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Crônica da geração anestesiada


Carlos Araújo
carlos.araujo@jcruzeiro.com.br
Numa atitude de coragem e alto risco, um sargento pula no recinto de ariranhas no zoológico de Brasília para socorrer um menino. E ele salva a criança. Mas não consegue escapar do ataque dos animais e morre.

Esse episódio de 1977 inspirou a crônica "Herói. Morto. Nós.", de Lourenço Diaféria, um dos maiores craques brasileiros na arte de traduzir em textos as histórias e emoções do homem em seu labirinto cotidiano. Por algum tempo Diaféria teve suas crônicas publicadas no jornal Cruzeiro do Sul, neste caderno Mais Cruzeiro, no início da década de 1990.

Pois aquela crônica, publicada em 1977 no jornal Folha de S. Paulo, foi considerada pelo governo militar da época como ofensiva às Forças Armadas. O texto citava Duque de Caxias, patrono do Exército, e descrevia o estado de abandono de sua estátua no centro da cidade de São Paulo.

Um trecho da crônica era mordaz e nada sutil: "O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar."

Era uma crônica de protesto numa época de governo dos generais, de censura às artes e à imprensa, de tortura nos porões da repressão, do suplício e assassinato de Vladimir Herzog, de uma geração anestesiada pelo medo. Nesse clima, Diaféria foi preso por cinco dias.

No dia 16 de setembro de 1977, o jornal Folha de S. Paulo, que publicava a coluna de Diaféria, protestou contra a prisão com o espaço destinado ao texto sendo publicado em branco. Além da prisão, Diaféria enfrentou uma batalha jurídica com os tribunais militares. Foi condenado a oito meses de prisão por crime de ofensa às Forças Armadas. Somente em 1980, após idas e vindas num verdadeiro duelo entre defesa e acusação, o Supremo Tribunal Federal (STF) o declarou inocente.

Alguém disse certa vez que uma crônica pode ser respondida com outra crônica. Diante da impossibilidade de atacar a crônica, que já tinha sido publicada, o governo investiu contra o autor. Não foi nem original, pois atacar criadores e suas obras é uma tradição de ditaduras aqui e no exterior e de saudosistas de tempos sombrios.

O episódio que envolveu Diaféria mostra a força da crônica como gênero literário. Considerada uma composição menor, quando comparada ao romance e à poesia, a crônica tem o poder de uma flecha. O mestre Machado de Assis, ciente dessa característica, também usou e abusou da crônica.

Silenciosa, como que avançando sem ser vista, a crônica atinge o alvo e fixa o seu veneno. Os efeitos vão do encantamento à indignação, do prazer mais simples à complexidade mais desafiadora, da sacada de um ponto de vista original aos sentimentos de alegria e tristeza. Impossível ficar indiferente.

Se a crônica é capaz de incomodar governos, como no exemplo de Diaféria, então nem tudo está perdido. E ela se torna o modelo literário por excelência desses tempos de velocidade e tecnologia. Dizer pouco, em poucas palavras, apenas o essencial. Narrativa restrita ao ponto que interessa.

Como Diaféria, outros cronistas fizeram história no gênero que encontrou nos jornais (e atualmente também nos blogs que proliferam na internet) o seu espaço de existência para consumo do público que gosta de ler.

Entre os principais mestres da crônica estão Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, José Carlos Oliveira, Antonio Maria, Carlos Heitor Cony. Entre os vivos e ainda em atividade, destacam-se Ignácio de Loyola Brandão e Luís Fernando Veríssimo. Quem tem mais de 40 anos vai se lembrar da coleção "Para Gostar de Ler" (Editora Ática), com crônicas de vários desses autores.

A crônica é uma forma libertária de comunicação. Não se prende a pontos de vista, formas ou padrões. Pode contar histórias, descrever situações, imaginar conversas com os vivos e os mortos. Algumas se assemelham aos contos e são verdadeiras obras de arte.

Como exemplos de alto nível nesse modelo de narrativa, destaquem-se "O amor acaba" (Campos), "História triste de Tuim" (Braga), "O tapete persa" (Sabino) e "Areia branca" (Drummond).

Alguns desses textos têm o poder de fazer você sorrir ou chorar. Outros, como demonstra a história de Diaféria, podem desnudar a intolerância de governos do fim do mundo.