LETRA VIVA

Carta ao vendedor da loja de roupas


Nelson Fonseca Neto

Prezado vendedor da loja de roupas,
Quero deixar bem claro: seu emprego é honesto, e nada tenho contra ele. Você vai ler algo rabugento, e não quero que você me interprete mal. Nada tenho contra a sua profissão. Sou o primeiro a reconhecer: tenho ficado mais implicante com o passar dos anos. Já fui um sujeito mais brando. Por muitos anos, aceitei gostosamente as chatices desta vida. Por incrível que possa parecer, eu encarava um congestionamento, desses que abundam no período natalino, numa boa. Eu também me virava bem nas filas. Quando alguém puxava conversa, ainda que fosse uma conversa meio besta, eu respondia com cordialidade. E não era forçado. Talvez você não saiba: sempre ando por aí carregando livros. Perdi a conta de quantas vezes, no elevador, tive que falar a respeito do livro que eu estava lendo. E não era forçado. Eu achava que fazia parte da vida civilizada.

Feliz ou infelizmente, tudo mudou. Eu fico bufando no carro quando vejo as barbeiragens que tornam a nossa querida cidade tão célebre. Faço malabarismos para evitar os piores horários dos caixas eletrônicos. No elevador, meu esforço é hercúleo na tentativa de manter o verniz civilizado. Você, querido vendedor, está lendo esta carta e já está pensando: Neto, você virou um chato, um cricri. Se pensou assim, acertou.

Não tenho orgulho da minha chatice. As coisas são como são. Usando uma imagem meio brega: minha chatice é a água que escapa, incontrolável, da vasilha. Seria exaustivo elencar as situações nas quais minha chatice mostra sua cara hedionda. Mas fiquemos com uma situação que diz respeito a você e explica o porquê desta carta. Serei categórico. Ir a uma loja de roupas é uma das situações mais tétricas do meu humilde cotidiano. A culpa não é sua. Estou tentando, aqui, entender o que se passa comigo. Espero que você suporte algumas confissões.

Sou corpulento. Jeito rebuscado de dizer: sou gordo. Não um gordo imenso, mas sou gordinho. Gordinho e alto. Você, que é do ramo, sabe que não é fácil suprir as demandas de um gordinho grandalhão. As marcas que abastecem sua loja dão mais atenção aos homens magros. Até dá para entender. Cada vez mais as pessoas estão em busca do corpo perfeito. Vale recorrer a tudo: dietas malucas, baldes enormes de suplementos, maratonas sob as condições mais adversas, consultas a nutrólogos, sofrimento com o personal trainner. Claro que um cara que segue tudo à risca desejará uma camiseta colante, uma camisa que valorize o peitoral malhado, calças que entram no corpo depois que as pernas são besuntadas com vaselina. A camisetona é o emblema do desleixo. A camisa grandona é o sinal do fracasso. É assim que a banda toca. Não estou dizendo que os sarados devem ser prejudicados. Nada disso. Eu apenas gostaria que as lojas fossem mais democráticas em suas ofertas. O gordinho também gosta de uma camiseta estilosa. Idem para as calças e camisas. Seria o mundo ideal. Só que o mundo não anda lá muito bem.

Resta o conformismo. Se não encontro facilmente as roupas do meu sonho, eu, no mínimo, espero sinceridade de quem trabalha nas lojas. Tudo seria muito mais tranquilo se você, por exemplo, dissesse, logo de cara: não há a menor chance de você encontrar algo em nossa loja. Só que nunca é assim. Não sei se você é um otimista nato, não sei se é culpa do treinamento que a loja dá para vocês, não sei se você espera um milagre. Enfim, pode ser um monte de coisas. Só acho meio chato quando você alimenta esperanças vãs. Você sabe muito bem do que estou falando. São as situações em que você sorri e afirma: vou achar umas coisas legais. E então você sobe uma escadinha caracol e volta minutos depois com várias peças nas mãos. Nessas horas, eu dou uma rezadinha, torcendo para que tudo dê certo. É que eu já imagino os minutos futuros. Sei que sofrerei na cabininha. Sei que estará quente pra burro. Mas a esperança nunca morre. E então vou provar as peças que você trouxe. Minutos e malabarismos depois, todo suado, parecendo um egresso de uma trincheira, saio vestindo calças ridiculamente apertadas. As condições adversas embotam meu julgamento. Nesses minutos críticos, preciso que alguém diga a verdade. Mas a verdade nunca é dita. Quando muito, você diz: esse tecido é assim mesmo; depois ele fica mais folgado. Quando ouço tais palavras agourentas, sei que, mais uma vez, perdi o jogo.

Por favor, não faça mais isso. A verdade pode doer, mas, tempos depois, ela é um bálsamo.