LETRA VIVA

Dias de folga


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Estou aproveitando meus dias de recesso escolar. Os horários de dormir e acordar estão caóticos. E é bom que estejam. Dá para passear de improviso. Mais ou menos assim: Ei, amada esposa, que tal um pulinho em São Paulo? Podemos ver, soterrados pela pipoca, vários episódios do seriado do Larry David. Acho que vocês entenderam.

E dá para pensar em besteiras. Por exemplo, tabelinha com qualidades e defeitos. No caso, as minhas qualidades e defeitos. Não coloquei no papel. Ficou tudo zumbindo na cabeça. Quero dividir com vocês.

Vamos falar de coisas boas? Comecemos com as qualidades. Não costumo berrar. Guio meu carro sem acelerar demais. Detesto buzinar. Não sou muquirana. Ajudo as livrarias locais gastando uma parte suculenta do meu orçamento. Não tenho moto. Sou um ouvinte atento. Leio literatura russa. Não dou carteirada (pensando bem, nem teria como: não sou autoridade, não sou celebridade; pior, não tenho carteira, uso o plastiquinho de despachante do Keini para guardar documentos e cartões). Não sou metido a sommelier. Minha barba não é desenhada. Não falo "top" ou "topzeira". Só não gosto de comer ervilha torta, melão, melancia, frango ensopado e maionese. O resto cai muito bem neste corpanzil.

E assim acabaram as qualidades. Passemos aos defeitos. Só que não vai ter listinha. Não teria como ser uma listinha. Seria o "Guerra e paz" do século 21. Agora, peneirando os defeitos, consigo achar um que representa muito do que sou: minha absoluta falta de senso prático.

Conheço pessoas desprovidas de senso prático que são meio esnobes. Como se bater um prego fosse a mácula no caráter do intelectual. Mas eu não sou assim. Muito pelo contrário. Morro de vergonha quando vejo alguém abrindo o capô do meu carro e dizendo que o problema está na junção da peça X com o fio Y. E a pessoa diz isso com uma serenidade esmagadora. Dá vergonha porque, minutos antes do incidente com o carro, eu achava que tudo explodiria, formando uma nuvem em forma de cogumelo que chamaria a atenção de todos os sorocabanos.

Cresci numa época em que os adultos tinham em casa -- e guardavam com zelo maníaco -- a sacrossanta caixa de ferramentas. Sempre foi um assombro ver alguém lidando com uma furadeira. Demorei décadas para entender o que é uma chave Phillips. Aqui em casa, a dona da caixa de ferramentas é a Patrícia, e ela adora brincar com os trecos. Tenho certeza de que casei com o MacGyver.

A Patrícia e eu gostamos de bater perna por essas lojas de móveis mais moderninhas (Etna e Tok Stok). Vários dos móveis do nosso apartamento vieram dessas lojas. (Um dia, juro, escreverei sobre a experiência constrangedora de um sujeito do meu tamanho seguindo as setinhas coladas no chão dessas lojas e morrendo de medo de dar uma trombada nas centenas de vasinhos de cristal.) Não tem como não reparar nos dois preços que aparecem nas etiquetas de cada móvel. Preço maior para entrega do móvel montado, preço menor para o cliente que estiver disposto a levar os pedaços do móvel e montar tudo em casa. Do ponto de vista estritamente econômico, a diferença é compensadora. Compensadora para quem tem um mínimo de senso prático. Compensadora para a Patrícia, a minha amada MacGyver.

Compramos um dos móveis pelo sistema de levar e montar em casa. Eu lembro que fazia um calorão. Minhas mãos ficam suadas em dias de calorão. Subimos com as caixas e as deixamos num dos quartos. Eu nem saberia como abrir as caixas. A Patrícia pegou um estilete e cortou as fitas rapidamente. Dentro das caixas, peças que nem remotamente pareciam com o móvel que tínhamos visto na loja. Além das peças, um diagrama que, para mim, era James Joyce na versão aramaica. E não é que a MacGyver bateu os olhos no papel e disse que aquilo seria fácil, fácil. O ideal seria que eu deixasse a Patrícia sozinha no quarto, para evitar acidentes. Mas, aí, seria muita omissão.

E foi assim que eu, gloriosamente, passei alguns minutos segurando parafusos e estaquinhas para a minha amada esposa. Um passo de cada vez, já diria a sabedoria popular.