OUTRO OLHAR

No rastro das veredas encantadas




 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO

 
Carlos Araújo
 
Se Machado de Assis revolucionou a narrativa com "Memórias póstumas de Brás Cubas", João Guimarães Rosa revolucionou o romance com "Grande sertão: veredas". Feitas as contas, os dois gênios da literatura brasileira articularam a proeza de recriarem a arte de contar histórias.
 
Esta é uma das reflexões inspiradas nos 50 anos da morte de Guimarães Rosa, completados no último domingo. Impossível não pensar em Machado (o bruxo do Cosme Velho) quando o alvo da atenção é o escritor mineiro nascido em Cordisburgo. Descontadas as muitas diferenças, eles criaram obras originais que podem ser equiparadas às grandes literaturas de outras línguas do planeta.
 
Alguém disse um dia que o estilo é o homem. Certa vez, num vestibular de uma universidade, lá estava o trecho de um texto e a pergunta pedia a identificação do autor e da obra. Quem era familiarizado com os livros de Rosa não teve dificuldade em acertar a resposta. Ninguém escreve como Rosa. Ele é capaz de se revelar numa única frase ou palavra. O texto em questão era extraído do conto "A hora e a vez de Augusto Matraga", uma das obras-primas no universo das criações do autor.
 
Rosa é múltiplo. Une linguagem ao jeito de contar histórias dos avós sertanejos. Sabe atrair uma audiência cativa. Inventor de palavras, mestre da linguagem, reelaborou a voz sertaneja para introduzi-la no sofisticado panteão das obras de arte. Muitos acham que, com o "Grande sertão: veredas", escreveu o romance total, capaz de abarcar as mais abrangentes e diversificadas nuances da alma humana.
 
Há razão nisso. Na sua principal obra, Rosa é abrangente ao ponto de exorcizar as dualidades do ser: medo e coragem, amor e ódio, carinho e crueldade, Deus e o Diabo, poder e fragilidade, realidade e fantasia, clareza e mistério, loucura e lucidez, vida e morte.
 
Com dimensão épica, o romance desvenda a alma brasileira no cenário árido de um sertão sem fronteiras. "O sertão está em toda parte", diz Riobaldo, o narrador-personagem que fala para alguém não identificado que poderia ser o leitor ou qualquer pessoa disposta a ouvi-lo.
 
Se "Cem anos de solidão" (Gabriel Garcia Márquez) reflete uma América Latina em constante mutação, "Grande sertão: veredas" é o retrato do Brasil. Um Brasil perdido em redemoinhos, para citar uma expressão de destaque criada por Rosa: "O diabo na rua, no meio do redemoinho..."
 
O romance de Rosa é uma síntese do Brasil e isso não é privilégio somente nosso. Outros países também têm obras literárias que se tornaram pilares em suas culturas. Para citar três exemplos (entre tantos outros), o fenômeno se repete em "Almas mortas" (Nicolau Gogol), que traça um painel da Rússia; "O som e a fúria" (William Faulkner) faz uma interpretação estética dos EUA; "A vida breve" (Juan Carlos Onetti) é uma radiografia do Uruguai.
 
Certamente, nos casos de estrangeiros que mergulham na alma brasileira, o romance de Rosa funciona como bom suporte para uma introdução. Uma obra dessa qualidade tem o poder de fazer muito mais pelo país do que projetos oficiais de divulgação da cultura brasileira no exterior.
 
Toda a obra de Rosa é uma resposta definitiva para quem pergunta o que é e para que serve a literatura. O escritor mineiro mostra o quanto a ficção pode ser superior aos estudos científicos elaborados com a presunção de decifrar a realidade das coisas. E derruba o mito de que uma imagem vale por mil palavras: nenhuma página das veredas criadas por Rosa pode ser traduzida em imagens sem perder a riqueza das sensações proporcionadas pelo processo combinado de leitura, imaginação e linguagem.
 
Abrir as páginas dos livros de Rosa é somo entrar num universo simultaneamente encantado, ameaçador, perigoso. O suspense está sempre à espreita. Qualquer semelhança com a atualidade não é coincidência. Ao recriar o sertão de uma época não especificada, Rosa se conecta ao nosso tempo.
 
Riobaldo somos todos nós, com nossos delírios de paz respondidos com a brutalidade cotidiana das cidades, da política, das ameaças de todo tipo. Os jagunços, os vilões, os criminosos descritos por Riobaldo encontram protótipos na sociedade brasileira, do Planalto Central às caatingas do Nordeste, da Amazônia aos pampas do sul.
 
Três dias antes de morrer, em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), Rosa disse: "As pessoas não morrem, ficam encantadas." Nessa forma de encarar o fim encontrou uma saída para driblar o inevitável.
 
Se vivo fosse (perdoem a licença poética), talvez Rosa pudesse decifrar o que acontece hoje com o Brasil e todo o caos que atordoa os brasileiros.
 
"O senhor tolere, isto é o sertão", Rosa teria dito, repetindo uma das mais marcantes declarações de Riobaldo logo na abertura do seu magnífico romance.