EDITORIAL


Tempo de partido e de homens partidos




Encerraram-se ontem à noite os pedidos de registros no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para os candidatos que almejam o prestigioso cargo de Presidente da República, entre outros do Legislativo como senadores, deputados federais e estaduais. E de governadores.

Ao final da noite, com máquinas quase rodando, chega a informação de que a Procuradora-Geral da República e chefe do Ministério Público Eleitoral (MPE), Raquel Dodge, pediu ao TSE que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República seja rejeitada. Ela afirma que o ex-presidente "não é elegível". O questionamento de Dodge será analisado pelo ministro Luís Roberto Barroso, relator do pedido do registro da candidatura de Lula no TSE.

Há quem acredite e propague a renovação do Congresso como uma maneira de o Brasil ser arejado por candidatos sem compromisso com terceiros, além do comprometimento com a Nação e com o eleitor. Espera-se que sejam altruístas a ponto de permitir numa administração futura que os interesses gerais do povo prevaleçam e pouco -- ou em nada -- os interesses do partido que representam, ou mesmo de ordem pessoal.

Os exemplos vistos até agora, na esfera local, estadual ou federal, levam a um ceticismo de que a onda renovadora ainda não atingirá o Legislativo. Em especial porque as tais máquinas partidárias continuam funcionando: comitês locais liderados por pessoas de alguma influência e que são capazes de ter em seu poder 20 a 50 votos -- ou até mais -- por meio de ações que alimentam estômagos, automóveis sem IPVA, empreguinhos de poucos dias, ambulâncias de última hora, fura-fila de cirurgias. Esses votos de currais eleitorais ainda são a essência da esquálida democracia brasileira que é representada por ações guturais. O estômago ainda fala mais alto que a ideologia, seja em cidades pequenas a menos de 150 km de São Paulo, seja nos aguapés da Amazônia.

Entre os 13 candidatos a Presidente do Brasil, esse número cabalístico que se associa ao candidato agent provocateur que, como os velhos caudilhos sul-americanos, ainda produz um certo frenesi nos rincões do país e entre grupos ideologicamente persistentes. Segundo a lei vigente, o cidadão que tenha sido condenado por órgão colegiado nos últimos oito anos perde a capacidade eleitoral passiva. É o caso do candidato 13 que foi condenado criminalmente pela 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Destacam-se dois candidatos bastante ricos, egressos do setor financeiro. Declararam fortunas pessoais acima de R$ 350 milhões e R$ 425 milhões o que os coloca na confortável posição de investir em suas campanhas políticas e de produção de TV, fator que ainda se questiona se conseguirão convencer o eleitor de seus nobres propósitos. A máquina fala mais alto que as mensagens de TV? Isso vale para todos os candidatos presidenciáveis.

Ainda dentro dessas promessas de campanha, a possibilidade é de que muitas, muitas mesmo, não serão cumpridas porque a realidade que nos aguarda em 2019 é espinhosa. Já foi escrito aqui neste espaço sobre o estelionato eleitoral que nos aguarda, e que, reforça-se pelas respostas das entrevistas veiculadas na TV. Vai dar tudo certo, cada um tem uma solução indolor para o brasileiro. E aqueles que ao menos têm um plano, têm respostas curtas de efeito, frases repetidas com certa agressividade ou docilidade, passando um pouco de sua personalidade e visão do que se pode esperar.

No Estado de São Paulo, em especial na Região Metropolitana de Sorocaba, os candidatos aos cargos estaduais e federais pouco, ou nada têm respondido -- além dos chavões protocolares de costume -- sobre suas ações enquanto representante das necessidades de nossa região, em especial na área da Saúde. Domingo passado, este Jornal apontou mais de 11 cidades ao redor de Sorocaba com obras públicas paradas. Como se chegou a isso? Por que se permitiu que se chegasse a esse ponto?

O voto, esse desalento obrigatório que com o passar dos anos tende a diminuir em ação de mudança, concretizado em ausências, votos nulos e brancos, ainda é a única expressão de uma vontade individual. O que isso muda?

Poderia mudar muito. Mas a revolta contra os eleitos que fazem nada é grande.

E assim parece ser há muito tempo. As palavras publicadas em 1945 pelo maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, em seu poema forte "Nosso tempo", continuam presentes e, talvez, possam nos ajudar na reflexão e conclusão: "Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra." (...) "Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir."