EDITORIAL


Caminhões parados




Desde a última segunda-feira caminhoneiros de vários estados brasileiros realizam protestos contra o aumento dos combustíveis, mais especificamente do diesel. Eles tem bloqueado estradas e causado congestionamentos em algumas cidades. Na Região Metropolitana de Sorocaba foram registrados dois pontos de protesto no primeiro dia de mobilização, no km 100 da SP-79, em Votorantim, no período da manhã, e na SP-264, entre Sorocaba e Salto de Pirapora, no final da tarde, quando chegaram a fechar a rodovia por um período curto de tempo, mas suficiente para formar um congestionamento.

O protesto nacional da categoria foi convocado pela Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) e começou com uma carta endereçada a todos os caminhoneiros autônomos do País para participarem da paralisação contra as constantes altas do diesel, sobretudo contra os impostos que incidem no preço desse combustível.

No primeiro dia do protesto, que causou problemas para milhares de pessoas, a Petrobras divulgou um novo aumento nos preços do diesel (0,97%) e da gasolina (0,9%). Ontem, um dia após o início do protesto, a empresa anunciou redução nos preços do diesel e da gasolina, a primeira após cinco dias de altas consecutivas. Com a queda prevista para hoje, o preço médio do litro de gasolina sem tributos chega R$ 2.0433, com queda de 2,08% e o diesel caiu para R$ 2,3351, 1,54% menor. É contra essas mudanças constantes, predominantemente com aumento de preços, que os caminhoneiros protestam. Mesmo porque, quando ocorrem pequenas quedas nos preços, eles dificilmente são repassados para os consumidores.

Desde que a Petrobras iniciou essa política de preços dos combustíveis, acompanhando a cotação do petróleo no mercado internacional, em julho do ano passado, o diesel subiu 56,5% na refinaria. Para os caminhoneiros, maiores responsáveis pela circulação de mercadorias no país, essas altas tornam a atividade inviável, pois mal conseguem calcular o custo dos fretes onde o principal componente, o combustível, se altera diariamente. Por seu lado, a Petrobras diz que não é responsável pelo aumento de preço ao consumidor e informa que o valor cobrado pela empresa corresponde a um terço do preço praticado na bomba, pois o resto são impostos e margem de lucro dos distribuidores.

No governo da presidente Dilma Rousseff (PT), notadamente no seu primeiro mandato, o preço do diesel e gasolina foram mantidos estáveis com objetivos políticos e para controlar a inflação que voltava a crescer. Segundo alguns analistas, essa política levou a estatal a ter um prejuízo de bilhões de dólares. A partir de 2014, quando o preço externo do petróleo despenca, com o preço do barril caindo de US$ 100 para US$ 40, o governo passa a permitir que a Petrobras fique com essa diferença, não transferindo o benefício para o consumidor, ou seja, foram praticados preços finais dos combustíveis sem qualquer relação com a realidade do mercado internacional.

Diante do protesto dos motoristas, o presidente Temer convocou na segunda-feira uma reunião de emergência com alguns ministros e a direção da Petrobras. Nada ficou resolvido e o grupo reuniu-se novamente ontem, também sem tomar qualquer decisão de impacto. A ingerência do governo federal na política de preços da Petrobras, como acontecia durante o governo Dilma, ao que parece, está fora de questão. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) informou que o governo pretende zerar a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre o diesel para reduzir o preço. Mas a associação dos motoristas diz que não será de grande valia, pois a Cide representa apenas 1% dos 27% de tributos incidentes no diesel.

De qualquer maneira, o governo terá que encontrar uma solução para os aumentos diários. Sem interferir na política de preços da empresa, o caminho é corte de impostos, um osso duro de roer para um governo que sabe arrecadar como poucos, mas gasta muito mal o dinheiro dos contribuintes.