OUTRO OLHAR


Copa da vitória e da derrota




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

Vitória e derrota são os extremos de maior impacto na Copa do Mundo da Rússia. Vibrações em alta voltagem. A vitória se traduz em gritos de alegria, enquanto a derrota se manifesta no silêncio da dor. Multidões buscam o prazer do triunfo e fogem da tristeza provocada pelo fracasso. É como se os dois fenômenos opostos disputassem um campeonato à parte.

No final, a disputa termina com uma única seleção campeã. E fica pelo caminho uma legião de perdedores. Pode parecer contradição, mas a derrota é superior à vitória em vários aspectos. E o principal deles abrange o grande e vasto número de inscritos pela natureza das competições como destinados a fazer parte da categoria dos mais fracos e abatidos.

Indecifrável e estranho é o mundo. Imprevisíveis e contraditórias são as criaturas. Em choque com os discursos humanistas, solidários, fraternos, ninguém gosta de derrotados. Nem os próprios perdedores se suportam. Reagem em busca de superação. Focam em milagres que possam levá-los ao poder e à glória. Ninguém, em sã consciência, aceita a queda como destino e vocação.

Mas as duas vertentes se impõem, cada uma à sua maneira. Vitória é sonho, felicidade, fantasia marcada por símbolos de superioridade. Derrota é destino, realidade, ferida aberta e jamais cicatrizada. A primeira é seletiva, privilégio de poucos, armadura de nobres e poderosos. A segunda é abrangente, condenação de multidões, irmã da perdição e da travessia no deserto. Uma explode em festa e comemoração com abraços, sorrisos, champanhe; a outra se recolhe em humilhação, lágrimas, clima de velório.

O vitorioso é admirado, exibido como exemplo a seguir e imitar, entra para a memória humana e tende a jamais ser esquecido. O fracassado, por sua vez, não é símbolo para nada, raramente é lembrado e habitualmente cai no esquecimento, no abandono, no desamparo, só sendo reconhecido pelo cão vira-lata quando por alguma sorte inútil o encontra caído na sarjeta.

E os dois grupos são diferentes também na forma, no conteúdo, na embalagem. Conflitantes na ideologia, na identidade cultural, na história, assumem posições inimigas, irreconciliáveis, intocáveis. Odeiam-se. Desprezam-se. Impossível se amarem. Não possuem nada em comum, a não ser a implacável sentença da finitude da qual ninguém escapa.

Os vencedores são destinados ao mando, pois desenvolvem a capacidade de governar e preservar interesses. Aos vencidos, coitados, cabe o papel da submissão e da ideia de que a fragilidade é uma condição natural do ser.

Os que mandam têm comportamentos estranhos. Nos EUA, aprisionam filhos de imigrantes ilegais, o que ganha contornos de calamidade humanitária. O Brasil dá sua contribuição matando suas crianças com balas pedidas em violentas operações de forças de segurança justificadas como ações de combate à violência. Nos dois casos, os vencedores compartilham a cartilha do instinto selvagem. Os vencidos choram e enterram seus mortos em covas de sete palmos cobertas de montes de terra.

A publicidade busca quem vence, porque criaturas dessa categoria são ícones para negócios e para o giro do dinheiro. Ao contrário, quem se arrasta no chão ainda encontra um lugar, um lugar na sensibilidade da arte, um espaço no campo minado da literatura, um mirante no indescritível território de indagações da filosofia.

Nessas seara (que são reflexos da sociedade), todas as possibilidades abrem espaços para o fortes e os fracos, representantes de uma e outra classe de criaturas. Se Shakespeare explorou os poderosos na sua arte de decifrar a humanidade, Dostoiévski (um escritor russo) desconcertou a indiferença do mundo com os dramas dos "humilhados e ofendidos". Nos dois extremos, tudo é humano, tudo é mistério.

Se há redenção? piedade? trégua? Não, não há. Por isso é que as válvulas de escape são acionadas com tanta sofreguidão. Válvulas de escape como carnaval, novela da Globo, futebol. Fantasias, crer em magia, consultar o horóscopo. Tudo isso é necessário para encarar a loucura do cotidiano estilhaçado pelas perversões entre violência e derrota. A vitória é festejada com música; a derrota é um silêncio sepulcral.

Essa é a Copa do Mundo que não está só nos estádios da Rússia: ela avança, penetra e se agita no corpo e na alma de cada torcedor pelo mundo a fora.


A bola caprichosa




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br 


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

Começo a rolar com o apito do juiz, a partir do centro do campo, e me desloco no gramado. Todos os olhares focam em mim. Todas as expectativas, todas as projeções, todos os planos, dependem agora de minhas evoluções. Ninguém sairá impune dessa grande arena de espetáculo. E eu sou o centro das atenções.

Miram um certo craque, miram outro craque, mas se esquecem de que eles só estão nesse nível porque sabem lidar comigo com habilidade. Enquanto os jogadores são os coadjuvantes, eu sou a protagonista. Marco presença em todos os lances, todas as faltas, todos os cartões, todos os pênaltis, todos os gols.

Messi, Neymar, CR-7 e companhia levam a fama como astros, mas precisam de mim para serem geniais. É como se eu fosse uma escada: sem os meus degraus, não chegariam a lugar nenhum. A sintonia que existe entre o jogador e a bola mostra que um não sobrevive sem o outro, um é o significado do outro, um pode ser relegado ao abandono se o outro desistir do jogo. Agora, não é possível retroceder.

Minha forma redonda facilita o deslocamento. Sou lançada em passos curtos, toques à meia distância e passes longos, que atravessam o campo de um ponto a outro. Vou sempre na direção do gol. Os jogadores têm a ilusão de que me dominam, mas não sabem nada.

De repente, não entendem porque um chute bem colocado não me introduz no ângulo superior direito do travessão. Nesses casos, eu demonstro que tenho vontade própria. Negocio a intervenção do vento na minha trajetória e faço uma curva que me leva para fora da trave.

Com as mãos na cabeça, em atitude de desespero, as pessoas não acreditam que eu não possa ter ido ao fundo da rede com o chute do craque. Acho que eu sou caprichosa ao ponto de às vezes me negar um traçado imposto pelos pés de alguém. "A bola não quer entrar", dizem, como justificativa para a incompetência. Pelo menos me poupam quando querem lamentar os prejuízos de um lance perdido. Criticam o erro do técnico, a desatenção dos jogadores, mas nunca me culpam pelos desastres em campo.

Também não me cumprimentam pelas vitórias. Nessas horas, acham que são capazes de qualquer coisa sem mim. Esquecem que as regras do futebol levam em conta a minha presença como peça central de todo esse cenário que faz os torcedores vibrarem de alegria e chorarem de tristeza ao mesmo tempo.

Para uns, eu sou o símbolo da felicidade. Para outros, eu sou o limite da dor.

Faço parte das duas situações. Os jogadores me beijam na hora de baterem um pênalti, como se eu fosse retribuir o carinho cumprindo a direção que impulsionam na força dos pés. Os jogadores me abraçam, como se com isso me pedissem ajuda para alcançar a vitória. E eu sempre respondo com o silêncio.

Os jogadores também me chutam de raiva. É a hora em que estão entregues à tristeza muito própria da derrota. Dão uma bicuda em mim e eu voo para a arquibancada. Não querem saber de diálogo comigo. A agressão elimina toda forma de paz, negociação, diplomacia. Por isso, uma forma de reagir aos turbilhões da existência é a fuga para o desconhecido.

E eu não me limito ao campo de futebol. Minha forma redonda está no imaginário das pessoas em departamentos tão variados como o tempo, a astronomia, a arquitetura, a culinária, até mesmo no mercado financeiro. Meu desenho global se reproduz nos modelos de relógios, nos planetas do universo, na cúpula de monumentos, nas panelas das donas de casa, nas moedas.

Minha forma também se manifesta de todos os tamanhos: do átomo, a menor partícula da matéria, ao sol incandescente; do relógio de pulso à cama de dormir; do girassol à roda gigante; das rodas dos carros à melhor maneira de a cerveja descer pela garganta em dia de sol e calor.

Mas é no campo de futebol que eu sou mais eu. Deixo todo mundo tenso, em pânico, porque o destino do jogo está no jeito como eu me comporto em cada lance.

Rebelde, eu nem sempre sigo a vontade dos outros materializada nos pés que me chutam de um canto a outro. Sei que por força da minha capacidade de atração eu sou o coração de um mercado que movimenta milhões.

Mas eu não dou bola para isso, isso é coisa de prisioneiros do sistema financeiro e eu sou a liberdade em sua plena idealização. Consciente do meu papel, eu continuo a rolar no gramado e a provocar emoções, espanto, surpresas, zebras monumentais.

Eu sou a bola da vez.


Prisioneiros de Clarice




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO


Clarice Lispector é uma escritora brasileira, uma autora que só se revela por inteiro a quem se apaixona por ela, uma criadora de universos que se chocam. Ela nos aprisiona num campo minado de sedução, mistério, estranhamento. E quem se deixa prender descobre que ela é interrogação permanente, companhia na solidão do cotidiano, espécie de guia numa viagem ao desconhecido.

A escritora apaixonante ainda evoca essas impressões 43 anos passados desde que li pela primeira vez o seu romance mais perturbador, "A paixão segundo G.H". Este é justamente o livro mais enigmático, indescritível, desconcertante, dessa escritora que morreu em 1977 no auge da maturidade.

Desde dezembro do ano passado, por ocasião dos 40 anos da sua morte, tenho revisitado os romances, contos e crônicas de Clarice. E a experiência é como o retorno a uma batalha nunca vencida e da qual não se consegue sair sem "ferimentos".

Ler de novo "A paixão segundo G.H." significa renovar a primeira impressão causada pela obra. Perguntas brotam, escapam: o que é isso? o que o texto quer dizer? por que ela escreve desse jeito? As indagações ficam no ar. Não há respostas.

O romance se arrasta como em ondas, como um fluxo de consciência, como uma confissão. Comparações são saídas possíveis porque nenhuma tese explica nada. O livro oculta um sentido da existência e é por isso que não envelhece após quatro décadas da primeira leitura.

A história (é uma história?) apresenta uma mulher num apartamento em busca de coisas intocáveis. Ela entra no quarto da empregada, que foi embora, e seu propósito é arrumar um ambiente que imagina estar bagunçado. Para sua surpresa, o quarto está limpo, em ordem, e o problema é que ela se depara com uma barata. Fala do inseto como se ele tivesse dimensões humanas e a partir de então trava-se um combate filosófico entre as duas criaturas vivas no interior do quarto, ela e a barata.

A obra também é uma experiência de linguagem. Faz suspeitar da influência francesa do "nouveau roman". Nada que comprometa a originalidade. As frases traduzem o embate feroz entre a mulher e a barata, e abarcam o mundo.

"Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo", diz G.H. "Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho."

À medida em que a leitura avança, surpreende a impressão de que uma voz silenciosa (perdoem a figura de linguagem) marca o ritmo de cada frase, de cada palavra, de cada pausa. Seria a voz de G.H. ou de Clarice? Ou elas são uma única criatura?

É possível conhecer Clarice e ouvir sua voz numa das últimas entrevistas. A gravação pode ser acessada no YouTube. Para quem desejar ir além do vídeo, a dica é a biografia "Clarice,", de Benjamin Moser.

Porém, nada como os romances, os contos e as crônicas para entrar na atmosfera dessa autora única. A escritora Edla van Steen a classificou como o maior nome da literatura brasileira, até mesmo acima de Machado de Assis, segundo descrição reproduzida por Ignacio de Loyola Brandão em uma de suas crônicas.

"Uma galinha", um dos contos magistrais de Clarice, é um clássico da história curta. Não é exagero afirmar que, se fosse autora de língua inglesa, estaria na mesma galeria de prestígio de Virginia Woolf e Katherine Mansfield.

Nada em Clarice é óbvio: nem a forma, nem o conteúdo, nem a linguagem. Imagine uma estrada coberta de nevoeiro. Você reduz a velocidade e acende o farol baixo. A visibilidade diminui a cada momento. O nevoeiro se concentra, cada vez mais compacto, como um inimigo que ameaça a sua segurança. Não há como parar, não há acostamento. Dos dois lados da estrada se estende o precipício. Pressionado pelo pânico, o jeito é avançar, temendo pela próxima curva.

Aventura humana. Risco máximo. Adrenalina à flor da pele.

Assim é ler Clarice e aceitar a condição de prisioneiro das suas perturbações, que compõem a radiografia da alma humana em tempos de perdição.


Síndrome de Mad Max




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br
Impossível dizer em que ponto começava a fila para o abastecimento de gasolina e etanol. O homem de camiseta verde, que dirigia um Fusca amarelo, estava em meio à confusão de carros e perdeu mais de uma hora até perceber que deveria entrar numa fila para acessar a fila propriamente dita. Calculou, entre aflito e desanimado, que a espera seria de mais quatro horas. Como o tanque já estava na reserva, o jeito foi respirar fundo e ligar o botão da paciência.

O motorista do carro da frente, um Ford amarelo, era um cara de óculos e tinha uma dose de paciência em menor quantidade. Estava nervoso. Achava absurda uma situação como essa e sua indignação era estampada no rosto marcado pelas rugas. Em 70 anos de vida jamais tinha visto uma coisa dessa. Um desrespeito, resmungava, voltando suas baterias críticas contra o governo.

O carro atrás do Fusca verde era o de uma estudante que acabava de sair da faculdade e, antes de voltar para casa, resolvera correr o risco de entrar na fila. O tanque do seu Fox azul estava baixo e ela não queria ficar a pé ou ter que usar o ônibus para cumprir suas agendas do dia seguinte. E o transporte público também estava prejudicado, com poucas linhas em operação. Tudo isso é um horror, pensava a estudante. Sentia-se presa, refém do caos, sequestrada pelo descontrole universal das ruas, das estradas, das cidades.

Muito atrás, um motoboy estava estressado só de imaginar que podia não conseguir abastecer a sua moto branca. Se isso acontecesse, ficaria um dia sem trabalho, um enorme prejuízo. Pagava a prestação da moto e não sobrava quase nada do faturamento mensal. Um dia parado prejudicaria a programação do mês inteiro. Mas vamos ser otimistas, pensou, acreditando no milagre de abastecer a moto e garantir trabalho no dia seguinte.

Em outro ponto da fila, duas jornalistas ocupavam uma Saveiro com estampas em estrelas nas portas e no capô. Pareciam muito amigas. Estavam animadas, apesar da situação difícil para todo mundo. Riam. Destoavam das caras tristes das outras pessoas. Recordavam uma festa no fim de semana. Deviam estar se divertindo bastante porque chegaram às gargalhadas.

Outro motorista, no volante de um Golf preto, viu as duas jornalistas quando ia passando e pensou que nesse mundo tem louco pra tudo. Onde já se viu, ele julgou, quem vê essas mulheres de longe pensa que elas estão rindo de nada e isso só deve ser coisa de maluco.

O motorista do Golf estava numa fila dupla, paralela à fila que dava volta no quarteirão para levar os motoristas às bombas de combustíveis, e só então percebeu que seguia um comboio em direção à última vaga na fila principal. Era a fila para entrar na fila. Não acredito, pensou. Acredite, falou a sua consciência. E agora, fazer o quê? Na primeira oportunidade virou à esquerda e fugiu da muvuca. Tinha ainda quase meio tanque de gasolina, quem sabe ainda tivesse autonomia para dois dias.

O cara do Golf preto pensou em "Mad Max", em "Walking dead", em mundos apocalípticos. A terra está devastada e agora as pessoas disputam combustíveis a tapa, comparou. Não demoraria muito e haveria brigas. Acabava de receber vídeos no celular que mostravam gente quebrando postos de combustíveis, jogando pedra na polícia, arrebentando carros a pauladas nas ruas.

Se a gente pudesse prever isso um mês antes, diria que era impossível, que era obra de ficção, pensou o cara do Golf. Era como se a realidade fosse irreal. Como assim?, ele se perguntava, perplexo. Vale perguntar que tipo de nação somos e que direção tomar, acrescentou, citando a frase dita por Bobby Kennedy há 50 anos, dois meses antes de ser assassinado. O Brasil não é os EUA, mas a pergunta cabia como uma luva.

O momento mais difícil foi quando o frentista de macacão vermelho teve que informar ao homem do Fusca, à estudante, ao motoboy, às duas jornalistas, ao sujeito do Golf, ao povo todo na fila, que os combustíveis haviam acabado e as bombas estavam secas.

O frentista tremeu nessa hora. Temendo a revolta dos motoristas que aguardavam há horas na fila, encolheu os ombros, franziu a testa, fechou os olhos. Não tinha mais o que fazer. E preparou-se para correr caso quisessem descontar na sua pele a indignação do país inteiro.


Quase noite




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO


Não era dia, não era noite. Era aquele instante em que a claridade e a escuridão parecem negociar um deslocamento.

No horizonte, o sol se escondeu mas ainda projeta luz no céu, num contraste com zonas cor de chumbo que avançam e refletem sombras nos blocos de nuvens.

Todo fim de tarde esse milagre da natureza se repete. As alterações ficam por conta do clima. Em dias de céu nublado, a tarde se deixa envolver mais rapidamente pelo escuro inevitável. Nos últimos dias, o contraste de luzes tem prevalecido. Evidência de que a mesmice pode ser uma beleza mágica.

Uma mente aberta a todas as possibilidades diria que a composição dessa hora parece obra de um artista cósmico. A substituição da tarde pela noite é como uma das duas esquinas do dia. O outro momento em que o fenômeno acontece, totalmente oposto, é quando a madrugada se esvai diante do nevoeiro da manhã.

O que diferencia os dois momentos é a matéria de composição. Pela manhã habitualmente as pessoas estão desprevenidas, sem o vício da continuidade, quebrada pelas horas de sono. Já quando a noite chega, tudo é previsível, nada surpreende. Ou não.

Nessa hora, muita gente sai do trabalho e volta para casa de ônibus, de metrô, de bicicleta, a pé, de carroça, até mesmo de avião. Há uma previsibilidade de retorno a um abrigo, de conclusão de mais um dia vivido. As sensações se desarmam, baixam a guarda, como se houvesse uma combinação voltada para o recolhimento, uma sintonia entre o compasso humano e o ritmo natural das coisas.

A marca dessa hora é a de movimento. Hora do "rush", como dizem. Pontos de ônibus cheios, plataformas de estações lotadas, ruas congestionadas. Jogo de paciência e ansiedade. Atenções voltadas para mil coisas diferentes: para uma vitrine, um trecho de rio, uma cara que se parece com alguém conhecido.

Há um jovem que vai, na contramão de um adulto que vem, uma criança parada, alguém que calcula o primeiro passo. A passagem do tempo é a única medida unificadora dessas criaturas. Elas vão a destinos diferentes, impulsionadas por razões distintas, mas se movem dentro das mesmas camadas de segundos e minutos. Nos perfis são desiguais, nos sonhos e desejos são contrastantes, mas são parecidas nas relações com o tempo.

E se organizam como num pacto de adaptação coletiva ao ambiente. Embora tipificadas pelo individualismo, compartilham as calçadas, as escadas, os vagões, as rampas de acesso. Demonstram capacidade de viver em grupos. Há dúvida se agem assim por vocação ou necessidade de sobrevivência. Ou as duas coisas. Ninguém pode se considerar único ou independente num mundo em que até o dia precisa da noite para ter algum sentido.

A beleza também está na multiplicidade de sensações. Muita gente percebe e sente essa hora em que o dia se vai e a noite chega. Há quem não perceba essa virada. Há quem curta esse ponto da passagem do tempo com a sensibilidade da alma que degusta poesia. Há quem não sinta nada, o que é menos que indiferença.

Há quem use essa hora para ouvir música, para tomar uma taça de vinho ou para ver televisão. Certamente há indivíduos que, no setor de desembarque dos aeroportos, aguardam com corações apertados pessoas especiais que chegam nos voos das seis. As emoções pulsam, indiferentes ao mecanismo físico da natureza que inventou essa hora em que o sol se despede e a noite marca presença.

E os desdobramentos não se sucedem apenas no plano da normalidade. A virada do tempo não é algo desprovido de riscos. Existem os temores, as armadilhas, os perigos nos caminhos percorridos. Assaltos, tiroteios, chacinas fazem parte da rotina num mundo que insiste em ser assustador.

Muitos, absorvidos por ilusões de proteção, evitam sair de casa. Esquecem que ladrões e assassinos pulam muros, arrombam portões, rompem falsas blindagens, usam máscaras de ocultação das vilanias, até mesmo falam na televisão.

Há onze anos, no silêncio de uma hora como essa, um desastre de avião chocou o país. Tragédias, que independem da harmonia da natureza, também acontecem e são devastadoras.

A poesia dessa hora leva ao encantamento da alma, mas não consegue barrar notícias ruins. Bombas podem ser acionadas por inimigos ocultos. O desafio é saber se livrar das explosões nesse momento em que os mistérios da existência se dissolvem na moldura de uma quase noite.