LETRA VIVA

Na lojinha


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com
 
Uma das boas épocas do ano é o intervalo entre o Natal e o réveillon. Cidade vazia, trânsito civilizado, essas coisas. Não costumamos viajar nessa época do ano. A cidade é só nossa. É bom cultivar esse tipo de ilusão.

Passamos os dias de folga vendo seriados, lendo, falando abobrinhas, comendo porcarias. Dá para dormir tarde sem dramas de consciência. Acordar tarde já é outra história. Não somos adolescentes. Nem me lembro mais quando foi que acordei depois das dez da manhã.

Também vamos ao shopping. O contraste é dos mais interessantes. Dias antes, o shopping era o inferno na terra. Chegar até lá já era teste para pessoas calminhas. Depois tinha a luta renhida por uma vaga no estacionamento. Depois tinha aquele mundaréu de gente nos corredores. Depois tinha a fome. Depois tinha os pés em frangalhos. De uma semana para a outra, as coisas voltam aos seus lugares. Ainda bem. Fica fácil achar a vaga de sempre, perto do elevador. Dá até para dançar nos corredores largos.

Houve uma época em que eu ficava meio envergonhado de dizer que passeava no shopping. Não que eu ache o shopping a coisa mais legal deste mundo. Ainda estou com as faculdades mentais intactas, acho. Mas não vou forçar a barra e fingir que nunca entrei num shopping, que só compro alimentos orgânicos, que faço minhas próprias camisas, que caço meus alimentos. Por incrível que possa parecer, eu não sou o Rodrigo Hilbert.

E foi num shopping, nos dias de bobeira boa, que esbarramos, a Patrícia e eu, em algo interessante. Antes, uma confissão: adoro lojinhas que vendem cacarecos. Herança dos anos 80. Eu era alucinado por lojinhas que vendiam, num belíssimo sururu, perfumes, joguinhos eletrônicos, telefones, isqueiros, relógios, walkman, bonequinho do He-Man. Vocês se lembram da desgraça que era conseguir uma mísera batata Pringle"s. Tínhamos que aceitar as falsificações mais toscas. Quem não viveu nos anos 80 não sabe o que é crise.

Com o tempo, é inevitável, as lojinhas de cacarecos perderam espaço. Ficou mais fácil importar as tranqueiras. Ficou mais fácil ir aos EUA. Ganhou-se em comodidade, perdeu-se em magia. Tudo que é obtido com sacrifício é mais valorizado. As lojinhas foram perdendo espaço, mas não desapareceram. E entramos numa dessas lojinhas num dos dias de bobeira.

Entramos porque eu sou um nostálgico dos mais esquisitos. Detesto ambientes retrôs. Acho uma tapeação. Não fico sonhando com um Fiat 147. O carro até que é bonitinho, mas não tem como não lembrar dos solavancos, da marcha dura, do aperto dos bancos. Sou adepto da transmissão automática, do ar condicionado, da direção elétrica. Acomodado? Sempre fui. Por acaso, em algum momento, eu disse que sou aventureiro? Não tenho problemas com o Kindle. Não acho que devemos voltar aos pergaminhos. Enfim, tenho dessas coisas, mas sou um nostálgico mil cruzes quando o assunto é brinquedo. A Patrícia precisa me algemar para que eu não compre um Atari que custa horrores. Quase jogo quando vejo um daqueles joguinhos eletrônicos fabricados pela Nintendo (tela esverdeada, jogos repetitivos, mas e daí?), e foi na esperança de ver um desses joguinhos que entramos na lojinha de cacarecos.

Os perfumes estavam ali. Também tinha gravadorzinho digital, pen drive, ventiladorzinho. Só que esses objetos perderam terreno para algo mais sinistro. Ficamos assustados quando percebemos que tinha uma vitrine inteira reservada para facas, punhais e afins. Não estou falando do inocente e atemporal canivete suíço. Não eram facas de cortar pão. Eram facas com empunhadura anatômica, com lâminas encurvadas. Tinha até faca que era dois-em-um: faca e soco inglês. Qualquer um pode comprar. A Patrícia e eu, dois ursinhos carinhosos, morremos de medo dessas coisas. Saímos horrorizados da lojinha. (E eu fiquei ainda mais atrelado aos cacarecos dos anos 80.)

Claro que alguém pode alegar que tem gente que coleciona facas. De verdade, eu não duvido. Mas acho altamente provável que tem gente que vai querer brincar de outra forma com a faca.

Bom, eu não queria que a coluna terminasse de uma forma sombria. Saibam, então, que voltamos para casa, comemos um lanche, vimos seriado.