OUTRO OLHAR


E se Superman estiver com a razão




Carlos Araújo
carlos.araújo@jornalcruzeiro.com.br
Decifrar porque a inteligência convive com a barbárie é um dos grandes desafios da natureza humana. Essas duas forças habitualmente entram em rota de colisão e, como num processo de fusão, duelam no mesmo espaço, na frequência dos mesmos acontecimentos, na fração de curtos períodos históricos relevantes para o planeta.

Por que isso acontece? Por que a inteligência não é capaz de eliminar toda a barbárie e, na contramão do raciocínio, por que a barbárie não detém a inteligência? Ou será que, para cúmulo do absurdo, uma e outra coisa são a mesma coisa?

A história é farta em exemplos de que nenhum conhecimento é capaz de deter a brutalidade. Desde a ascensão do nazismo, antes do início da Segunda Guerra Mundial, uma pergunta inquietante ronda os estudos sobre relações de poder: como explicar que a Alemanha, um país celebrado como referência filosófica, artística, científica, permitiu a dominação de um sistema de governo de extremo totalitarismo liderado por Adolf Hitler?

Questões de igual natureza podem ser feitas sobre acontecimentos em outras partes do mundo. Uma delas é como os EUA, modelo universal de democracia, foi capaz de lançar as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e como se dispôs a patrocinar as ditaduras latinoamericanas nas décadas de 1960 e 1970.

No campo das potências também é intrigante um fenômeno totalitário como o stalinismo no século passado e sua perpetuação nos governos que se seguiram, especialmente na era Vladimir Putin, se se considerar que esse país produziu gigantes da literatura como Tolstói e Dostoievski, ícones da dança como Rudolf Nureyev e o Balé Bolshoi, gênios do cinema como Serguei Eisenstein e Alexandr Sokurov.

Olhando para o nosso território, o Brasil, um país exaltado em prosa e verso por suas belezas naturais e sua riqueza mineral, sua alegria e sua paz, seu carnaval e sua música criativa, um país de gênios como Machado de Assis e Tom Jobim, Pelé e Garrincha, carrega em seu DNA a marca de mais de 300 anos de escravidão negra, tem uma das sociedades mais desiguais do mundo e sofre com a impotência de não ter solução para a brutalidade que assassina mulheres e crianças e transforma regiões do Rio e de Fortaleza em zonas de guerra.

Por mais que os processos históricos e de identidade de cada lugar apresentem versões para as origens e o desenvolvimento desses contrastes, é impossível não se indignar com os estragos colhidos nos rastros de passagem do bem e do mal. É como se houvesse um pacto de cumplicidade entre o sublime e o grotesco, entre a utopia e a realidade insuportável.

O homem que se orgulha de alcançar Marte por meio de robôs muitas vezes não consegue sair de casa com medo de assalto. Há muito tempo a humanidade se equilibra nos extremos: ou tudo é muito ruim ou tudo é muito bom; ou uma ação é sinônimo de sensibilidade, de um lado, ou é a tradução da intolerância, de outro.

Em meio a esses pensamentos, de repente alguém depara com um filme que oferece alguma interpretação para o dilema das manifestações de luz e de trevas na sociedade. O filme é "Kill Bill", de Quentin Tarantino. Em cena estão David Carradine e Uma Thurnan. Antes de um duelo de lutas marciais, os personagens conversam sobre histórias em quadrinhos e ele afirma que seu super-herói preferido é o Superman.

Carradine diz que o Superman já nasceu super-herói. Os concorrentes Batman e Homem-Aranha se disfarçam como pessoas comuns e precisam de uma roupa mágica para acionarem seus poderes. O Superman, ao contrário, acorda de manhã como super-herói e para se disfarçar incorpora um homem comum na figura do repórter Clark Kent. "Fraco, muito inseguro, covarde", descreve Carradine. Mais do que um disfarce, é assim que o Superman vê os humanos.

E se ele estiver com a razão, como explicar a capacidade humana de ser ao mesmo tempo sublime e grotesca? O trágico é que as coisas não mudam, como se cumprissem destinos. Recorrer à arte e à filosofia como forma de digerir essas aflições é uma tentativa de interpretar a realidade. Mas nada vai além disso. Não há nenhuma compensação para a fragilidade humana. Nem super-heróis.

Talvez o destino humano seja mesmo o sofrimento como castigo por crimes hediondos e inconfessáveis cometidos todos os dias por uma grande parte dos homens -- e permitidos pela outra parte.


Quase meia-noite, na padaria




Carlos Araujo
carlosaraujo@jornalcruzeiro.com.br
No interior, a padaria cumpre o papel do que seria uma praia no litoral. Ao menos como ponto de encontro. A desvantagem é que não há o sol, nem a areia, nem as ondas do mar. A vantagem fica por conta das delícias na forma de guloseimas, apesar do perigo da ingestão de calorias a mais. Ainda bem que as mulheres bonitas decoram o ambiente em todo lugar, seja na praia ou na padaria, e esse detalhe é uma inspiração para a poesia e um convite à vida. O que é diferente é a conversa: na praia os diálogos são soltos, enquanto na padaria assumem contornos de debate acalorado.

Veja os dois amigos que se cumprimentam próximo ao balcão de doces e salgados. Um deles se chama Ricardo e segura uma cesta de pão, queijo, coxinha, algumas frutas. O outro é Jorge, tem apenas a comanda na mão e está acompanhado de um amigo que se chama Paulo, que Ricardo não conhece. Feitas as apresentações, qual dos três tem novidade para contar? Quem se habilita é Jorge:

-- Vou voltar para Belo Horizonte -- ele diz.

Ricardo não se surpreende. Todos sabem que Jorge voltaria para a capital mineira a qualquer hora, após mais de trinta anos em Sorocaba. Agora ele está aposentado e pode curtir a vida plenamente, sem se preocupar com o estresse da profissão de advogado.

-- E você, o que anda fazendo? -- pergunta Jorge a Ricardo.

-- Escrevendo muito, como sempre -- responde Ricardo.

-- Ihhh!!! é escritor também -- lamenta Paulo, como se estivesse diante de dois sofredores, dois perdidos, dois renegados. Jorge, além da experiência nos tribunais, também escreve livros explorando temas que o encantam, como o futebol.

Ricardo, percebendo o tom de lamentação, elabora uma defesa:

-- Escrever, mais do que um prazer, é uma condenação. É como respirar, como cumprir um destino. Quem não tem talento para a bola ou os negócios, escreve. É como patinar no fim da linha. Não ganha dinheiro, mas se diverte com a imaginação.

-- Vocês se sentem felizes assim, não é? - sugere Paulo. - Então está ótimo.

-- Fazemos leituras do mundo - completa Ricardo. -- Nem sempre é a leitura correta, erramos muito, mas vale o risco.

Jorge pensa nos livros que terá que encaixotar na mudança para Belo Horizonte. Mais de trezentos volumes. Ricardo pensa nos livros que tem em casa e perde a conta. Paulo os vincula aos tempos modernos e chega a uma conclusão:

-- Vocês são baluartes de resistência: devoram livros impressos. Quem lê hoje recorre ao Kindle, à tela do smartphone. E muita gente não lê absolutamente nada.

Ricardo e Jorge aproveitam a deixa para falar das vantagens do livro impresso sobre as alternativas digitais.

Paulo confessa uma preocupação:

-- Como será o País com a geração que não lê nada?

Ricardo desconstrói o senso comum:

-- Ler não é garantia de virtude. Ler muitas vezes não melhora ninguém, mas piora, porque faz o sujeito perder a inocência. A história mostra vilões eruditos, criativos, sofisticados, e reserva a compensação com criaturas humildes, analfabetas, de grande dignidade. Hitler gostava de pintura e música clássica, e há moradores de rua que, mesmo sem terem nada, se ajudam uns aos outros nas noites geladas de inverno.

Paulo insiste na projeção de futuro:

-- Fico preocupado com os meus filhos. Que Brasil eles terão em dez, vinte, trinta anos? Sinto arrepios só de imaginar como será o futuro, o que seremos, se ainda seremos um país.

-- O Brasil será melhor do que é hoje se a democracia estiver garantida - intervém Jorge. -- O País não tem uma história de regimes democráticos que duram muito. Sempre há uma quebra com retrocesso e o sonho da democracia é interrompido.

Paulo insinua que não é bem assim. Jorge justifica:

-- A história do mundo dá exemplos de que só a democracia proporciona progresso e desenvolvimento. Vejam o Japão, a Alemanha, os EUA. Na Itália cai primeiro-ministro, sobe primeiro-ministro, mas o regime não muda. A Espanha e Portugal só começaram a se desenvolver de fato quando se livraram das ditaduras. A democracia é a janela aberta para o sol da liberdade.

Nesse instante, Ricardo se mantém em silêncio. Forjado nas desilusões de todas as utopias, nem mesmo o ideal democrático o convence de mais nada.

-- Não é mero acaso que democracia rima com utopia -- ele contradiz.

Agora se apressam nas despedidas. Hora de ir pra casa. É quase meia-noite e a padaria vai fechar. Amanhã tem mais.


Receita de fingimento




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br
Fingir que chove lá fora e eu não tenho nada a ver com isso porque não vou sair de casa nesta sexta-feira de julho. 
Fingir que a roda da história gira em torno do meu umbigo e tudo o que me interessa neste mundo é só o que me faz feliz.

Fingir que não existe dor nem amargura porque o meu conhecimento de mundo se limita ao privilégio de almejar o poder, ser ambicioso e dominar todos que cruzam o meu caminho.

Fingir que vivo num universo em que tudo está resolvido e não há nada mais a ser feito, complementado ou transformado.

Fingir que o dia e a noite foram feitos para mim, só para mim, e direcionar para o meu ego toda a luz possível, sem me importar se o universo ao meu redor vive no escuro.

Fingir que há paz, que as pessoas se amam, que o ódio vicejante das redes sociais é só uma ilusão de ótica, sem correspondência na vida real.

Fingir que as instituições funcionam, sem se importar com o fato de que muitos se decepcionam com elas, que tantos nem acreditam nelas.

Fingir que vivemos no país do futuro e que não nos escandalizamos com a estranha constatação de que o futuro nunca chega, como se jamais existisse.

Fingir que a mulher vestida de azul no semáforo deu bola pra mim só porque nossos olhares se cruzaram e ela sorriu, sem levar em conta a possibilidade de ela tão somente estar rindo da minha cara.

Fingir que temos algum poder nesse mundo dirigido por poderosos de todos os matizes e categorias.

Fingir que sou um sucesso porque tenho o privilégio de viajar ao exterior uma vez por ano e preencher todo o meu tempo com a renovação anual desta meta, como se a existência fosse um passeio e o meu destino se resumisse à condição de ser turista em tempo integral.

Fingir que estou em paz com os mandamentos divinos toda vez que, no conforto do meu carro com ar condicionado, dou uma moeda no semáforo para uma criatura que se apresenta com uma mensagem escrita em papelão: "Estou com forme. Pode ajudar?"

Fingir que os acontecimentos nos centros de poder não me atingem porque cumpro com os meus deveres de cidadão e não tenho pendências de nenhuma ordem.

Fingir que os tiroteios nas favelas não ameaçam a minha segurança porque ando em carro blindado e moro em condomínio de luxo e, portanto, tenho a certeza (perdoem a presunção) de que curto a tranquilidade da paz dos trópicos.

Fingir que não há buracos nas ruas, que não há filas nos hospitais, que não há escolas sem aulas e sem professores, que não há medo de sair à rua, que não há queda na renda familiar.

Fingir que as estatísticas negativas estão erradas e só ganham publicidade por causa de intrigas da oposição.

Fingir que eu ensino a lição de vida, que você aprende a viver e que mesmo assim está tudo certo.

Fingir que sou politicamente correto e que atingi o nirvana com todas as minhas certezas.

Fingir que os meus discursos indignados podem significar alguma coisa transformadora, sem jamais duvidar da minha capacidade de ter cometido mil erros nos espasmos da minha mente.

Fingir que vivemos no paraíso, que não há esgoto a céu aberto e que todas as crianças nascem com uma rede de proteção digna de aplauso.

Fingir que nenhuma mulher será assassinada hoje, que nenhuma criatura se meterá em corrupção, que nenhuma guerra abalará os alicerces da paz.

Fingir que a tecnologia pode resolver todos os problemas do homem e inaugurar uma nova espécie de felicidade, a felicidade tecnológica.

Fingir que não precisamos uns dos outros, que basta ter dinheiro e poder para alcançar o plano da perfeição e que tudo o mais é discurso perdido, ultrapassado.

Fingir e continuar fingindo, porque essa é a dinâmica das coisas nesse mundo, porque essa talvez seja a única válvula de escape da sociedade moderna.

Fingir, fingir, fingir, em perfeita sintonia com o grande e vasto fingimento coletivo deste mundo estilhaçado pela injustiça e a indiferença.


A cara da derrota




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br 


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

A cara da derrota pode ganhar a forma de um grande painel com símbolos que traduzem gestos, ruídos, substâncias do corpo. Após um gigantesco fracasso, a sensação de ter sofrido uma tragédia é cortante. O abatimento derruba o sujeito, as forças se acabam, o desânimo toma conta do corpo e da alma. Castigo e fim de festa. Tudo é sofrido demais nessa hora amarga.

As mãos se cruzam na cabeça, como num pedido de socorro. O olhar é baixo, fixo no chão. Sensações de vergonha, humilhação, desamparo. As emoções explodem em suor, lágrimas, respiração ofegante. Não há nada mais parecido com a condição humana revestida de fragilidade, finitude, solidão. Não há nada mais humano.

Os fatores que levam a essa situação dramática têm origem em várias frentes. Podem ser resultados da perda de alguém, de um amor não correspondido, de uma demissão inesperada, de prejuízos nos negócios, da saúde abalada, de um jogo de futebol na Copa do Mundo.

A eliminação do Brasil na Copa da Rússia foi um exemplo. A manchete do Cruzeiro do Sul deu o tom do sofrimento: "Sonho do hexa vira pesadelo." Na Folha de S.Paulo, lia-se: "Brasil perde nas quartas da Copa pela 3ª vez neste século." No Estado de S.Paulo, o Estadão, a proposta era fugir da fantasia: "O Brasil cai na real." Na televisão e na internet, a mesma visão se repetia.

E todo esse mundo é rico em imagens. Neymar com a mão no rosto, Marcelo parece se esconder levantando a camisa, Alisson de joelhos com a bola no fundo da rede. Neymar, Renato Augusto, Fernandinho e Willian se rendem à angústia, deitados no gramado.

Em todos os cantos do Brasil, nas salas e nos grandes espaços com telões, multidões de torcedores lançam olhares vagos e se abraçam como num esforço coletivo para não desmoronar. Nessa comunhão de sonhos pelo hexa adiado mais uma vez, a tristeza ganha dimensão épica.

O desafio agora é o que fazer para superar a derrota. Livros, palestrantes de autoajuda, terapeutas e psicólogos apresentam as mais diferentes dicas de superação, mas a verdade é que não há receita pronta capaz de resolver as variadas tentativas de exorcizar a eliminação de um sonho de torcedor.

O mais trágico é que a cara da derrota brasileira não se limita à Copa do Mundo, mas ao Brasil inteiro e real. Dessa forma, a cara da derrota está presente no jogo brutal da política, na economia de PIB quase zerado, nos homicídios em volume típico de guerra civil, na febre amarela e no sarampo, na desesperança, na incerteza de como será o amanhã.

Se há alguma coisa sensata a ser dita, a derrota não deve ser fator de paralisação ou desistência de um sonho ou projeto de vida. E o esporte está cheio de exemplos. Entre eles, a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950 foi um marco de terra arrasada, mas é bem possível que ela esteja na origem dos impulsos que levaram o Brasil a conquistar dois mundiais seguidos, em 1958 e 1962.

A marcha da história contribui com muitos episódios representativos dessa equação. Um dos casos mais notáveis é a biografia de Winston Churchill. Após um desastre militar no começo da carreira em Gallipoli, região da Turquia, Churchill parecia acabado. Apesar do trauma, ele desafiou a chamada "narrativa do passado" e ressurgiu no início da Segunda Guerra Mundial. Sua contribuição como líder britânico foi decisiva para mudar a história da luta contra o nazismo. A atuação de Churchill obrigou Adolf Hitler a sustentar duas frentes de combate, o que dividiu suas forças e o levou ao desastre.

Figuras históricas e acontecimentos dessa categoria fazem crer que não se deve julgar um indivíduo ou uma geração somente pela atualidade, sem levar em conta a capacidade de transformação para o futuro. Uma derrota pode ser sucedida por vitória. Não há vitória sem derrota antecedente.

Nada na natureza é condenada à inércia permanente. Tudo é movimento, imprevisibilidade, risco calculado. Assim são a história do mundo e a existência humana.

A derrota também é um problema filosófico e matéria de inspiração para toda forma de arte. Como exemplos, o romance "Vidas secas" (Graciliano Ramos) e a tela "Enterro na rede" (Cândido Portinari) são transposições da miséria brasileira para a arte.

E nem por isso a música deixa de cantar a beleza das praias e das mulheres deste país "abençoado por Deus e bonito por natureza". Há luz nas trevas, mesmo que ela só possa ser curtida em forma de música e poesia.


O som e a fúria do rock




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br 


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

Hoje, Dia Mundial do Rock, Sexta-Feira 13. Será que a coincidência tem a ver com superstição ou deve ser vista como mero acidente de calendário? Para quem não acredita em nada, nem em forças ocultas, tanto faz. 
Na sexta-feira consagrada ao mau agouro, o que importa mesmo -- todos os dias -- é o rock e toda a sua pulsação de som e fúria, rebeldia e provocação, identidade e estética do caos, paz e amor em tempos de desencontro, indiferença, intolerância.

Quem curte o rock desde a infância habitualmente começou a ouvir esse tipo de música até antes de saber em que categoria se classificava esse som arrebatador, energizante, demolidor dos sentidos.

Para quem não viveu os áureos tempos do rock, houve um mercado promissor com artistas que se tornaram ícones, bandas clássicas que faziam shows inesquecíveis e vendiam milhões de discos disputados pelos fãs em todo o mundo. Movidos pelo ritmo alucinante que marcou a história da música, eles chacoalhavam as cabeças e protestavam como rebeldes sem causa.

Havia uma Galeria do Rock que reunia os jovens mais pirados. Fãs dos Stones e do The Who colecionavam discos com o carinho de quem guarda preciosidades. Nas apresentações ao vivo, a sintonia entre bandas e público compunha uma multidão de almas eletrizadas pela crença de que podiam fazer revoluções com os sons de guitarras, baterias, baixos elétricos.

E com efeito, eterno e pulsante, o rock é revolucionário por natureza. Entre outros aspectos, distingue-se por ser uma proposta de paz. Enquanto os governos fazem guerras na Europa, nas Américas, na Ásia, na África, no Oriente Médio, criaturas de jeans e camisetas pretas pegam seus instrumentos e fazem rock da melhor qualidade. Cantam obras-primas como "Satisfaction" (Stones) e "The dark side of the moon" (Pink Floyd). A única agressividade, que os fãs adoram e os críticos odeiam, é a intensidade do som que faz o chão tremer.

Muitos álbuns são venerados como obras de arte. Cada roqueiro tem a sua lista de preferências, mas é certo que entre todas elas figurem álbuns como "Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band" (Beatles), "Nevermind" (Nirvana), "Are you experienced" (Jimi Hendrix), "Highway 61 revisited" (Bob Dylan).

Álbuns irresistíveis. Melodias e letras complexas, peças arrepiantes de inovação, espécies de óperas populares que nos bons tempos incendiavam os palcos e enlouqueciam a juventude, verdadeiros símbolos do talento e da capacidade humana de transformar em som e poesia toda a perdição possível. Não é por acaso que um dos ícones do rock, Bob Dylan, ganhou o Nobel de Literatura.

Para muito além da música, o rock bebe e arrota poesia e performance, influencia a cultura e o comportamento, dita rumos e subverte os estilos de ser e de viver. Não importa que o ponto alto do rock tenha ocorrido entre os anos 50 e 90 do século passado. O que conta é que os fãs têm o rock como identidade. Passam-se os anos e eles prosseguem com sagas de adorações a Led Zeppelin, Black Sabbath, Kiss, Yes, Genesis, Joy Division, Sex Pistols, Ramones, The Velvet Underground e companhia.

Contra a mesmice, os artistas se reinventaram e criaram a sofisticação do rock progressivo de Rick Wakeman, o peso do metal de Iron Maiden, a fúria apocalíptica e alucinada do punk de The Clash. Quando parecia que não havia mais o que inventar, surgiu o grunge liderado pelo Nirvana e o mito Kurt Cobain. E o rock ganhou novas gerações de jovens fãs.

O rock falou de tristezas e traduziu a angústia moderna em melodias depressivas e na biografia de ídolos como os que morreram na faixa dos 27 anos: o próprio Cobain, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bryan Jones, Jim Morrison, Amy Winehouse. A tragédia está sempre à espreita e prestes a devorar os deuses da música.

O Brasil não ficou imune. As décadas de 70 e 80 foram férteis. De Raul Seixas e Rita Lee, Titãs, Paralamas, Zero, Os Inocentes, O Terço, Ratos de Porão, Pitty, todos formaram uma onda vibrante e criativa do rock nacional. E a onda criou o Madame Satã, uma espécie de templo do rock.

Contrariando as aparências, os roqueiros também amam. Na canção "Agora eu sei", Zero deixou registrada toda a dor do amor não correspondido: "Mal sabe ele como é triste ter / Amor demais e nada receber / Que possa compensar o que isso traz de dor."

Que o diga a canção "Still loving you" (Scorpions) quando o cara diz à mulher amada que é preciso tempo "para reconquistar seu amor novamente". Os roqueiros se emocionam, têm corações apaixonados, exorcizam a dor ao som de guitarras e baterias. E com muita energia, mas sem nenhum controle.