EDITORIAL


Revolução doméstica




Nos anos 1960 e 1970, dez e vinte anos após a entrada em funcionamento da primeira emissora de TV no País -- a TV Tupi de São Paulo -- raros eram os lares brasileiros que dispunham de um aparelho de televisão, daqueles gigantescos, com válvulas, um verdadeiro móvel no meio da sala dos privilegiados. Os aparelhos se concentravam, sobretudo, nas regiões Sudeste e Sul, até por conta dos sistemas de transmissão adotados, antecessores da retransmissão via satélite ou com o uso de outras tecnologias. Por outro lado, o rádio reinava soberano como veículo de comunicação de massas, atingindo todas as unidades da federação em um avanço que havia começado de maneira progressiva a partir dos anos 1930.

Esta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2016, que traz um painel complexo e atualizado de como se processa a comunicação no País, uma ferramenta fundamental para quem quer chegar com alguma informação aos cidadãos brasileiros. A pesquisa, realizada no último trimestre de 2016, abrangeu mais de 211 mil domicílios particulares em 3,5 mil municípios e constatou, entre tantas outras informações, que de 69,3 milhões de domicílios no Brasil, somente 2,8%, algo em torno de 1,9 milhão, não tinham aparelhos de TV. Por outro lado, nos domicílios com televisão no Brasil, existiam 102,633 milhões de aparelhos, sendo que 63,4% deles eram mais modernos, já com tela fina.

O trabalho revelou também que no final de 2016, o Brasil tinha mais de 37 milhões de televisores de tubo, que necessitariam de adaptação para receber sinal digital de televisão aberta. A alternativa para esses aparelhos receberem os sinais seria TV por assinatura, que forneça sinal digital, ou antena parabólica. Para superar essa dificuldade, recentemente, foram distribuídos gratuitamente aparelhos conversores para famílias que recebem o Bolsa Família. De todo modo, quase 7 milhões de domicílios corriam o risco de ficar no apagão com o desligamento total do sinal analógico.

Outro dado importante para quem trabalha com comunicação é a existência de computadores em apenas 45,3% dos domicílios brasileiros. Tablets estão presentes somente em 15,1% deles. A concentração de computadores ocorre nas regiões Sul e Sudeste do País, 53% e 54,2%, respectivamente. Nas regiões Norte e Nordeste não chegam a 30%.

Se a presença de aparelhos de TV e computadores em grande parte dos lares brasileiros representa uma mudança de parâmetros em termos de comunicação, nada se compara à revolução da telefonia celular. Há pelo menos três décadas, as linhas de telefones fixos eram disputadíssimas, caras e até serviam de fonte de renda para quem possuía várias delas e se dispunha alugá-las. Hoje, assistimos a uma queda constante do número de linhas de telefones fixos, assim como uma diminuição brutal do número de telefones públicos, os orelhões.

De acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), divulgados em janeiro deste ano, existiam em novembro de 2017 pouco mais de 40,8 milhões de linhas em serviço, 135 mil a menos que no mês anterior. Em 12 meses houve uma redução de 1,32 milhão de linhas no serviço de telefone fixo no Brasil. De acordo com o trabalho do IBGE, os telefones fixos estão presentes em 33,6% dos domicílios brasileiros, um número que sobe para 92,6% quando se trata de telefonia móvel celular. Além disso, constatou-se que mais de 90% das pessoas que acessam a internet usam o celular, um porcentual que sobe no Norte e Nordeste, regiões onde existem menos computadores.

O trabalho do IBGE teve o refinamento de pesquisar a finalidade de utilização do celular para acessar a internet e verificou que o principal motivo citado pelos usuários (94,2%) é enviar mensagens de texto e vídeo por aplicativos diferentes de e-mails. Em seguida vem assistir a vídeos, o que inclui filmes, programas e séries.

Essa é a realidade das comunicações no Brasil, completamente diferente de 30 anos atrás. Uma revolução silenciosa que ocorreu no interior dos lares brasileiros.