OUTRO OLHAR

Tenebrosa jornada de agosto


Carlos Araújo

A pobreza da rima no dito de que agosto é o mês do desgosto poderia ser o primeiro registro de mau agouro para o oitavo mês do calendário. Nenhum dos 12 meses do ano resistiria a uma cacofonia tão desagradável. Nenhuma poesia com um verso desse nível poderia valer a pena. Agosto tinha mesmo que se destacar como reflexo dos mitos criados pela mente humana.

Acontecimentos que mudaram a história do Brasil e do mundo completam aniversários neste mês. Das bombas de Hiroshima e Nagasaki ao suicídio de Getúlio Vargas, da morte de Marilyn Monroe ao desastre automobilístico que matou Juscelino Kubitscheck, da queda de Richard Nixon à renúncia de Jânio Quadros, muita coisa trágica contribuiu para fazer do mês do cachorro louco o mais agourento do ano.

Diz a história que o nome do mês tem origem em homenagem dos romanos ao imperador Augusto. Pesquisadores também contam que as mulheres portuguesas não se casavam nessa época. Era o tempo em que os navios portugueses se aventuravam no mar em busca de novos territórios. Casamentos nesse período podiam ser marcados por separações que levariam os indivíduos à solidão.

O escritor mineiro Rubem Fonseca, inspirado na luta pelo poder que marcou o suicídio de Getúlio Vargas, usou o nome do mês para dar o título a um dos seus melhores romances. Seguindo a mesma trilha, muito antes o norte-americano William Faulkner havia escrito Luz em agosto, uma história de luta pela sobrevivência no sul dos EUA na década de 1930. No cinema, Rapsódia em agosto, um grito de indignação contra a bomba atômica, é um dos clássicos do japonês Akira Kurosawa.

Por definição, agosto é um mês de múltiplas faces refletidas na história, no cinema, no folclore, na tradição dos contos fantásticos sobre pântanos e noites geladas, escuras, sacudidas por ventos cortantes. Mas são os acontecimentos históricos que dão forma e conteúdo aos mitos desse período deste mês carregado de impressões.

Nos registros de guerras, três grandes batalhas foram deflagradas em agosto: a de Gadalcanal em 1942, no Pacífico, das Termópilias, 480 a.C., e a de Crécy, na França, em 1346. Na primeira batalha, uma das mais importantes da Segunda Guerra Mundial, morreram 30 mil pessoas: 24 mil japoneses e 6 mil aliados.

Em Termópilas, 300 guerreiros espartanos se entregaram a uma resistência suicida contra o imenso exército persa, episódio que inspirou um filme de Zack Syder com participação do brasileiro Rodrigo Santoro. Um dos episódios da Guerra dos Cem Anos, a Batalha de Crécy, foi travada em 26 de agosto de 1346 com a vitória dos ingleses, liderados por Eduardo III, sobre os franceses, comandados por Felipe VI.

A construção do Muro de Berlim, que ficou conhecido como o Muro da Vergonha e foi símbolo da Guerra Fria, começou no dia 13 de agosto de 1961. Por falar em Guerra Fria, no dia 20 de agosto de 1968 tropas soviéticas (referência à antiga União Soviética) invadiram a Tchecoslováquiaa, numa das grandes demonstrações de força de uma ditadura sobre a vontade popular.

Elvis Presley morreu em 16 de agosto de 1977. Cleópatra se suicidou em 29 de agosto de 30 a.C.. Rodolfo Valentino, o astro mais idolatrado na década de 1920, morreu num dia de agosto aos 31 anos. Gêngis Khan, o fundador do Império Mongol, morreu em 18 de agosto de 1227.

E no dia 21 de agosto de 1934, Adolf Hitler assumiu a presidência do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemão (NSDAP na sigla germânica) e se audodefiniu Führer (principal chefe), iniciando sua escalada rumo a uma das maiores catástrofes humanas de todos os tempos. Em outro desastre, a cidade de Pompeia foi totalmente sepultada por uma erupção do Vesúvio no dia 24 de agosto do ano de 79.

Para completar esse quadro, uma nova batalha está sendo travada na capital do Brasil. Brasília dispensa as armas de fogo. Brigam os homens, brigam outras armas. Artilharias são substituídas por tropas que ignoram os limites da vergonha. A munição é constituída de muito dinheiro, cargos, vantagens. Como numa guerra pós-moderna, os corruptos (no papel de combatentes) se articulam em movimentos de proteção mútua. Corações pulsam num balcão de negócios de venda de consciências e compra de almas mortas. É mais uma tenebrosa jornada de agosto neste País tropical.