LETRA VIVA


A quebradeira das livrarias




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Li, na semana passada, uma reportagem que mostrava o sufoco passado por duas grandes redes de livrarias. Uma delas não vem pagando, há algum tempo, as editoras. A outra pretende fechar 80% das suas lojas. A crise econômica é a justificativa para a dramática retração.

Isso é parte do problema, e eu diria que é a menor parte dele. Tem coisa mais importante: as grandes livrarias erraram a mão. Isso vem de longe. Não escrevo isso com prazer sádico ou querendo bancar o mago do mundo editorial. Não domino as minúcias contábeis do setor. Não passei horas lendo relatórios intrincados. O meu julgamento se dá a partir da observação mais prosaica mesmo.

Como gosto de ler, sou obrigado a frequentar livrarias há vários anos. Nunca encarei livro como fetiche. Não fico babando por edições de luxo. Não acho que livraria é lugar sagrado. Meu programa favorito não é passar horas arrastadas perambulando por livrarias enormes. Eu diria que é até o contrário. Começo a ficar incomodado depois de alguns minutos. Difícil suportar muita gente andando ao seu lado ou falando alto. Não tenho habilidade para ficar me desviando de pessoas deitadas em almofadas ou sentadas no corredor de um dos setores. Quase sempre as cafeterias dessas livrarias grandes enfiam a faca e torcem o cabo. Eu simplesmente vou a esses lugares por falta de alternativa. Comprar pela internet está fora de cogitação. Sempre acho que tem alguém do outro lado da tela prontinho para dar o golpe.

Eu peço pouco a uma livraria. Quero que o acervo seja robusto. Quero encontrar editoras menores que lançam livros bacanas. Quero que os funcionários, na hora de procurar um título no sistema, não confundam "Tolstói" com "Toy Story". Quero que a música ambiente seja abolida. Quero que os outros clientes sejam silenciosos, e não pessoas entupidas de endorfina berrando quando encontram o livro desejado. Também não quero ouvir resenhas estapafúrdias ou carteiradas supostamente eruditas. O mundo já é barulhento demais.

As duas redes de livrarias que eu mencionei no primeiro parágrafo apostaram alto nas lojas que parecem baladas, nas lojas que aguçam o fetiche da galera, nas lojas em que o pessoal vai para ver e ser visto. Lojas perfeitas para selfies sofisticadas. Vai muita gente nesses lugares? Vai, e muita. O problema é comprar o livro. É só reparar nas filas dos caixas. Tirando o Natal, as filas são bem tranquilas. Eu acho que você já tentou avaliar o custo para se manter um mastodonte desses. Faltou humildade, sobrou cafonice e deslumbramento. E agora o bicho está pegando.

As pessoas não compram os livros porque eles são caros, certo? Não é tão simples responder. Seria fácil jogar pra torcida e dizer que o vilão é o preço dos livros. Claro que tudo poderia ser mais barato. Se houvesse um barateamento drástico, as vendas subiriam, mas não do jeito que muitas pessoas imaginam. Não precisa ser um gênio para constatar que a nossa educação medonha não forma leitores. Muito mais sedutor é ver e fazer uns vídeos toscos no YouTube. E se você acha que está tudo uma porcaria, é melhor se precaver para o que vem por aí. Ninguém aniquila as escolas impunemente. A fatura chegará, e será logo. Antes que alguém diga que estou olhando amargamente para a pobreza, quero deixar claro que a nossa educação falida atinge a todos, ricos e pobres. Já chegou a hora de achar que o cara que pilota o carrão obrigatoriamente lê pra caramba. Não lê, você sabe disso, mas às vezes tem medo de reconhecer.

Ainda sobre poder aquisitivo: cansei de ver gente que paga uma grana por um hambúrguer gourmet e chora quando descobre que tal livro custa cinquenta reais. Gosto é gosto, e cada um faz aquilo que dá mais prazer. Só não pode sair por aí bradando que o livro é caro. Um jantar para o meigo casal no restaurante japonês rende, brincando, uns três livros. E muitos meigos casais não podem passar uma semana sem ir ao restaurante japonês. Mas podem passar meses desfilando pela livraria grande, sem contar um livrinho sequer. Eu também gosto de restaurante japonês, mas a diferença é que eu aprendi a não importunar o meu semelhante. Pense no seguinte: se o restaurante japonês passasse a ser quinzenal, alternando com compras de livros, as livrarias não dariam calotes e não fechariam unidades, jogando muita gente no pesadelo do desemprego.

Era uma tragédia anunciada.


Fases (final)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Meu corpo tem quarenta anos; meu espírito, oitenta. Não estou reclamando. As coisas são como são. Preciso esclarecer alguns pontos.

Não me sinto cansado. Minha saúde está em ordem. Não acho que tudo era melhor antigamente. Algumas coisas eram, e outras não eram. Sempre tive receio da nostalgia sem freios. Acaba sendo necrofilia. Tinha menos trânsito. Tínhamos menos medo. Não tinha rede social para azucrinar. Mas éramos mais egoístas na escola. Cada um correndo para garantir o seu. Hoje a moçada é bem mais altruísta. Podem acreditar. É só trabalhar com adolescentes.

Não sou de demonizar o celular. Ele ajuda, e muito. Não era bacana ver o seu carro pifar na estrada à noite e andar vários quilômetros em busca de um telefone. Seria cansativo elencar os avanços da medicina. Pena que esses avanços atingem pouca gente. E isso sempre será uma vergonha.

Digamos, então, que a minha velhice espiritual não é ranzinza. Ela não é contra muitos dos aspectos da nossa sociedade contemporânea. Não faço discursos categóricos sobre o isolamento promovido pelo celular. Por dois motivos: isolar-se não é necessariamente ruim; antigamente, as pessoas não ficavam confraternizando na rua, como se estivessem na eterna vilinha das novelas da Globo.

Minha velhice é literária. A paciência com livros que demoram para engrenar diminuiu. Não sinto remorso quando abandono um livro ruim no meio. Nem precisa ser ruim, basta não ser o livro certo para aquele momento. Quem sabe um dia eu volto a ele? Normalmente, eu volto. E funciona. Somos escravos do instante. Quando eu era mais jovem, eu sempre ia até o fim. Eu não tinha coragem de reconhecer que não estava gostando do livro. Eu respeitava bem mais os livros.

Minha velhice também está na aversão a certos deslocamentos. Saio pouco de casa. Sem problemas sair para trabalhar. Sem problemas sair para visitar meus pais, meus sogros e minha avó. Sem problemas sair para comprar algo na padaria. Sem problemas sair, de vez em quando, com alguns casais amigos. Acho que para por aí. Preguiça danada de viagens. Respeito profundamente os que encaram horas de espera no aeroporto e horas encaixotados num avião. Quando vejo fotos dessas viagens nas redes sociais, solto um suspiro de alívio. Ainda bem que é ele, e não eu. Nunca mais irei à praia seguindo roteiros adolescentes. Chance zero.

Minha velhice dá as caras na minha profissão. Não sei bem se é velhice. Vai ver que é depuração. Sou professor. Escassa paciência com firulas que claramente servem para encher o bolso de consultores. Professor inovador não precisa se pendurar no lustre, nem dar cinco mortais. Professor inovador precisa conhecer a fundo a matéria e fazer uma abordagem intelectualmente ousada. Isso sim é revolucionário. Professor inovador não sacaneia os alunos. É que sacanear os alunos não é mais recorrer à palmatória. A sacanagem atual é mais branda. É ser ignorante. É ser omisso. É dar o tapa e esconder a mão. É ser covarde.

Outro grito da minha velhice: fico nervoso quando vejo gente da minha idade bancando o jovem. Não estou falando das roupas. Isso é superficial. Não defendo as boinas e as calças de flanela. Meu alvo é o pessoal que berra. Detesto comportamentos egoístas. Acho abominável quem não abre mão das sacrossantas horas de academia, do pôquer que avança noite adentro, dos papos furados nas cafeterias com outros adultos mimados. Quero deixar claro: nada contra academias, pôquer ou cafeterias. O que me irrita é que muitas dessas pessoas deixam filhos pequenos mofando nas escolas. E ai da turma da escola quando não entrega a criança de banho tomado e alimentada. De preferência, a pobre criança deve estar sonolenta.

Não escrevo estas coisas com orgulho, tampouco com tristeza. Demorei para reconhecer que sou velho. As coisas caminharão sempre assim? Terei noventa anos aos cinquenta? Pode ser que sim. Se isso acontecer, sem problemas. E se eu tiver vinte anos aos cinquenta? Sem problemas também. A gente aprende a se aceitar.


Fases (segunda parte)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Prometi, na semana passada, escrever a respeito de algumas fases da minha vida. Para quem perdeu o texto anterior, um resumo: eu havia descoberto que a idade da alma e a idade do corpo nem sempre são compatíveis. Pode ser que, com você, tudo ande perfeitamente. Comigo, não, feliz ou infelizmente. A única fase da minha vida em que corpo e alma estiveram juntos foi na infância, dos 0 aos 8 anos. Foi sobre ela que escrevi na semana passada. Depois a coisa desandou. Sem mais delongas, outras fases. Não estranhem a falta de linearidade. O que segue é refém das memórias indomáveis.

Dos 17 aos 19 anos, fui um jovem velho. Eu soube disfarçar bem. Na pior das hipóteses, eu era visto como um cara pacato. Nessa época, meus amigos e amigas viviam inventando idas à praia. Estou muito longe de me julgar um aristocrata. Sou um cara dos mais maleáveis. Tenho pavor de papo de gourmet ou barista. Só compro roupa quando a Patrícia encosta um rifle na minha têmpora. Por outro lado, prezo alguns confortos fundamentais. Na verdade, prezo o bom senso. Sempre prezei. E a coisa não entrou em curto-circuito na juventude.

Praia sempre foi algo problemático para mim. Quando digo que não sou fã, parece que cometo sacrilégio. Sou avesso ao calor, à areia, ao mormaço. É a minha natureza, e nada posso contra ela. Mas como eu disse um pouco acima, eu soube disfarçar bem. Se abrisse mão de todos os convites para ir à praia, eu seria um excluído. E ser excluído aos 18 anos é osso duro de roer. Então, com o coração despedaçado, eu aceitava o convite.

Se tudo seguisse os ditames do bom senso, o passeio aconteceria numa data civilizada. A saída também seria num horário civilizado. E não numa sexta-feira de Carnaval, às 13h. Eu até que tentava ser o grilo falante da juventude sorocabana. Eu dizia que daria para ir à praia sem recorrer a rituais masoquistas. Precisa demorar doze horas num trajeto que demoraria duas horas e meia? Precisa ser numa época em que a escassez de água seria uma certeza? O coro respondia que não seria do jeito trágico que eu estava prevendo. Eu respirava fundo e topava subir na barca furada. Meus prognósticos estavam corretos? Estavam.

O pacote masoquista praieiro incluía viagem sofrida, cheiro de esgoto na areia, baratas gigantescas desfilando gostosamente pelas calçadas, um ou outro rato anabolizado dando o ar da graça e, claro, o apartamento minúsculo e incompatível com as palavras empolgadas da simpática proprietária que morava em Sorocaba. Nunca duvidei de que a propaganda é a alma do negócio, mas não precisamos avacalhar. A simpática proprietária, quando alguém da turma respondia ao anúncio, dizia que o apartamento era grande, que cabia muita gente, que o chuveiro funcionava bem, que tinha piscina no terraço, que o porteiro era super gente boa, e que, o melhor de tudo, ficava quase de frente pra praia. Naquela época não tinha internet, e essas transações eram feitas a partir da boa e velha confiança.

Quando chegávamos, o porteiro não abria o portão da garagem e grunhia algo misterioso e assustador. O apartamento era uma caixa de fósforos. O funcionamento do chuveiro fazia com que o banho de caneca fosse mais vantajoso. A água que saia da torneira era amarela e viscosa. Tínhamos medo de ver um cadáver boiando na piscina do terraço. Quanto ao apartamento ficar quase de frente pra praia: era quase de frente mesmo, se "quase de frente" significar cinco quilômetros de distância, ficando à beira da sinistra rodovia e bem perto da linha de trem. Rodovias e linhas de trem sempre compuseram o cenário de filmes de terror em que adolescentes são trucidados por um maníaco empunhando o machado.

Um banheiro para seis ou sete pessoas. A galera abusando da pizza de alho. A luta renhida por uma privada. Todos besuntados de protetor solar rumo à praia. Não entrarei nos detalhes da praia lotada. Depois de algumas horas, salsicha com macarrão no almoço e a disputa pela louça a ser lavada. À noite, gente bêbada brigando e cantando música ruim. Eu aguentei tudo isso porque sempre tive um pé no estoicismo. Ou no masoquismo.

Semana que vem, falaremos de outras fases. Até lá.


Fases (primeira parte)




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Recentemente fiz uma descoberta que julgo ser revolucionária: nem sempre a idade do corpo é compatível com a idade da alma. Eu bem que gostaria de dizer aqui que eu costumo seguir um ritual propício a grandes reflexões e descobertas. Mas não foi assim que aconteceu. A iluminação veio enquanto eu esperava o semáforo abrir, no centro da cidade, num dia útil prosaico. O rádio do carro transmitia um programa supostamente humorístico. Os apresentadores do programa liam algumas mensagens enviadas pelos ouvintes. Todas as mensagens eram de empolgação. A se basear por elas, o programa era o mais engraçado do planeta. Fiquei triste. Como se apenas eu fosse incapaz de rir. O que fiz da minha vida ao chegar aos quarenta anos?

Mas a tristeza durou pouco. Veio a arrogância: eu estou certo, e esse programa é uma porcaria mesmo. Azar de quem gosta dessas coisas. Como um pêndulo maluco, a tristeza deu lugar a um menosprezo anárquico. Essa sociedade imbecil não presta! Estamos caminhando a passos largos para o precipício! A arrogância também durou pouco. No fim, venceu o equilíbrio, a serenidade: eu não dou risada fácil porque a minha alma é de velhinho. É difícil ver um velhinho rindo de qualquer coisa.

E assim a coisa foi se desdobrando para a tal descoberta revolucionária que eu mencionei no primeiro parágrafo. Antes de ela surgir, eu precisei exercitar a memória. Revi situações nas quais a incompatibilidade entre alma e corpo ficou evidente. Dividi a minha vida em fases, e os resultados foram dos mais interessantes. Quero mostrar a vocês alguns exemplos, não me prendendo a qualquer rigor cronológico.

Dos 0 aos 8 anos eu fui uma criança com alma ajustada ao corpo. Dava chilique na farmácia porque a minha mãe não achava uma boa ideia comprar para um pirralho saudável um remédio para o fígado. Eu, que desde novo era um chumbo, gostava de me jogar nas calçadas, bancando o pequeno protagonista de ópera. Eu adorava brinquedos, e tinha um monte deles. Meu irmão e eu espalhávamos bonequinhos dos Comandos em Ação pelo apartamento todo. Pegávamos potes vazios de sorvetes, colocávamos os bonequinhos ali, enchíamos tudo com água e púnhamos no congelador. Depois de um tempo, os hominhos estavam presos no gelo. Nosso prazer era resgatá-los. Meus pais sempre foram -- ainda são -- de uma paciência divina, e nunca podaram nossas brincadeiras. O nome disso é infância bem resolvida. Esses hominhos dos Comandos em Ação também eram fonte de sustos. Por exemplo, quando eu ia tomar banho, levava vários deles ao chuveiro. E lá eu ficava um tempão inventando enredos e colocando os pobres coitados em situações de riscos aquáticos. Eu tinha a mania de trancar a porta do banheiro, e quando a coisa extrapolava os limites, minha mãe me chamava. Eu não ouvia, tamanha a minha concentração com a brincadeira. Minha mãe sempre foi craque na arte de notar os detalhes, e por isso ela marcou para mim uma consulta com um otorrino. Ela queria saber ser eu era uma criança que estava desenvolvendo algum grau de surdez. Deu tudo certo no exame. Era apenas safadeza da minha parte. Coisa feia de se dizer, mas é verdade. Nessa fase da minha vida, adorávamos futebol, e meus pais sempre compravam uma bola oficial de algum campeonato, com o couro brilhando, algo a ser guardado num cofre. Mas o que fazíamos, principalmente eu, já que o meu irmão ainda era muito pequenininho e apenas seguia o que o mocorongo do irmão mais velho fazia? Estreávamos a bola novinha numa quadra de cimento que era áspera pra caramba. Ainda sobre essa fase, quando corpo e alma caminhavam juntos: qualquer derrota no Atari era acompanhada de bufos, lágrimas e vontade de arremessar o controle na parede. Convenhamos: meus pais merecem ou não o Nobel da Paz? Eu sou suspeito para responder, mas vamos lá: claro que merecem.

E assim eu percebo que a fase dos 0 aos 8 anos foi a única fase de harmonia entre corpo e alma. Depois a coisa desandou, e as fases seguintes apresentam um sujeito meio estranho, ora jovem com alma de velho, ora maduro com alma de jovem, ora maduro com alma de maduro. Enfim, um rolo danado. Na próxima semana, trataremos dessas outras fases. Até lá.


Copa do Mundo: um balanço




Nelson Fonceca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com 

Ninguém passa pela Copa sem arranhões. Amando ou odiando, somos afetados de quatro em quatro anos. Os que amam não conseguem deixar de ver um jogo mixuruca como Panamá X Tunísia. Os que odeiam são assaltados por propagandas cafonas e por rojões desnecessários. Os que amam, em questão de poucas semanas, passam da euforia à melancolia, conforme o domingo do jogo final vai chegando. Os que odeiam respiram aliviados. Quem está certo? Impossível responder.

Como sou fanático por futebol, pertenço ao grupo dos que amam a Copa. Mas não é um amor cego, cumpre esclarecer. Não deixo os compromissos de lado para ver Egito X Arábia Saudita. Não pinto o rosto de verde e amarelo. Nem chego perto de um rojão. Acho que é um amor maduro, sábio, clássico.

Se ignoro alguns jogos, não perco alguns desses programas de debates futebolísticos. Quando vejo um desses programas, eu agradeço aos céus pela existência da TV a cabo. É osso duro de roer depender das patriotadas do Galvão Bueno. Nos programas da TV a cabo, há, ao menos, uma tentativa de discutir os jogos com inteligência. Às vezes, um jornalista exagera na tara por estatísticas e táticas, deixando de lado o componente passional do evento, mas tudo bem. Pelo menos, nesses programas, não ouviremos que o Lukaku, genial jogador da Bélgica, é pesadão e não sai da área. Quem viu o jogo em que o Brasil foi eliminado percebeu como o Lukaku é pesadão e não sai da área. É só reparar no segundo gol.

Como um mantra, a palavra "profissionalismo" está na boca dos que comentam as mazelas do futebol brasileiro. Não importa se o comentarista é bom ou fuleiro. "Profissionalismo" resolve todas as crises. O que não deixa de ser paradoxal. O comentarista profissional ganha para entender de futebol e diz que o Neymar tem tudo para resolver o jogo sozinho.

Falando em Neymar, quanta abobrinha, hein? São Roque tem o festival da alcachofra, e nós temos o festival da abobrinha. Como sempre, as besteiras vieram dos extremos. O extremo bonzinho ainda trata o Neymar como uma criança frágil, carente, necessitada de afagos e beijinhos de incentivo. É a turma do "menino Ney". O extremo linchador descobriu que o Neymar é a fonte de todos os males. De acordo com os linchadores, as encenações do Neymar tiraram o Brasil da Copa. Nem um extremo, nem outro. Neymar é um craque que precisa melhorar muito. Tem muita lenha pra queimar ainda. Só precisa baixar um pouco a bola. Impossível dizer como será o cenário daqui a quatro anos. A depender das propagandas que surgiram logo depois da derrota para a Bélgica, o paraíso nos espera em 2022.

Longe de mim acreditar que eu sou um sujeito de vanguarda, que vê sozinho o que a massa ignora. Mas preciso perguntar: repararam nas propagandas veiculadas antes da derrota? Davam como certo o hexa. Todo mundo em festa. Bastaria o menino Ney usar toda sua ginga para levantarmos o caneco. E a vitória da seleção seria a vitória da nação que está se recuperando. Como alguém, em sã consciência, pode cair numa presepada dessas?

Falando ainda em propaganda, deu dó do Tite. Transformaram o querido Tite numa espécie de xamã, de sábio da aldeia. A convicção era a seguinte: bastaria o Tite lançar um olhar concentrado para o campo para que todos nós saíssemos comemorando loucamente. Tudo bem, o Tite deu trela, com aquele jeitão de professor sereno, mas que foi triste, foi. Se o Tite continuar no comando da seleção, acho que a lição foi aprendida.

A derrota para a Bélgica não foi digerida com fúria. Quem tem idade para tanto vai lembrar da raiva contra os jogadores eliminados pela Argentina em 1990. Por que as pessoas foram mais amenas desta vez? Confiança no Tite? Dó do menino Ney? Não, acho que não. Culpa do 7 X 1 da Copa passada. Depois de um sapeco daqueles, perder por pouco da Bélgica até que não está tão ruim assim.

E assim a Copa vai chegando ao seu fim. Hora de voltar os holofotes para o segundo semestre, que promete ser tétrico.

Volta, Copa!


Carta para Lima Barreto




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Caro Lima Barreto: boa parte desta carta será de tietagem. Espero que você perdoe. Sei que você não gosta de derramamentos emocionais. Seu negócio sempre foi a fúria, a boa fúria. E é por isso que você é um dos nossos grandes escritores.

Escrever para você traz à tona boas recordações. Um dos meus primeiros deslumbramentos literários foi "Triste fim de Policarpo Quaresma". Eu tinha dezessete anos e pouca rodagem no mundo dos livros. Ler as desventuras do pobre Quaresma me deixou acordado naquela madrugada remota. Pudera: eu nunca tinha encarado um livro que me fizesse gargalhar (na primeira parte) e chorar (nas páginas finais). O triste Brasil está esquadrinhado naquelas páginas. Tudo que temos de pior está ali. É de uma atualidade absurda. Sempre digo isso aos meus alunos.

Passado o deslumbramento inicial, fui em busca de outras obras que você escreveu. Li os outros romances, li os contos, li as crônicas, li as memórias. A paixão não esfriou. Muito pelo contrário. E isso é raro, muito raro. São coisas da vida: muitas vezes, a decepção é proporcional à empolgação. Quantos relacionamentos não começam fervendo e terminam gelados? É assim na vida, e é assim na literatura. Estou com quarenta anos, e já perdi a conta dos escritores que, anos atrás, eu considerei grandes e que são, hoje, minúsculos. Não citarei nomes. Não quero ser desagradável. Você continua firme e forte. Você, o Machado de Assis e o Nelson Rodrigues, por exemplo.

Você é exigente e talvez queira que eu explique melhor a minha devoção. Impossível fazer uma coisa dessas no espaço reduzido desta carta. Eu me sairia melhor num texto bem mais longo. Quer dizer, não sei. Eu teria medo de escrever algo frio, e acho que você não merece ser aporrinhado. Mas, se você permitir, tentarei falar um pouco, sem jargões acadêmicos, dos motivos do meu imenso respeito por você.

Em primeiro lugar, vem a qualidade literária dos seus textos, independentemente das circunstâncias em que eles foram escritos. Seus contos, crônicas e romances, mesmo que não soubéssemos nada de quem os escreveu, seriam brilhantes. O estilo afiado, o senso de observação e a fantasia exacerbada sempre deram bons frutos.

Em segundo lugar, vem a fúria que é o combustível da sua obra. Para muita gente, literatura é sinônimo de texto comportado, bonitinho, agradável. Como diriam em sua época, um refrigério para as agruras do cotidiano. E já que estamos falando da sua época, convenhamos: você era um estranho no ninho. Muitos de seus colegas eram tietados por conta, justamente, do estilo nobre, das imagens celestiais, da elegância intransponível. Enquanto isso, no começo do século 20, a cuíca estava roncando forte no Brasil. Enquanto isso, no começo do século 20, ser escritor era bebericar um belo chá e declamar nas festinhas. É uma praga do Brasil: basta enrolar umas frases com algumas palavras raras, e o sujeito é rotulado como o gênio da raça. Peço perdão pela comparação bizarra: enquanto muitos só tocavam valsas comportadas, você trouxe o punk para a nossa vida. Você não deixou passar nada batido. Ler seus textos é reconhecer o lado assustador, triste, canalha, corrupto, burro, assassino do Brasil. Ninguém escreve essas coisas impunemente. Sua vida, que foi um enredo de filme de terror, é a prova cabal.

De tudo o que aconteceu na sua vida, eu faria apenas uma ressalva. Você não deveria ter azucrinado o Machado de Assis. Você vai responder que, em 2018, é fácil falar assim. Juro que entendo. Mas é chegada a hora da reconciliação. Você e o Machado são o que temos de melhor. É triste ver gente boa brigando. Tente entender: o Machado de Assis tinha um jeito diferente de bater. Ele não era direto. (Se bem que o conto "Pai contra mãe", um dos mais horripilantes da literatura brasileira, revela muita coisa.) Ele não era de sair chutando tudo. Ele era, aparentemente, bem entrosado na sociedade. O que eu peço é simples: tente raspar o verniz dos textos dele; você encontrará a dureza de como ele olhava para o nosso país.

Seria tão bom se vocês fizessem as pazes. Seria melhor ainda se vocês estivessem entre nós. Posso garantir: material não faltaria para os livros.


A vitória da literatura




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
Um pedaço da minha infância: a televisão, na sala, está ligada; eu estou no quarto; ouço o barulho que marca o início do intervalo comercial; saio correndo que nem um alucinado e quase grudo os olhos na tela; consigo, com a linguagem cômica das crianças, cantar as musiquinhas de várias propagandas. Não estou inventando: meus pais ainda hoje falam dessas reminiscências.

Você leu o primeiro parágrafo deste texto e imaginou que eu trataria de propagandas, oscilando entre a nostalgia dos comerciais dos anos 80 e a amargura em relação ao cenário atual. Até tem material e birutice para uma empreitada dessas, mas não é o que eu estou pensando para hoje. Mencionar propagandas antigas deveria ser um gancho para um comentário literário que viria nos parágrafos subsequentes.

O problema é que às vezes é difícil calibrar as coisas num texto. A introdução deveria ser concisa, uma espécie de pepita de sabedoria. Dela, da introdução, emanaria o doce cheiro de um texto bem planejado. Só que não tem jeito: somos complicados. E assim consumi preciosas linhas desta coluna. Tentemos algo mais telegráfico para as próximas linhas. Não quero perder o ímpeto que me levou a escrever este texto.

Eu gostava de comerciais. Hoje eu acho que está tudo uma porcaria. Só que de vez em quando aparece algo bacana. Por exemplo, a ESPN Brasil está passando uns filminhos geniais para mostrar que a sua cobertura da Copa é de alto nível. Nesses filminhos sempre aparece um urso dizendo as maiores besteiras futebolísticas. Basicamente, essas besteiras são os clichês que ouvimos a cada quatro anos. Sempre que vejo o urso, dou risada. É que o urso transcende o futebol e se torna símbolo do sujeito que fala besteira, não importa o assunto, com ares de sabichão.

Eu ficaria rico se recebesse umas moedas a cada vez que ouço que a literatura está agonizando. Sou rodeado por ursos que dizem: ninguém escreve bem hoje; a literatura respira por aparelhos. E por aí vai. Se bem que eu tenho que ser honesto: já fui meio urso numa época da minha vida. Eu era daqueles esnobes que mergulhavam fundo na literatura do século 19 e fazia cara de nojo para um romance publicado recentemente.

Ainda bem que passou. E passou como eu acho que deveria ser: seguindo o caminho do meio. Deixei de canto o esnobismo, mas não saí por aí dizendo que os textos mais velhos são chatos e que precisam ser superados. Por que não achar o maior barato os romances do Tolstói e as crônicas da Tati Bernardi? Alguém aqui disse que são a mesma coisa? Eu não disse que são a mesma coisa. Qual é o problema de gostar de feijoada e de um franguinho grelhado? Tudo tem o seu tempo, já diria o sábio amargurado do Eclesiastes.

Toda essa enrolação para dizer que o novo romance do Paul Auster, um dos grandes escritores vivos, é fenomenal. O livro, chamado "4 3 2 1", tem 800 páginas e consegue ser, ao mesmo tempo, uma homenagem à tradição do romance do século 19 e uma ruptura com a estrutura com a qual estamos acostumados. Paul Auster mobiliza as ferramentas para construir uma narrativa que analisa brilhantemente décadas da sociedade dos EUA. Essa gana de esquadrinhar é típica do século 19. Naquela época, escritores como Balzac, Tolstói e Dickens queriam abraçar o mundo. Ao mesmo tempo, tudo é frágil no romance de Paul Auster. Um incidente bobo coloca o universo das personagens no liquidificador. Funciona assim: a partir de um tronco narrativo fundamental, Auster cria quatro desdobramentos, que vão se alternando ao longo de centenas de páginas, para a vida de Archie Ferguson. Tudo é fascinante e tudo é perigoso. Um acidente de carro sem grandes consequências muda a vida dos envolvidos. Uma imprudência num acampamento aniquila a vida de uma família. E assim atravessamos o livro com a respiração suspensa. Dá um pouco de medo, claro; mas também abre possibilidades. Belo antídoto para o tédio. Resultado: um prodígio da literatura e uma poderosa lente para olharmos a vida.

É a literatura mandando o urso voltar para a toca.


Carta ao cliente do restaurante por quilo




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Caro cliente do restaurante por quilo, a fila na hora do almoço é longa. É um dia útil. Os celulares não param de tocar. Em várias mesas, discute-se a respeito da firma. A refeição é mero reabastecimento. Mas você é o eleito, a pessoa que está acima da movimentação mesquinha. Você trabalha, seus horários não são folgados, mas mesmo assim você dá um jeito de transformar em arte a fila para colocar comida no prato. Não deixa de ser notável.

Os espaços em seu prato são ocupados com garbo e harmonia. Não fica um grãozinho sequer de arroz fora do lugar. A concha do feijão faz um movimento preciso. E a mistura de arroz com feijão fica parecendo um vulcãozinho branco expelindo uma graciosa lava marrom. As batatas fritas estão militarmente dispostas. Ai de quem ocupar o lugar do soberano bife. Fios de azeite arrematam a obra de um verdadeiro esteta do cotidiano.

Seus movimentos lânguidos constituem uma performance respeitável. Sua expressão impassível revela o ator em pleno domínio da técnica. Pouco importa se tem gente atrás bufando. Um verdadeiro artista esnoba a plebe ignara. O reconhecimento não precisa ser em vida. Um dia você será reconhecido. Assim eu espero. Pena que, apesar das palavras gentis até aqui, que eu esteja longe de aplaudir intensamente seu modo de encarar a vida. Quando você não está no restaurante, fica fácil encontrar as palavras mais elogiosas. O problema é quando eu estou na fila.

Sinceramente, até que sou calminho. Pergunte pra Patrícia. Não acelero o carro por qualquer bobagem. Não resmungo na fila. Não entro em discussões tórridas sobre política. Não escrevo textão em redes sociais. Enfim, você entendeu. Eu sou calminho.

O problema é que o ser humano é abismo. Sou capaz de suportar as maiores chatices sem ter chiliques, mas fico transtornado com gente que enrola na fila do restaurante por quilo. Não sou um executivo soterrado por decisões cruciais a tomar. Não preciso engolir a comida em míseros segundos. Não tenho cliente me esperando. Não preciso ficar com um olho no garfo e outro no relógio. Meu celular está sempre no mudo. Ou seja, não como e fecho negócios mirabolantes ao mesmo tempo. Sou sortudo, sei disso. Em tese, eu deveria ser a pessoa mais indicada para apreciar suas performances. E o curioso é que gente mais apressada do que eu não implica tanto com você. O ser humano é um bicho terrível.

Acho que você nunca notou a minha insatisfação. Você não imagina como é difícil disfarçar. Faço contagem regressiva, bolo cenários maravilhosos na montanha fria de Campos do Jordão, relembro alguns trechos de um romance bacana, tento lembrar o nome de um coadjuvante que sempre fazia papel de bandido nas novelas da Globo nos anos 90, tento puxar de volta algum episódio perdido da infância. Ainda bem que tenho imaginação fértil. Quase sempre ela ocupa o tempo que você leva para escolher a sacrossanta comida.

Pena que eu ainda não cheguei ao ponto de sempre domesticar meu furor. Às vezes escapa um pensamento mau. Por exemplo, quando estou indomável, fico olhando fixo para você. Pode ter certeza de que não estou tentando lembrar de onde conheço você. Como detesto violência física tradicional, o olhar que emito é uma tentativa de colocar em prática os poderes mágicos de algum herói da infância. Vá que um dia seu prato caia escandalosamente no chão, fazendo com que todos ao redor olhem assustados. Vá que a sua mão trema e o feijão emporcalhe sua gloriosa camisa branca. Mas nunca dá certo. Chego a ficar vesgo de raiva. De vez em quando, resmungo um pouco mais alto que o recomendado. É só perguntar pra Patrícia. Ela, que é uma sábia, só ri.

Espero, um dia, deixar de lado esta minha implicância. Quero poder apreciar genuinamente seus movimentos graciosos. Enquanto esse dia utópico não chega, gostaria de fazer um pedido: seja um pouco mais rápido na hora do almoço. Pense que você não é um eremita fazendo uma refeição no alto da montanha, tendo por companhia uma singela cabra. Pense na vida sofrida dos demais seres que suam no restaurante. Não precisa recorrer ao extremo de sair atropelando os outros clientes. Basta escolher o caminho do meio. Sempre dá certo.


Desbravadores do lixo




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Ganho meu sustento falando ou escrevendo sobre livros, e isso, dependendo do momento, acaba sendo um problema. Gente que trabalha com livros pode ser mal interpretada. Como se fôssemos entidades que pairam isoladas das coisas do cotidiano. Uma espécie de orquídea meticulosamente isolada da poluição atmosférica.

Quando comento que gosto de ver porcarias na televisão, as pessoas levam um susto. Vai ver que elas imaginam que eu fique, nas horas livres, sentado numa poltrona, trajando um roupão de seda, bebericando conhaque numa taça bojuda, ouvindo Debussy, lendo poetas simbolistas franceses. Lamento decepcionar, mas a realidade é bem mais prosaica. A poltrona está sendo reformada, não tenho tamanho para vestir um roupão, acho que nunca bebi conhaque nesta vida, tenho pavor de taças bojudas, gosto de Debussy (mas também gosto de Bruce Springsteen), leio mais prosa do que poesia (que comece o apedrejamento!).

Quando não estou lendo, fico tagarelando com a Patrícia enquanto vemos televisão. Se vocês visitassem nosso apartamento, o horror tomaria conta de suas mentes. É que não assistimos a documentários franceses em preto e branco, nem buscamos loucamente um filme do Ingmar Bergman. O que nos agrada é o lixo, o brega, o treco varzeano mesmo.

Temos sorte. Quase todos os programas são horrorosos. Daquele tipo de coisa que a gente pensa: nossa, como deixam passar uma coisa dessas! É a delícia de gente como a gente. E foi um desses programas que serviu de gatilho para esta coluna.

Era perto das nove da noite no meio da semana. Descartamos o Jornal Nacional. Aliás, quase sempre descartamos o Jornal Nacional. É que nós somos das antigas. Jornal Nacional sem o Cid Moreira é que nem café sem cafeína. Decidimos apostar com boa margem de segurança: fomos ao SBT. Sabíamos que, naquele horário, encontraríamos o ápice da criação: as novelas destinadas às crianças. Dito e feito. Estava passando "As aventuras de Poliana".

Não é o caso de fazer uma sinopse da cândida novela. Basta dizer que ela é protagonizada por atores e atrizes mirins. Ou seja, é a materialização do pesadelo. Dependendo do estado de espírito, ver atores mirins é algo muito próximo ao ato de enfiar voluntariamente a mão numa morsa. Há um nome para isto: masoquismo. Todos nós temos um tantinho disso na alma.

Exercitamos nosso masoquismo vendo "As aventuras de Poliana". Foi duro de aguentar, mas seguimos firmes na luta. A ideia era apimentar a noite friorenta com um pouco de sofrimento. Só para a vida fazer mais sentido. O ser humano é um bicho desgraçado mesmo.

Eu sei que tem uma lista vasta das fobias que dominam as pessoas. Sempre são nomes engraçados. Mas isso não vem ao caso. O que não sai da minha cabeça é o seguinte: alguém catalogou fobia de atores mirins? Deve ter catalogado. Não é possível que eu esteja sozinho nesta história. Não é possível que alguém ache graça ao ver um ator mirim dizendo o texto de forma pausada, forçada. É constrangedor, é assustador, é desnecessário.

Vocês estão lendo essas coisas e imaginam que eu deteste crianças. Pois é justamente o contrário. É por gostar de crianças que eu detesto vê-las em situações vexatórias. Quem acha lindo o menino fazendo caras e bocas na tela carrega consigo algo desagradável: o sadismo.

Saturado das crianças da novela do SBT, eu até pensei em procurar algo da linha do "MasterChef Junior". Ainda bem que o pensamento passou rápido. Quem criou o "MasterChef Junior" nutre um ódio monumental pela humanidade. Ver crianças cozinheiras é o equivalente a enfiar a mão na morsa e pedir para alguém dar um murro na sua cara.

Tudo deve ter os seus limites, inclusive o masoquismo.


Carta ao boateiro




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Prezado boateiro: acho que os últimos dias foram deliciosos para você. Ouso dizer que, antes de dormir, você reza por momentos pelos quais passamos com a manifestação dos caminhoneiros. É o equivalente a um jogador de futebol estar na final da Champions League ou da Copa do Mundo.

Não vou, aqui, retomar os dias frenéticos da manifestação. Mais do que qualquer um, você entendeu -- quero acreditar -- o que estava acontecendo. O país parou, e muita gente se deu conta de como somos frágeis. Se não houvesse boatos neste mundo, se a realidade aparecesse sem adornos, já sentiríamos a porrada.

Mas você é um criativo, um barroco contemporâneo, um inconformado com as coisas como elas são. Você é o homem que tempera nossas vidas, dando a elas aquele gostinho de aventura rocambolesca.

Nos dias da manifestação, justiça seja feita, você trabalhou em várias frentes. Nossos celulares foram bombardeados por dicas fajutas de postos de gasolina que estariam recebendo um caminhão mágico e redentor de combustível. Imagino o tamanho da sua satisfação ao notar que, em poucos minutos, filas iradas surgiam diante dos ditos postos. Não adiantou dizer aos pobres motoristas que não chegaria o mitológico caminhão. Eles diziam, mais ou menos, que se alguém falou no WhatsApp, era verdade incontestável, e que era melhor não dar bobeira.

Mas você foi além. Empolgado com os resultados, você deu o passo seguinte. Aqui na cidade de onde escrevo, surgiram vídeos que mostravam avenidas pegando fogo, e que aquilo seria obra de uma ordem vinda de um grupo do crime organizado. Rolou até um suposto manifesto publicado no Facebook. Curiosamente, os vídeos e os manifestos do Facebook falavam em toque de recolher. Quero acreditar que você não espalhou essas coisas para obter benefícios na fila de um posto de gasolina. Prefiro achar que foi licença poética.

O duro disso tudo é admitir que você é um profundo conhecedor da alma humana. Preferimos acreditar no desastre, na catástrofe, no insólito, no bizarro, no dramático. Adoramos uma conspiraçãozinha. Quem, na hora do almoço, quando o assunto é algo ligado à política, não dá um risinho de sabichão e começa a falar sobre forças ocultas ou informações criptografadas? Se a conversa é sobre mercado financeiro, sempre aparece um mago das finanças, dizendo que tal ação vai subir ou cair. Misteriosamente, o mago das finanças sempre está com o boleto do carro atrasado. No fim das contas, o pai do Kennedy estava certo. Um pouco antes da grave crise de 1929, o pai do Kennedy pulou fora do oba-oba que estava enlouquecendo um montão de gente nos EUA. Quando o horror foi consumado, perguntaram ao pai do Kennedy como ele soube que tudo aquilo desabaria. A resposta foi singela. Quando percebeu que o engraxate que trabalhava em Wall Street estava, soberbamente, dando dicas sobre o mercado acionário, ele, o pai do Kennedy, achou que estava na hora de zarpar. A lição que fica é a seguinte: desconfiar de uma sociedade repleta de sabichões que acham que têm o gabarito no bolso.

Tento escrever esta carta num tom ameno e respeitoso. Prefiro acreditar que as pessoas são boas. Os boatos que você espalha têm muito mais a ver com apreço por um outro mundo: o mundo do delírio, o mundo da fantasia. Evitei abordar o lado mais sombrio das coisas. Acho que não preciso esmiuçar as reputações que são arruinadas por causa de uma leviandade. A Escola Base está aí para refrescar nossa memória. Imagine as sacanagens que rolam nesses malditos grupos de WhatsApp. Quando o estrago está feito, as pessoas envolvidas fazem cara de coitadinhas. E a retratação sempre é muito mais pálida que a futrica.

Tomara que a sua sede tenha sido saciada nos últimos dias. A vida já é dura assim como ela é.