OUTRO OLHAR


O salão dos passos perdidos




Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

Admiro as pessoas que ditam regras aos outros. Parecem ter o dom da sabedoria, em contraste absurdo com a minha capacidade cada vez mais reduzida de entender as coisas.

Pessoas que ditam regras correm o risco de elas próprias não cumprirem nada do que pregam. Desejariam que os outros sigam os seus valores como forma de compensação para suas próprias fragilidades.

Pessoas que ditam regras correm o risco de serem atropeladas pela realidade. Como desejar que outros façam o que eu digo se eles, por natureza, são muito diferentes entre si? Como aplicar códigos de conduta para uma sociedade formada por criaturas com perfis que vão de um extremo a outro?

Muitas pessoas são boas, generosas, solidárias com a dor humana. Mas muita gente também é má, cruel, indiferente ao sofrimento alheio. Impossível imaginar que uma ideia seja assimilada igualmente por seres tão conflitantes.

As leis pulsam nesse campo de discrepância. Dizem, na teoria, que elas são feitas para todos. Mas não são cumpridas universalmente porque cada um tem modos diferentes de ser e de viver.

O trabalhador ganha salário com o suor do próprio rosto, mas o ladrão acha que não precisa trabalhar para viver e prefere o roubo ao expediente de várias horas diárias de produção na fábrica, no comércio, no escritório.

Então, para fazer cumprir as leis, a sociedade criou os tribunais. Códigos jurídicos foram elaborados. Compuseram-se legislações que, na prática, são ordens a serem cumpridas. E as ordens se impõem com punições para quem fugir delas.

A medida produziu efeitos parciais. Os tribunais, como instrumentos de justiça, não tinham poder de alcance universal. Ser rico fazia grande diferença a favor de quem recorria às togas. Ter bons advogados custava muito caro e essa era condição necessária para ter direito a recursos e explorar as brechas de sentenças judiciais. Quem não tinha dinheiro ficava ao sabor dos ventos, como um barco à deriva.

Criou-se então a política, como proposta moderadora de diferenças. E os contrários não se entenderam. Nada de convergência. A política favoreceu uns, condenou outros, ignorou tantos mais. Como resultado, surgiram camadas de privilegiados, de desamparados, de desiludidos.

De tempos em tempos, emergiam mágicos com ideias para unificar os diferentes nessa sociedade caótica. Prometiam coisas inimagináveis, desde fazer chover até controlar o calor do sol para quem acreditasse neles. Sabiam que tudo era mentira, mas insistiam na magia como método para confrontar a realidade.

De resto, quando a política não é suficiente para unir consciências, recorrem-se aos tribunais. E nem assim as grandes questões são respondidas plenamente. As togas reproduzem as divergências existentes nos estratos sociais. Tomam decisões com base em códigos jurídicos. Ditam regras. Exercem poder absoluto sobre tudo e todas as coisas, mesmo que seus integrantes reconheçam que suas atuações são estilhaçadas por falhas. E não poderia ser de outra forma, já que esses grupos também são formados por pessoas.

Desse modo, embora imperfeitos, os tribunais ditam rumos para a política, fazem história, subvertem a existência. Estão de tal forma presentes na vida dos cidadãos, que inspiram obras de arte.

Os tribunais são os centros dos acontecimentos nos romances "O estrangeiro", de Albert Camus, e "O processo", de Franz Kafka, e no filme "Glória feita de sangue", de Stanley Kubrick. Como símbolos de justiça, são retratados nessas obras-primas da literatura e do cinema como teatros do absurdo.

Homens podem errar em avaliações contaminadas por ideologias, mas obras de arte dificilmente cometem equívocos e é por essa qualidade que se tornam clássicas. Os tribunais julgam, mas também são julgados pela arte, pela história, pela própria ideia de justiça que representam.

Não é por acaso que o ambiente interno de um tribunal em São Paulo é conhecido como "o salão dos passos perdidos". Rótulo enigmático, mas que diz muito. Evoca viagem a um labirinto. Uma viagem com roteiro frágil, sem indicação de destino. Talvez essa seja a melhor tradução para a justiça dos homens.


Silêncio na sala de espera




Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

O toque do celular despertou Zé Capela às quatro da manhã de uma segunda-feira de abril. Por um instante, não conteve o sobressalto. A expectativa de notícia ruim acelerou o ritmo cardíaco. Impossível conter a ansiedade. Ligação fora de hora assustava. Coisa boa não pode ser, pensou.

-- O Zé da Areia morreu -- disse Maria Dea no celular.

Maria Dea era a mulher de Zé da Areia, e este era o melhor amigo de Zé Capela. Amigos de infância, de escola, de brincadeiras na rua, de juventude vulcânica, de destinos cruzados.

No velório, Zé Capela demorou para se aproximar do caixão. Parado na entrada da sala, aguardou um, dois, três minutos. Só então deu os passos necessários para percorrer a distância entre a porta da sala e o cadáver do amigo.

Contemplou-o em silêncio. Não havia o que dizer. Era como se as palavras se extinguissem ou perdessem o sentido. Nada que pudesse ser dito serviria de consolo para a família.

Não soube quanto tempo ficou diante do caixão. Talvez dois minutos. Ou três. Tempo suficiente para recordar bons momentos compartilhados numa longa amizade: jogos de várzea, namoradas, comemorações, conversas sobre a vida e a morte.

Voltou-se, dando as costas ao falecido, e refugiou-se num canto da sala.

Entre os familiares e amigos, identificou Maria Dea. Viu Maria Josefa e Maria Conceição, ex-mulheres do morto. Inimigas entre si, nessa hora era como se as três mulheres, embora à distância, tivessem feito uma trégua em homenagem a Zé da Areia.

Zé Capela viu se aproximarem do caixão outras pessoas que tiveram todo tipo de vínculo com o morto. Um devia dez mil reais, outro brigara com ele e não tivera tempo de fazer as pazes, e um terceiro havia lhe rogado a praga de que ia morrer sem ter visto o seu time campeão da Libertadores.

Essas criaturas se aproximavam, contemplavam o rosto do morto e se afastavam, num ritual que podia parecer ensaiado.

O culto aos mortos tem uma relação muito próxima com o teatro, pensou Zé Capela, observando a movimentação na sala.

O que mais chamava a atenção era o silêncio. A ausência de ruído era como uma trilha sonora às avessas. Não havia marcação de cena, câmera, diretor, nada disso. Mas era como se cada um cumprisse o seu papel num filme imaginário sobre perda e tristeza.

Cada um (inclusive o morto) cumpria o seu papel. Cada indivíduo tinha funções que se revelavam naquele cenário. Os olhares trocados pelas três mulheres da vida de Zé da Areia era um exemplo. Elas se entreolharam como se estivessem diante do desafio de disputar graus de importância na vida de Zé da Areia. Nesse quesito, Maria Dea saía na frente porque estivera com ele nos momentos finais, mas as outras duas mulheres não concordariam com esse critério de avaliação.

Zé da Areia não deixou filhos. Melhor assim. Ao menos não havia descendentes. Isso o credenciava a ter dito uma crueldade, como disse Brás Cubas por meio de Machado de Assis: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

E o corpo continuava lá, no meio da sala. De repente, alguém leu um poema. Um rapaz apareceu com um violão e musicou a letra. Um estranho discursou com carga de elogios. Soube-se que este último percorria todos os velórios e repetia o mesmo discurso aos falecidos, fossem homens ou mulheres. Adaptava o conteúdo a cada situação, apenas alterando os nomes. Era com essa peregrinação fúnebre que ele aproveitava as oportunidades para tomar cafés e lanches de graça servidos em salas de velórios.

Lá pelas tantas, a movimentação diminuiu até ao ponto de não haver mais ninguém ao redor do caixão. Zé Capela, no seu canto, teve pena da solidão do amigo.

Nesse clima, os visitantes ocupavam-se com o que fariam após o sepultamento. Queriam saber se ia chover, se o trânsito em determinado caminho estava fluindo bem. Era como se o morto não fizesse parte do foco de interesse dos vivos.

Pior ainda, muitos começaram a ir embora. Nem se despediram de Maria Dea. Maria Josefa e Maria Conceição também chisparam.

Num instante, Zé Capela também não viu nem sinal de Maria Dea. Ela acabava de sair e não voltou mais.

Na hora do sepultamento, um funcionário do velório fechou o caixão. Só Zé Capela estava presente. E só ele acompanhou o corpo ao cemitério.


Aperte o 7




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

Numa tarde de quarta-feira, o cara vai pela primeira vez a uma consulta médica de rotina no 7º andar de um edifício moderno do centro da cidade. Consta que o cidadão é analfabeto digital. Quem o conhece sabe que ele tem dificuldade com as novas tecnologias. Rendeu-se tardiamente ao celular e ao zap, mas por pressões de trabalho. E também é meio atrapalhado no trânsito. Avesso ao Waze, habitualmente fica perdido quando se dirige a um novo endereço.

Foi sempre assim. Um dia, em Brasília, no corredor de um hotel às 6 horas da manhã, ele apertou um botão vermelho achando que ia abrir uma porta ao lado para ter acesso às escadas e chegar à recepção no térreo. E o que ele acionou foi o alarme de incêndio. O ruído estridente foi assustador e durou alguns minutos. Ele correu, encontrou uma porta. Chegou ofegante à recepção. Lá estava uma amiga que o conhecia de longa data. Foi você que acionou o alarme, não foi?, ela o desmascarou, rindo. E ele não teve como negar o óbvio.

Outra vez, há muitos anos, teve dificuldade para lavar as mãos na torneira de um banheiro de cinema. Outra pessoa usou a água normalmente e ele ficou perplexo porque não havia nada para abrir ou fechar a torneira. Aproximava as mãos da torneira, e nada. Olhou para debaixo da pia, tentando identificar algum pedal de pressão, e nada. Precisou pensar um instante até jorrar a água e então compreender que estava diante de uma nova tecnologia.

Pois é esse o cara que entra na avenida onde está situado o prédio indicado para a consulta médica. Para variar, ele erra a entrada do edifício. Após fazer um contorno, entra em outra avenida à direita. Faz um retorno à esquerda e entra no estacionamento lateral do prédio.

No elevador, quando vai acionar o 7º andar, é surpreendido pela ausência do número 7. Os números vão de 0 a 5. Entrei no prédio errado, ele diz, sem saber se fica nervoso ou se dá risada. Vou ter que sair do prédio, ele calcula, como que se preparando para um desvio no roteiro. Duas mulheres que estão no elevador e percebem a sua impaciência dizem que ele não precisa sair do prédio, que na verdade é um shopping. É só você seguir por esse corredor, o prédio aonde você vai fica ao lado, dá para ir caminhando, ensina uma das mulheres.

Seguindo as indicações, o cara apressa o passo. Já está atrasado para a consulta. Atravessa uma vasta área de estacionamento e passarela de pedestres e finalmente atinge o saguão de entrada do prédio onde fica o consultório médico.

Feita a identificação com RG e foto, a recepcionista lhe entrega o cartão magnético que destrava catracas de acesso ao elevador. O elevador fica à direita, é só apertar o 7, diz a moça da recepção.

Pois bem: o cara entra no elevador e procura o 7 para indicar o andar pretendido. É tomado de um estranhamento quando não vê nenhum painel com os números que devem ser acionados. Ao lado da porta há apenas um visor digital que indica os andares no ritmo do elevador. Ele fica pasmo. E agora?, pensa. O que eu faço?

Mesmo sem ter apertado nenhum número, ele vê o 7 registrado no visor. Será que a moça da recepção acionou algum dispositivo que marcasse automaticamente a parada no 7º andar?, ele pensa. Mas não pode ser, porque ela pediu para ele apertar o 7.

A porta do elevador se abre. Por instinto de orientação, ele deduz que este é o 7º andar. E está correto. Atrás dele saem duas mulheres, que percebem sua desorientação. Você devia ter apertado o 7 no térreo, o painel fica ao lado da porta do elevador, diz uma delas.

Muita modernidade, eu nasci no século passado, ele brinca, se justificando. As mulheres compartilham o lado engraçado da confusão e se dirigem para uma das muitas salas existentes no 7º andar.

No instante em que entra no consultório médico, o cara tem a sensação de que foi alvo de pegadinhas digitais.

De vez em sempre ele vive esses apuros. Um ser analógico no mundo digital dá essas coisas. São os seus momentos de Mr. Bean. Que ao menos rendem boas risadas.

De resto, rir de si mesmo também é uma forma de lavar a alma nesses tempos difíceis.


Abril de misericórdia




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO


"Abril é o mais cruel dos meses", escreveu o poeta T.S. Eliot. Agosto já era. Em abril é que os acontecimentos dão calafrios. Todo ano, a aproximação desse mês rotulado como "o mais cruel" pelo poeta norte-americano acende um sinal de alerta.

Há quem acredite na probabilidade de que a história se repete de tempos em tempos. Mudam os métodos, mas a essência é a mesma. As guerras, por exemplo, introduzem novas armas, mas todas produzem catástrofe.

Foi em 2 de abril de 2005 que morreu João Paulo II, um dos maiores líderes da história contemporânea. Foi em abril de 1973 que morreu Pablo Picasso, um gênio da arte no século 20. E muito antes, em 10 de abril de 1917, o revolucionário mexicano Emiliano Zapata foi assassinado.

Também foi um dia de abril de 1949 que marcou a criação do Tratado do Atlântico Norte ou Aliança Atlântica, que deu origem à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma agremiação militar de países que, em oposição ao grupo de nações do Pacto de Varsóvia, construiu um dos pilares da Guerra Fria.

E o Titanic naufragou na noite de 14 para 15 de abril de 1912. A tragédia deixou 1.512 pessoas mortas. Foi uma das maiores catástrofes marítimas de todos os tempos.

Abril marcou a invasão da baía dos Porcos, em Cuba, no ano de 1961, na madrugada do dia 17. Em 19 de abril de 1824, a Inglaterra perdeu Lord Byron, ícone do romantismo.

Em outro registro de tragédia com reflexos no mundo inteiro, o dia 26 de abril de 1986 entrou para a história com Chernobyl, na Ucrânia (então pertencente à antiga União Soviética), onde aconteceu o acidente nuclear mais grave de todos os tempos.

O Brasil não foge à regra dos fantasmas de abril. Basta recordar o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996, quando 19 sem terra foram assassinados; a morte de Tancredo Neves, após uma agonia que comoveu os brasileiros; o enforcamento de Tiradentes com o seu corpo depois esquartejado.

Em séculos passados, índios massacrados e africanos escravizados poderiam se lastimar com os sofrimentos vividos e associados ao descobrimento do Brasil em 22 de abril de 1500. Essa data selou com dores profundas o destino de índios e escravos negros.

Agora, em 2018, o mês que começa no próximo domingo também assusta. É farto o caldo de cultura que, no Brasil e no mundo, abre caminhos de pedras e perigos como num campo minado.

No Brasil, as incertezas dão o tom de que a única certeza é a dúvida sobre tudo e sobre todos os agentes da história. Acertar a previsão do tempo é mais fácil do que prever os próximos acontecimentos. Em tempos de ódios exacerbados, intolerância à flor da pele, toda desconfiança é sinal de prudência.

No mundo não é diferente. Quem manda de verdade, de Donald Trump a Vladimir Putin, tem o controle dos botões capazes de acionar a guerra nuclear. Vale torcer para que eles tenham paciência entre si. E cultivem tolerância para aturar os arroubos de valentia de coadjuvantes como Kim Jong-un e Bashar al-Assad.

A temperatura do medo sobe muito quando diplomatas russos são expulsos por países ocidentais em retaliação ao envenenamento de um ex-espião russo e sua filha no Reino Unido. A Rússia, acusada de usar veneno proibido no ataque, promete responder à altura. Poderia ser o roteiro para um filme de "007". Mas não é. Em meio à crise, o pior é que diplomacias decorativas não servem para nada.

E o verso de Eliot martela na cabeça: "Abril é o mais cruel dos meses." Hora de torcer para que abril de 2018 seja menos punk. Hora de acreditar que no Rio pessoas vão parar de serem assassinadas nas favelas em "confronto" com forças invisíveis. Hora de imaginar que um mágico possa reduzir os 60 homicídios por dia que fazem do Brasil um país em guerra civil silenciosa.

Que venha um abril de misericórdia. As vidas de muitas pessoas seriam poupadas. A paz agradeceria em nome de todos.


Do fundo do coração




Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br

Prezada Marielle: eu não a conheci, muitos brasileiros não a conheceram em vida, e mesmo assim a brutalidade que calou a sua voz provocou uma comoção popular que atravessou fronteiras.

Foi o dia em que a dor foi além do limite suportável e se elevou do pessoal para o coletivo, do indivíduo para a multidão, da lágrima para o protesto e o clamor por justiça.

A dor ganhou dimensão grandiosa porque você era a voz solitária que representava os anseios e as esperanças de muita gente que não consegue ser ouvida.

A dor repercutiu de forma tão dilacerante porque a sua história de vida era um exemplo de vibração, de coragem, de quem faz a diferença na sociedade brasileira. E a perda de pessoas como você significa uma luz que se apaga.

Todas as mulheres que choraram a sua morte se sentiram Marielles. E todos os homens que compartilharam o sofrimento tiveram a indescritível sensação de que de repente tinham se tornado seus irmãos.

E as Marielles e esses irmãos na dor se encontraram em praças e avenidas do Brasil e do exterior e reagiram com homenagens, orações, abraços, angústia estilhaçada. Foi o dia em que o luto se conjugou com gritos de luta por direitos humanos.

A tragédia que tirou a sua vida é a tragédia de todos nós, brasileiros, que em tempos de paz convivemos com números de homicídios que superam muitos países em guerras.

Os tiros que abateram a sua figura frágil e querida por muitos também liquidaram a propaganda oficial de combate à violência por meio do uso de métodos igualmente violentos, típicos de guerra.

O ataque que interrompeu a sua história resgatou a tradição de brutalidade que também abateu ativistas como Chico Mendes, Dorothy Stang, Vladimir Herzog, Santo Dias, Manoel Fiel Filho, Zuzu Angel, Tiradentes. E tantos outros que ousam bater de frente contra criaturas que nunca se elevam além do tamanho rasteiro da covardia humana.

Triste ironia: a violência que você denunciou acabou por fazer de você mais uma vítima. Triste constatação: você destoava dos políticos tradicionais, tinha muitos sonhos de transformação da sociedade e lutava por eles com a credibilidade de poucos.

Com pesar, desconfio que o Brasil não merecia você. O Brasil que hoje amarga a sua perda não foi capaz de lhe dar proteção, de evitar o seu assassinato, de conter a mão covarde que precisou se esconder nas sombras para puxar o gatinho de uma arma.

Também, pudera. Você nasceu numa sociedade excludente, que não aceita e não perdoa quem supera os limites de classe social. Você se projetou como alguém que ultrapassa as barreiras da senzala e invade a casa-grande levando no peito as marcas da sua origem pobre, da resistência do povo negro, da favela como símbolo e metáfora de um país que se imagina como nação moderna sem ter se libertado da estrutura enraizada no século 19.

Você se lançou como símbolo de protesto por todas as vítimas assassinadas no Brasil, todos os dias e todas as horas, desde o motorista Anderson, que estava na sua companhia na hora do ataque, até o empresário que também foi executado naquela mesma noite num assalto diante do filho de cinco anos. E nos dias seguintes outros inocentes continuaram a ser abatidos.

Você se vai e entra para a história como símbolo de um Brasil que fracassou, que não foi além do discurso, que se aproxima do México no que ele tem de bárbaro e assustador. Acham que o seu dramático fim pode servir para reflexão e pode se converter em divisor de águas no debate dos direitos humanos. Chega de achismo, chega de reflexão. Não dá para elaborar discurso quando a prática é de contar cadáveres todos os dias nas cidades brasileiras.

Para qualquer lado que se olhe, o que se vê é desamparo, descrédito, pessimismo. A propaganda oficial pode até dizer o contrário, mas ela tem o desconto de ser apenas propaganda e cumprir o papel que lhe convém como porta-voz da casa-grande. Sua morte, Marielle, enterra toda propaganda, oficial ou particular. A realidade é perturbadora demais e não pode ser manipulada.

A sensação que fica, prezada Marielle, é de que a sociedade brasileira chegou a uma encruzilhada. A grande dúvida é saber para onde seguir. Que caminho tomar. Em quê acreditar. De que forma encontrar sentido para um cotidiano árido, selvagem, sem salvação. É como se estivéssemos numa trilha escura e sem o apoio de um guia.

Marielle, você é um símbolo do Brasil insondável e profundo.

Marielle presente, hoje e sempre.