LETRA VIVA


Carta para Machado de Assis




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Caro Machado de Assis: não sei se esta carta chegará até você. Quero acreditar que chegará. Admito que estou meio encabulado. Demorei para encontrar o tom adequado. Formal e respeitoso? Informal e próximo? A balança estava equilibrada, muito equilibrada, mas achei melhor ser informal e próximo. Informal porque não consigo ser de outra maneira. Tenho pavor de solenidades e de rococós. Próximo porque você é fundamental na minha vida, e tratar pessoas queridas com rapapés é, no mínimo, esquisito. Fiquemos com a informalidade e com a proximidade.

Pena que eu só tenha algumas linhas à disposição. Pena que os meus recursos intelectuais sejam limitados. Se estivéssemos no mundo ideal, esta carta seria enorme e o meu estilo seria forte o suficiente para prender sua atenção. Mas precisamos lidar com o que temos, sem reclamações. Como você mesmo disse, já velhinho: a vida é boa. Continuemos.

Tantas ideias em forma de mosquito voando ao redor do cérebro, que fica complicado escolher um assunto. Bancar o tiete e gastar várias linhas elogiando as suas páginas, sejam elas romances, contos ou crônicas? Seria um esforço vão. Você foi grande nas três frentes. Sempre que nos reencontramos, uma vez ao ano, eu fico em dúvida se o melhor de você está nas crônicas, nos contos ou nos romances. Acho que tem a ver com fases pelas quais todo leitor passa. Hoje eu estou mais inclinado a declarar amor incondicional aos seus contos. Sei que será diferente no ano que vem. Quer saber? Ainda bem. Isso mostra como você sempre será um gigante.

Caso seja necessário informar, esta carta vem do Brasil, ano: 2018. Não sei se, de onde você está, você recebe notícias do lado de cá. Quero acreditar que sim. Se você não fosse Machado de Assis, eu lamentaria. Eu imaginaria o tamanho da sua tristeza, da sua indignação. Mas você é Machado de Assis, e eu tenho certeza de que você lida muito bem com as adversidades. Tem a ver com o seu temperamento, com as suas leituras e com a sua experiência. Ser calminho sempre ajuda. Ser profundo conhecedor de Shakespeare e Dante, nem se fala. Ter vivido na segunda metade do século 19 é uma espécie de blindagem. Sei que você tira de letra, mas não tem como não lamentar que você não está mais entre nós. Fico imaginando suas crônicas. Você usaria as redes sociais? Acho que é uma boa pergunta.

Por mais incrível que possa parecer, você é um injustiçado. Claro, seu nome é dito o tempo todo por aqui. Claro, seus textos inspiram reverência. Claro, muita gente diz que você é o grande escritor brasileiro de todos os tempos. O problema é que o seu nome é forte, mas muita gente o usa em vão. Não é tanta gente assim que o leu pra valer. Sacar o seu nome numa conversa sempre é de bom tom, sempre dá certo. Só que é, na maioria das vezes, retórica vazia, desejo de dar carteirada. E pensar que é tão diferente em outros países! Na Itália, muita gente tem uma relação muito mais intensa com os textos de Dante. O mesmo se dá com a França e Victor Hugo, a Inglaterra e Shakespeare, a Argentina e Borges, a Rússia e Tolstói. Aqui, é muito mais pra inglês ver. Quer um exemplo singelo?

Sou professor de literatura, e já perdi a conta de quantas vezes, quando digo a minha profissão, as pessoas afirmam que você não deveria aparecer na escola. Dizem que seus textos são difíceis, inadequados para crianças e jovens. Não deixa de ser uma ironia você ser considerado um escritor difícil. Ironia ou tragédia, sei lá. Retrato do péssimo nível da média das nossas escolas. Essa história de você ser difícil não deixa de ser um rebaixamento mental que os adultos impõem às crianças. Falo da minha vivência: a esmagadora maioria dos alunos e alunas do primeiro ano do ensino médio conseguem entender o que você está dizendo. Não só entendem os aspectos básicos, como fazem interpretações inteligentes e agudas. Você ficaria orgulhoso. É o que eu sempre digo: o problema está nos adultos, e não nas crianças e jovens. Quem acha que você deve ser banido das escolas sugere que tudo seja pautado por textos simples, diretos, de impacto imediato. Eu tenho lá minhas dúvidas se essas pessoas são ingênuas ou estão de sacanagem. Acreditemos no melhor dos mundos: são ingênuas. Ler sem esforço? Ler apenas sobre o que está acontecendo aqui e agora? Ler apenas textos recheados de ação, dragões, viagens no tempo? Bom, talvez seja o caso de a escola mudar seu nome para algo mais relacionado ao depósito de crianças e jovens.

Eita, esta carta precisa terminar! Qualquer dia desses, continuamos a conversa. Fique bem.


Carta ao criador do espaço kids




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Prezado criador do espaço kids: acho que você é jovem. É que a sua criação se espalhou apenas nos últimos anos, mas pode ser que eu esteja enganado e você seja um senhor respeitável, desses que cultivam hortaliças num sitiozinho qualquer, aproveitando a merecida aposentadoria. Se assim for, peço desculpas.

Mas continuo achando que você é jovem. A culpa, claro, é dessa minha mania de reclamar da vida. É que, vira e mexe, eu banco o sociólogo ácido, louquinho para apontar os desatinos de nossa sociedade. Já perdi a conta de quantas vezes me peguei vendo comerciais na TV, encontrando padrões, elaborando teorias sofisticadas. Às vezes, exercitando meu masoquismo, eu abro uma dessas revistas de negócios, só para me empanturrar de bobagens otimistas sobre o rumo da humanidade. Mas o que isso tem a ver com a juventude de quem, em tese, criou o espaço kids?

Sou uma montanha de equívocos, e o meu esporte predileto é tirar conclusões precipitadas. Vou tentar explicar resumidamente: acredito que os males do mundo contemporâneo são criados por pessoas que estão na minha faixa etária. Ou seja: homens e mulheres que estão na casa dos quarenta anos. Mudanças no organograma da firma? Lampejo do gênio de quarenta anos. Varanda gourmet? Arquiteto de quarenta anos. Aplicativos imbecis? Certamente o chefe da empresa tem quarenta anos. E por aí vai. E é por isso que eu acho que você é jovem.

Mas falemos mais a fundo de sua criação. O grande Machado de Assis dizia que o menino é o pai do homem. Parece filosofia de boteco, mas não é; é, isso sim, a mais retumbante verdade. Nossa personalidade é forjada nos anos iniciais. Nossa vida adulta é mero desdobramento da época em que brincávamos de Comandos em Ação. E, se não estou equivocado, nos anos 1980, anos da minha infância, restaurantes e afins não tinham espaços kids em suas dependências. Se eu acho que era melhor? Difícil responder.

Vai ver que eu não sei responder direito porque passei minha infância numa cidade que não era tão grande assim nos anos 1980. Não havia as hamburguerias a cada esquina. Apenas um shopping center aparecia no horizonte. À noite, nos primeiros dias da semana, o cenário era de faroeste. Só faltava o tufo rodando ao vento. Enfim, era um cenário de escassez. E você sabe muito bem que as menores coisas ganham relevância num cenário de escassez. Puxa vida, eu venho de uma época em que as pessoas rezavam por uma lata de batatas fritas vinda do exterior. Assim, a gente, desde cedo, aprendia a agarrar com ferocidade as oportunidades. E ir ao restaurante era uma dessas oportunidades.

Claro que não é só isso. Tem a ver, também, com a maneira como os pais se relacionavam com os filhos, mas não quero abordar este ponto aqui. Fiquemos com uma das camadas do que estou tentando dizer: ir a um restaurante era algo solene. Não éramos burros: sabíamos interpretar essas coisas básicas da vida. Os restaurantes não tinham algo que chegasse perto do espaço kids. Não havia cor berrante, musiquinha, brinquedos espalhados pelo chão. A mensagem era clara: éramos coadjuvantes. Tudo ali era feito por adultos e para adultos. Era nossa obrigação entender a mensagem da maneira mais indolor possível. Ou era aquilo ou era ficar em casa, vendo os cinco ou seis canais de televisão da época. Não precisávamos de espaço kids, é o que estou tentando dizer. Ver os arabescos do cardápio já estava de bom tamanho.

Hoje, você sabe melhor que todos nós, o espaço kids se alastrou. Esses curraizinhos que você criou são os respiros para muitos pais angustiados. Se eu acho isso bom ou ruim? Juro que não sei responder. Depende do dia. Tem dia que eu acho necessário. Basta observar por alguns minutos o comportamento indômito de algumas crianças. Tem dia que eu acho uma monotonia atroz. Sempre o tapetinho de borracha. (Imagino que esses tapetinhos são o paraíso das bactérias.) Sempre duas ou três televisões mostrando desenhos criados por algum devoto apreciador de LSD.

Às vezes, o espaço kids é mera continuação da ala adulta, o que não deixa de ser paradoxal. Outras vezes, ele fica longe da ala adulta, o que pode ser um problema, uma vez que os pais tendem a ficar angustiados com o pimpolho distante dos seus olhos. É um problema insolúvel.

E agora, pensando bem, não sei dizer se a sua criação é maldita ou é a salvação da lavoura. Depende do meu humor. Espero que você entenda.


Carta ao inventor do rojão




Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Estimado inventor do rojão: sou um apaixonado pelos meandros da ciência. Sempre que posso, leio livros que contam como se deu a descoberta X ou a descoberta Y. Na minha modesta opinião, os livros escritos pelo Oliver Sacks são literatura do mais alto nível. Por que, sendo um leigo, sou um apaixonado pelos meandros da ciência? A resposta é simples: é que eu acho que as trevas só podem ser combatidas com a luz do intelecto.

Não que eu seja um deslumbrado com todos os cacarecos que povoam nossas vidas. Tem dia que eu sou meio ludista, tomado pela vontade de sair quebrando máquinas. Por exemplo, abomino o tal "sistema" de cadastro de muitas instituições. Não pelo sistema em si, mas pelos problemas que ele sempre gera. E, se você parar pra pensar, é um sistema meio maroto. Ele não apaga de jeito algum uma pendência que você eventualmente tenha com determinada instituição, mas vá dizer ao tal sistema que a conta já foi paga. Ele irá negar até a morte, ou até o "reset", que é uma espécie de desmaio da máquina.

Na semana passada, soube que o Detran tinha liberado a CNH para celulares. Como eu sou meio alegrinho, achei por bem comemorar. Pena que a minha felicidade durou pouco. Descobri que, para ter a CNH no celular, seria necessário enfrentar as filas do Poupatempo. Um dia eu conto com mais detalhes o trauma que eu tenho do Poupatempo.

Nos dias de trânsito mais carregado, eu lamento a proliferação de carros e motos. Quem nunca passou por isso? Mas a ranhetice passa logo. Não trocaria meu carro por uma charrete. É a velha história: em muitos casos, a culpa não é da máquina, e sim de quem a opera.

Eu estou enrolando porque tenho pavor de grosseria. É que o meu desejo é dizer que a sua invenção, o rojão, é uma tragédia para nossas vidas. No seu caso, impossível bancar o doutor Victor Frankenstein e alegar que a criatura saiu do controle e se rebelou contra o criador. No caso do rojão, convenhamos, o equívoco estava cristalino desde o início.

Talvez você queira perguntar se a minha bronca com o rojão é caso antigo. Preciso ser honesto: até alguns anos atrás, eu tolerava o rojão. Veja bem: tolerava, o que significa que eu nunca fui fã. Eu era uma espécie de resignado. Achava o estourar do rojão uma coisa besta, sem sentido, símbolo de comportamentos com os quais tendo a não compactuar.

O problema é que a gente envelhece, e acaba ficando mais chato. Há quem glamourize o envelhecimento, só que eu nunca fui um desses. Antes de dormir, sempre me vejo, magrinho, correndo atrás de uma bola. Mas o que eu estava dizendo é o seguinte: a gente, ao envelhecer, tende a ficar mais sincero, com menos preocupações em relação à opinião dos que nos cercam. Pode soar como egoísmo, mas é o que vem acontecendo comigo.

Para mim, hoje, não há perdão para quem solta rojão. Sabe, eu adoro descer a marreta nas redes sociais, dizendo que elas estão tornando as pessoas mais burras, mais intolerantes, mais precipitadas, mais cafonas, mais narcisistas, mais um monte de coisas; mas tem hora que a gente acha umas coisas relevantes no Facebook. Por exemplo: fotos e vídeos dos bichinhos sofrendo horrores por causa dos malditos rojões. A Florzinha, a gatinha dos meus pais, sai correndo para debaixo da cama mais próxima quando algum amaldiçoado resolve soltar um rojão. O pior é pensar que, hoje, muita gente tem Facebook e vê essa tristeza toda. Pergunte se deixam de soltar rojão. Deixam nada. Depois perguntam por que acho que a humanidade é inviável. Imagine o transtorno para os que estão adoentados, para os nenês, para os que acabaram de dormir a duras penas.

Você tem todo direito de dizer que estou sendo egoísta, que estou tentando que o mundo siga os meus ditames, que tem gente que acha o máximo soltar rojão, que não estou pensando na alegria da multidão. Egoísta todo mundo é, pelo menos eu assumo. Não quero que o mundo siga os meus ditames: mas não custa nada pedir um pouco de noção. Prefiro não comentar a respeito dos que acham o máximo soltar rojão. Sobre a alegria da multidão: não existe multidão alegre; o que existe é multidão perigosa.

Eu espero não ter sido duro. E eu espero que o seu sono seja estilhaçado pelo barulho mais imbecil que alguém poderia ter inventado.