LETRA VIVA

Carta ao comentarista de redes sociais


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
 
Caro comentarista de redes sociais,

Juro que tento entender as coisas que passam por sua cabeça. Seria fácil dizer que você é imbecil. Acho que eu faria uma coisa dessas anos atrás. Ainda bem que o tempo tende a nos tornar mais ponderados.

Também tenho conta no Facebook. Não vou mentir: rolo o meu dedo pela tela do celular algumas vezes por dia. Já passei da fase de sentir culpa por causa disso. Não vejo como uma tragédia gastar alguns minutos por dia vendo o que as pessoas andam escrevendo por aí. Eu ficaria preocupado se os minutos virassem horas, se eu passasse a trabalhar mal por causa disso, se eu passasse a me comportar como um zumbi em casa. Como essas coisas não acontecem comigo, rolo o meu dedo gordinho pela tela do celular.

Eu realmente não sei o que busco nesses minutos. Nunca parei para pensar a fundo. O uso que eu faço das redes sociais depende do momento. Tem dia que eu leio umas matérias boas que alguns jornais e revistam postam. Tem dia que eu fico vendo uns vídeos engraçados protagonizados por bichinhos e nenezinhos. Tem dia que eu presto mais atenção nas postagens de amigos e amigas. Tem dia que eu dou alguma dica de livro. Tem dia que eu faço palhaçada. Enfim, depende do momento. Mas tem uma coisa que eu faço todo santo dia: dou uma olhada nos comentários feitos a notícias mais polêmicas.

Virou vício. Não deixa de ser um prazer vergonhoso. Entenda: leio os comentários. Nunca escrevi unzinho sequer. Vai ver é pudor. Sei lá. Já confessei esse meu vício para algumas pessoas. Elas querem entender o porquê. A resposta é escorregadia: não sei. Não é vontade de entrar em debates. Não é vontade de bancar o antropólogo. Eu simplesmente vou lá e fico lendo os comentários.

E assim nos encontramos. Escrevo esta cartinha porque notei que você é uma figurinha carimbada nesses espaços destinados aos comentários. Essa espécie de familiaridade é uma desgraça. A gente vai criando uns vínculos meio esquisitos. Em questão de poucos dias, a figurinha carimbada vira uma figurinha familiar. Estamos afastados, nunca trocamos um aperto de mão, você nem mora na minha cidade, mas não importa. Você é alguém próximo. Próximo e previsível. Eu sei o que você vai escrever quando um site de notícias divulga uma matéria sobre um crime de injúria racial. Eu sei o que você vai escrever quando um site de notícias divulga uma matéria sobre o sucesso de uma cantora. Eu sei o que você vai escrever quando um site de notícias divulga uma pesquisa para as próximas eleições presidenciais. Mais importante: eu sei que você não vai se segurar e que vai comentar qualquer coisa com letras maiúsculas, uma espécie de brado retumbante. Nunca errei. Não deixa de dar um certo conforto. Os seres humanos são doidinhos por uma estabilidade, por uma previsibilidade.

Como não nos conhecemos, fico imaginando sua vida. Não imaginando em linhas gerais, mas imaginando os detalhes. É um exercício, me perdoe, muito interessante. Porque é fácil imaginar em linhas gerais. Quero ver é pensar em termos concretos. Ele é solteiro. Sofreu uma desilusão amorosa dois meses antes do casamento. Gosta de ver "Breaking bad". Trabalha há tantos anos na empresa X. Resolve negócios pelo celular. Fala alto enquanto usa o celular. Não enrola muito na fila do restaurante por quilo na hora do almoço. Bufa quando alguém enrola muito na fila do restaurante por quilo na hora do almoço. Faz um treino pesado na academia à noite. No fim do ano, vai a Florianópolis. Gosta de uma arminha. Fala "top" numa boa. Leu, à vera, quatro livros. Todos esses livros lidos misturam empreendedorismo com clássicos das ciências políticas. Vê um documentário na Netflix e acha que, a partir disso, tem o gabarito da vida no bolso. Como você pode ver, vai longe. Estou entrando no terreno da caricatura? Juro que eu gostaria de acreditar que sim. Se estou exagerando, peço mil desculpas. Mas fazer o quê? Quando a gente tem espírito de porco, a imaginação também tem espírito de porco.

Quero me despedir pedindo dois favores. Primeiro: no canto esquerdo do teclado do seu computador, tem uma teclinha que tira as maiúsculas. Leve o seu dedo até lá, faça uma leve pressão e, pronto, missão cumprida. Segundo: quando for escrever um vocativo no início da frase, por favor, ponha uma virgulazinha logo depois.