopping a coisa mais legal deste mundo. Ainda estou com as faculdades mentais intactas, acho. Mas não vou forçar a barra e fingir que nunca entrei num shopping, que só compro alimentos orgânicos, que faço minhas próprias camisas, que caço meus alimentos. Por incrível que possa parecer, eu não sou o Rodrigo Hilbert.

E foi num shopping, nos dias de bobeira boa, que esbarramos, a Patrícia e eu, em algo interessante. Antes, uma confissão: adoro lojinhas que vendem cacarecos. Herança dos anos 80. Eu era alucinado por lojinhas que vendiam, num belíssimo sururu, perfumes, joguinhos eletrônicos, telefones, isqueiros, relógios, walkman, bonequinho do He-Man. Vocês se lembram da desgraça que era conseguir uma mísera batata Pringle"s. Tínhamos que aceitar as falsificações mais toscas. Quem não viveu nos anos 80 não sabe o que é crise.

Com o tempo, é inevitável, as lojinhas de cacarecos perderam espaço. Ficou mais fácil importar as tranqueiras. Ficou mais fácil ir aos EUA. Ganhou-se em comodidade, perdeu-se em magia. Tudo que é obtido com sacrifício é mais valorizado. As lojinhas foram perdendo espaço, mas não desapareceram. E entramos numa dessas lojinhas num dos dias de bobeira.

Entramos porque eu sou um nostálgico dos mais esquisitos. Detesto ambientes retrôs. Acho uma tapeação. Não fico sonhando com um Fiat 147. O carro até que é bonitinho, mas não tem como não lembrar dos solavancos, da marcha dura, do aperto dos bancos. Sou adepto da transmissão automática, do ar condicionado, da direção elétrica. Acomodado? Sempre fui. Por acaso, em algum momento, eu disse que sou aventureiro? Não tenho problemas com o Kindle. Não acho que devemos voltar aos pergaminhos. Enfim, tenho dessas coisas, mas sou um nostálgico mil cruzes quando o assunto é brinquedo. A Patrícia precisa me algemar para que eu não compre um Atari que custa horrores. Quase jogo quando vejo um daqueles joguinhos eletrônicos fabricados pela Nintendo (tela esverdeada, jogos repetitivos, mas e daí?), e foi na esperança de ver um desses joguinhos que entramos na lojinha de cacarecos.

Os perfumes estavam ali. Também tinha gravadorzinho digital, pen drive, ventiladorzinho. Só que esses objetos perderam terreno para algo mais sinistro. Ficamos assustados quando percebemos que tinha uma vitrine inteira reservada para facas, punhais e afins. Não estou falando do inocente e atemporal canivete suíço. Não eram facas de cortar pão. Eram facas com empunhadura anatômica, com lâminas encurvadas. Tinha até faca que era dois-em-um: faca e soco inglês. Qualquer um pode comprar. A Patrícia e eu, dois ursinhos carinhosos, morremos de medo dessas coisas. Saímos horrorizados da lojinha. (E eu fiquei ainda mais atrelado aos cacarecos dos anos 80.)

Claro que alguém pode alegar que tem gente que coleciona facas. De verdade, eu não duvido. Mas acho altamente provável que tem gente que vai querer brincar de outra forma com a faca.

Bom, eu não queria que a coluna terminasse de uma forma sombria. Saibam, então, que voltamos para casa, comemos um lanche, vimos seriado.


Carta ao comentarista de redes sociais




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
 
Caro comentarista de redes sociais,

Juro que tento entender as coisas que passam por sua cabeça. Seria fácil dizer que você é imbecil. Acho que eu faria uma coisa dessas anos atrás. Ainda bem que o tempo tende a nos tornar mais ponderados.

Também tenho conta no Facebook. Não vou mentir: rolo o meu dedo pela tela do celular algumas vezes por dia. Já passei da fase de sentir culpa por causa disso. Não vejo como uma tragédia gastar alguns minutos por dia vendo o que as pessoas andam escrevendo por aí. Eu ficaria preocupado se os minutos virassem horas, se eu passasse a trabalhar mal por causa disso, se eu passasse a me comportar como um zumbi em casa. Como essas coisas não acontecem comigo, rolo o meu dedo gordinho pela tela do celular.

Eu realmente não sei o que busco nesses minutos. Nunca parei para pensar a fundo. O uso que eu faço das redes sociais depende do momento. Tem dia que eu leio umas matérias boas que alguns jornais e revistam postam. Tem dia que eu fico vendo uns vídeos engraçados protagonizados por bichinhos e nenezinhos. Tem dia que eu presto mais atenção nas postagens de amigos e amigas. Tem dia que eu dou alguma dica de livro. Tem dia que eu faço palhaçada. Enfim, depende do momento. Mas tem uma coisa que eu faço todo santo dia: dou uma olhada nos comentários feitos a notícias mais polêmicas.

Virou vício. Não deixa de ser um prazer vergonhoso. Entenda: leio os comentários. Nunca escrevi unzinho sequer. Vai ver é pudor. Sei lá. Já confessei esse meu vício para algumas pessoas. Elas querem entender o porquê. A resposta é escorregadia: não sei. Não é vontade de entrar em debates. Não é vontade de bancar o antropólogo. Eu simplesmente vou lá e fico lendo os comentários.

E assim nos encontramos. Escrevo esta cartinha porque notei que você é uma figurinha carimbada nesses espaços destinados aos comentários. Essa espécie de familiaridade é uma desgraça. A gente vai criando uns vínculos meio esquisitos. Em questão de poucos dias, a figurinha carimbada vira uma figurinha familiar. Estamos afastados, nunca trocamos um aperto de mão, você nem mora na minha cidade, mas não importa. Você é alguém próximo. Próximo e previsível. Eu sei o que você vai escrever quando um site de notícias divulga uma matéria sobre um crime de injúria racial. Eu sei o que você vai escrever quando um site de notícias divulga uma matéria sobre o sucesso de uma cantora. Eu sei o que você vai escrever quando um site de notícias divulga uma pesquisa para as próximas eleições presidenciais. Mais importante: eu sei que você não vai se segurar e que vai comentar qualquer coisa com letras maiúsculas, uma espécie de brado retumbante. Nunca errei. Não deixa de dar um certo conforto. Os seres humanos são doidinhos por uma estabilidade, por uma previsibilidade.

Como não nos conhecemos, fico imaginando sua vida. Não imaginando em linhas gerais, mas imaginando os detalhes. É um exercício, me perdoe, muito interessante. Porque é fácil imaginar em linhas gerais. Quero ver é pensar em termos concretos. Ele é solteiro. Sofreu uma desilusão amorosa dois meses antes do casamento. Gosta de ver "Breaking bad". Trabalha há tantos anos na empresa X. Resolve negócios pelo celular. Fala alto enquanto usa o celular. Não enrola muito na fila do restaurante por quilo na hora do almoço. Bufa quando alguém enrola muito na fila do restaurante por quilo na hora do almoço. Faz um treino pesado na academia à noite. No fim do ano, vai a Florianópolis. Gosta de uma arminha. Fala "top" numa boa. Leu, à vera, quatro livros. Todos esses livros lidos misturam empreendedorismo com clássicos das ciências políticas. Vê um documentário na Netflix e acha que, a partir disso, tem o gabarito da vida no bolso. Como você pode ver, vai longe. Estou entrando no terreno da caricatura? Juro que eu gostaria de acreditar que sim. Se estou exagerando, peço mil desculpas. Mas fazer o quê? Quando a gente tem espírito de porco, a imaginação também tem espírito de porco.

Quero me despedir pedindo dois favores. Primeiro: no canto esquerdo do teclado do seu computador, tem uma teclinha que tira as maiúsculas. Leve o seu dedo até lá, faça uma leve pressão e, pronto, missão cumprida. Segundo: quando for escrever um vocativo no início da frase, por favor, ponha uma virgulazinha logo depois.


Carta ao presidente da empresa de telefonia celular




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Não quero ser indelicado com você. Por outro lado, preciso ser sincero: somos inimigos. Não quero soar dramático. Não desejo mal a você e aos seus. Nossa inimizade se dá numa esfera mais abstrata. Acho que você merece algumas explicações.

Você ganha o pão de cada dia administrando uma corporação poderosa. Está em suas mãos ajudar ou atrapalhar a vida de muita gente. Sou um humilde professor e colunista de jornal. Tento imaginar como é acordar todo santo dia tendo uma responsabilidade enorme na ponta da caneta ou no teclado do computador. Quando acordo, penso em miudezas. Você, acredito, já desperta com a cabeça infestada de números e diretrizes. Portanto, a vida não deve ser fácil.

Uma decisão equivocada sua pode transformar a vida de milhões de cidadãos num inferno. Se você fizer um exame de consciência, certamente recordará algumas dessas decisões equivocadas. Não quero bancar, aqui, o Grilo Falante. Só estou jogando conversa fora. Uma vida repleta de grandes decisões deve afastar a gente da realidade, não? Muitos clientes, cifras pantagruélicas, contratos com o governo, tecnologia da rede, estratégias de divulgação, malabarismos jurídicos. Quem lida com questões dessa ordem deve achar ridículas as reclamações de um humilde professor e colunista. Permita que eu diga que você está equivocado se pensa assim. Deus está nos detalhes. Se você compreender as angústias de um cliente, as coisas tendem a melhorar.

Sem rodeios: uso o celular na marra. Uso porque ele tem lá suas vantagens. Ele pode ser útil numa viagem, por exemplo. Zero de nostalgia por aqui. Não consigo ver romantismo numa situação em que eu estou, à noite, numa estrada, meu carro pifa e eu preciso caminhar bastante, morrendo de medo, em busca de uma cabine telefônica. Eu falei em vantagens. Melhor colocar no singular: vantagem. Fora essa história da estrada à noite, não consigo imaginar outras utilidades. Não estou dizendo que estou certo. Vai ver é implicância de um cara retrógrado.

Mas eu não quero me aprofundar nas besteiras relacionadas ao celular. Você sabe muito bem como a banda toca. O que eu quero é tratar de algo mais prosaico. Tenho um celular, as contas são pagas, você venceu. O intrigante disso tudo é o seguinte: por que tudo tem que ser tão complicado na relação que tenho com a sua empresa? É uma pergunta meio mística. Tratados de filosofia não dão conta do recado. Mas a pergunta precisa ser feita: por que tudo tem que ser tão complicado? Um exemplo ilustra bem a indagação. Na hora de aderir a um plano, tudo é resolvido como num passe de mágica. O cliente é bem atendido. Perto das mesinhas de atendimento, há uma gôndola com aparelhos esplêndidos. Tudo é doce, suave, persuasivo, otimista. E o cliente sai, todo pimpão, brincando com o aparelhinho. Só que, com o perdão do gracejo, a fatura chega. A fatura literal tem que chegar mesmo. Ninguém acha que a sua empresa deve fazer caridade. O que queremos é simples: pagar a conta sem sustos. Pagar a conta sem ter vontade de incendiar a cidade.

Nessa história da conta, não estou me referindo às letrinhas miúdas do contrato. Se eu assinei o contrato atabalhoadamente, problema meu. Não é o caso. O que está em jogo é o erro crasso, a barbeiragem. Sua empresa insiste na cobrança do uso de um telefone que não é nosso. Está na cara que o número não é nosso. Houve tentativas de resolver as coisas amigavelmente por telefone. Nessas horas, às vezes, se é atendido com dignidade, às vezes a gente tem contato com o espectro sinistro da humanidade. Pululam as promessas de que o problema será resolvido em algumas horas. Também pululam constatações sombrias, de que nada pode ser feito. E isso se arrasta há meses. Quero acreditar que essa saga medonha seja obra de falhas inocentes. Não estou supondo que essa trapalhada seja deliberada, e que o que está acontecendo conosco acontece com milhões de outros clientes, e que essa grana que pagamos a mais esteja nos cálculos dos lucros. Terrível imaginar que uma burrada dessas pague as suas merecidas férias em Ibiza. Prefiro acreditar que tem havido uma sucessão de erros.

Por favor, se não for pedir muito, tente resolver a minha situação. Depois, você pode novamente guiar seus pensamentos para os grandes rumos da nação.