LETRA VIVA

Carta ao presidente da empresa de telefonia celular


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Não quero ser indelicado com você. Por outro lado, preciso ser sincero: somos inimigos. Não quero soar dramático. Não desejo mal a você e aos seus. Nossa inimizade se dá numa esfera mais abstrata. Acho que você merece algumas explicações.

Você ganha o pão de cada dia administrando uma corporação poderosa. Está em suas mãos ajudar ou atrapalhar a vida de muita gente. Sou um humilde professor e colunista de jornal. Tento imaginar como é acordar todo santo dia tendo uma responsabilidade enorme na ponta da caneta ou no teclado do computador. Quando acordo, penso em miudezas. Você, acredito, já desperta com a cabeça infestada de números e diretrizes. Portanto, a vida não deve ser fácil.

Uma decisão equivocada sua pode transformar a vida de milhões de cidadãos num inferno. Se você fizer um exame de consciência, certamente recordará algumas dessas decisões equivocadas. Não quero bancar, aqui, o Grilo Falante. Só estou jogando conversa fora. Uma vida repleta de grandes decisões deve afastar a gente da realidade, não? Muitos clientes, cifras pantagruélicas, contratos com o governo, tecnologia da rede, estratégias de divulgação, malabarismos jurídicos. Quem lida com questões dessa ordem deve achar ridículas as reclamações de um humilde professor e colunista. Permita que eu diga que você está equivocado se pensa assim. Deus está nos detalhes. Se você compreender as angústias de um cliente, as coisas tendem a melhorar.

Sem rodeios: uso o celular na marra. Uso porque ele tem lá suas vantagens. Ele pode ser útil numa viagem, por exemplo. Zero de nostalgia por aqui. Não consigo ver romantismo numa situação em que eu estou, à noite, numa estrada, meu carro pifa e eu preciso caminhar bastante, morrendo de medo, em busca de uma cabine telefônica. Eu falei em vantagens. Melhor colocar no singular: vantagem. Fora essa história da estrada à noite, não consigo imaginar outras utilidades. Não estou dizendo que estou certo. Vai ver é implicância de um cara retrógrado.

Mas eu não quero me aprofundar nas besteiras relacionadas ao celular. Você sabe muito bem como a banda toca. O que eu quero é tratar de algo mais prosaico. Tenho um celular, as contas são pagas, você venceu. O intrigante disso tudo é o seguinte: por que tudo tem que ser tão complicado na relação que tenho com a sua empresa? É uma pergunta meio mística. Tratados de filosofia não dão conta do recado. Mas a pergunta precisa ser feita: por que tudo tem que ser tão complicado? Um exemplo ilustra bem a indagação. Na hora de aderir a um plano, tudo é resolvido como num passe de mágica. O cliente é bem atendido. Perto das mesinhas de atendimento, há uma gôndola com aparelhos esplêndidos. Tudo é doce, suave, persuasivo, otimista. E o cliente sai, todo pimpão, brincando com o aparelhinho. Só que, com o perdão do gracejo, a fatura chega. A fatura literal tem que chegar mesmo. Ninguém acha que a sua empresa deve fazer caridade. O que queremos é simples: pagar a conta sem sustos. Pagar a conta sem ter vontade de incendiar a cidade.

Nessa história da conta, não estou me referindo às letrinhas miúdas do contrato. Se eu assinei o contrato atabalhoadamente, problema meu. Não é o caso. O que está em jogo é o erro crasso, a barbeiragem. Sua empresa insiste na cobrança do uso de um telefone que não é nosso. Está na cara que o número não é nosso. Houve tentativas de resolver as coisas amigavelmente por telefone. Nessas horas, às vezes, se é atendido com dignidade, às vezes a gente tem contato com o espectro sinistro da humanidade. Pululam as promessas de que o problema será resolvido em algumas horas. Também pululam constatações sombrias, de que nada pode ser feito. E isso se arrasta há meses. Quero acreditar que essa saga medonha seja obra de falhas inocentes. Não estou supondo que essa trapalhada seja deliberada, e que o que está acontecendo conosco acontece com milhões de outros clientes, e que essa grana que pagamos a mais esteja nos cálculos dos lucros. Terrível imaginar que uma burrada dessas pague as suas merecidas férias em Ibiza. Prefiro acreditar que tem havido uma sucessão de erros.

Por favor, se não for pedir muito, tente resolver a minha situação. Depois, você pode novamente guiar seus pensamentos para os grandes rumos da nação.