LETRA VIVA

Carta para o homem que só vai à livraria para beber café


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com



Caro homem que só vai à livraria para beber café,


Posso começar pedindo desculpas? Nada tenho com a sua vida. Tenho pavor das pessoas que ficam ditando regras por aí. E você sabe que o mundo está apinhado de gente assim. Entremos num acordo: esta carta é um conselho de amigo. Pode ser?

Você não sabe quem eu sou. Nunca trocamos palavras. Nem chegamos perto de um discreto cumprimento. Apenas dividimos, por alguns momentos, o espaço da cafeteria da livraria. E é a partir disso que eu quero fazer algumas considerações.

Se eu ganhasse dez centavos a cada vez que ouço que toda livraria deveria ter uma cafeteria, eu estaria rico. Não é pouco rico; é rico mesmo, pode acreditar. Muita gente associa a xícara de café ao processo da leitura. Não sei se isso é certo ou errado. Gosto de café, até abuso do dito cujo, mas acho meio exagerado esse vínculo com os livros.

A cafeteria na livraria pode ser uma armadilha. Não estou me baseando em estudos aprofundados, desses repletos de gráficos em formato de pizza. É puro achismo mesmo. Minha convicção vem do que tenho visto ao longo de vários anos. Cansei de ver livrarias que constroem anexos que abrigam a sacrossanta cafeteria. E o que vi nesses anos todos? Muita gente passando reto pelos livros, para ocupar as mesinhas da cafeteria. E essa gente fica horas bebericando uma ou outra xícara de café. Quase ninguém pede os salgadinhos e docinhos refinados.

E o que eu acho disso? Acho que é uma tristeza sem fim. Eu penso na pessoa que é dona da livraria. Essa pessoa escolheu um ponto com carinho. Levou os familiares para ver a reforma. Construiu sonhos grandiosos. Todos ao seu redor merecidamente orgulhosos. Depois ele pensou em algo para incrementar o negócio: a cafeteria, lógico. É que ele também passou a vida ouvindo que tem que ter cafeteria na boa livraria. Como bom empreendedor, ele soube ouvir a clientela. E ele caprichou na livraria e na cafeteria. Claro que caprichou muito mais na livraria. A cafeteria seria a cerejinha lustrosa do bolo. Ninguém em sã consciência pensa em ganhar fortunas servindo mesas que, num intervalo de duas ou três horas, pedem dois cafés e uma água com gás.

E chega o dia da inauguração da livraria. A pessoa dona da livraria gastou os tubos para oferecer o que há de melhor nesta vida. No caso do ramo livreiro, essa pessoa que é a dona da livraria firmou acordo com as melhores editoras do Brasil. Escarafunchou dezenas de catálogos. Estudou como um agudo estrategista a posição dos livros. Contratou vendedores e vendedoras que entendem do riscado. Pensou com carinho na música ambiente. Escolheu os melhores quitutes para a cafeteria. Tudo é festa na inauguração e nos dias seguintes. Na noite de festa, só há elogios e promessas. Nos dias seguintes, os curiosos aparecem. Os elogios ainda brotam. E pouco depois começam os dias mais amargos. Os livros bacanas ficam olhando tristonhos das prateleiras. Quem aparece está em busca da autobiografia do youtuber. Muita gente reclamando do preço. Mas acham o espaço descolado pra caramba. É gostoso estar ali. E assim começa o fenômeno da livraria que é ocupada pelos fregueses da cafeteria. Você é um desses fregueses da cafeteria. Eu também. Mas há uma diferença crucial: eu sempre estou comprando livros. Não fico ocupando a mesa por tanto tempo assim. Eu sei que você fica horas na sua mesa. Eu tenho as minhas fontes. Mentira. É só ter um pouco de senso de observação. Se fica muitas horas ou poucos minutos, você, com razão, perguntará o que eu tenho com isso. Nada, eu não tenho nada com isso. O problema é que, admita, você não desgruda do celular. Pior: você urra quando está usando o celular. Não tem como não ouvir o que você diz. Já ouvi você dizer que estava ocupadíssimo naquele momento, o que é uma mentira deslavada. Você estava fuçando alguns perfis no Facebook. Já ouvi você dizer que estava entrando numa reunião. De novo, mentira. Você estava vendo uma entrevista do Tiririca. O que eu gostaria de dizer é bem simples. Apesar de ficar irritado ao perceber que você transformou a cafeteria num escritório, tenho que ficar na minha. Apesar de ficar constrangido com as suas mentirinhas, tenho que ficar na minha. Agora, e aí já é problema meu, gostaria de pedir o seguinte: não berre, enquanto estiver falando no celular, como se estivesse num pregão na Bovespa nos anos 80. Esse tempo já passou. Pense nisso.

Um grande abraço!