OUTRO OLHAR

E por falar em assédio


Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br

Ouvir conversa dos outros é sempre uma falta de modos -- ou de educação. Mas de repente você depara com uma situação em que é impossível não ouvir o que os outros falam.
Você entra na padaria numa manhã de sábado para tomar o tradicional café com pão de queijo. A mesinha escolhida fica ao lado de outro lugar ocupado por um homem e uma mulher. Ele usa óculos e aparenta 50 anos, e ela, uma bela de olhar indecifrável, deve ter 35 anos.

A conversa é inspirada na polêmica de assédio sexual que tem como vilão o produtor de cinema Harvey Weinstein. Parecem amigos. Namorados discutiriam outras coisas. Falam tão alto que é impossível não ouvi-los.

-- Haroldo, não acredito que você acha correta a atitude dos caras que usam o poder para a prática de assédio sexual -- protesta a mulher.

-- Desculpe, Valéria, mas não é uma questão pautada pelo que é certo e o que é errado. Nesses casos que ganharam repercussão mundial, o assédio se faz presente como a regra do jogo. Ninguém (nem o acusado nem a vítima) é obrigado a jogar. Quando se dispõem a isso, não podem alegar inocência. Jogam e ponto. Se são felizes depois disso, muito bem; se ficam infelizes, sabiam dos riscos.

-- Mas o praticante do assédio não pode agir assim. É um comportamento imoral, perverso, criminoso.

-- As vítimas também tiveram o livre arbítrio de dizerem "não" às investidas e quem disse "sim" sabia perfeitamente que pisava em campo minado.

-- Mas eram relações de trabalho. Não devia existir o assédio. As vítimas saíram prejudicadas moralmente e emocionalmente.

-- Quero crer que as vítimas podiam ter repelido a conduta de assédio no momento em que ela aconteceu. Tenho dúvida sobre porque fazem as denúncias somente agora, passados vinte ou mais anos. Quero crer que parece que o que houve nesses casos foram jogos de interesses em que as partes envolvidas lutavam por benefícios emocionais, profissionais, financeiros.

-- Haroldo, não acredito que você aprove essa pouca vergonha.

-- Não se trata de aprovar ou não. Esse tipo de relação se repete no cinema, na televisão e em outros grupos, espaços e atividades humanas, seja no trabalho, na universidade ou na praia.

-- Haroldo, não venha dizer que as mulheres assediadas tiveram benefícios como vítimas. Não fale uma bobagem dessa.

-- Algumas ficaram famosas, ricas, até mais célebres e milionárias do que os caras a quem acusam. E agora, atingido o topo de suas carreiras, denunciam os assédios sofridos em tempos passados. Poderiam ter reagido dessa forma no momento em que os casos aconteceram. Seria uma atitude mais efetiva.

-- Não importa quando denunciaram os assédios -- rebateu a mulher. -- Passado ou presente, isso não muda a gravidade dos casos.

-- Alimenta a dúvida sobre um comportamento "x" do passado em contraste com uma decisão "y" do presente -- ele comparou. -- No passado, quando tiveram a oportunidade de dizer "não" ao assediador, disseram "sim". Por quê? Movidas por quais razões? Isso elas não explicam.

-- Você está contra as vítimas?

-- Jamais. Ter essas dúvidas não me faz tomar posição contra ou a favor de ninguém. Estou sendo apenas realista num mundo (o do cinema norte-americano) desprovido de romantismo, dominado por egos, dinheiro, poder, relações perigosas.

-- Você está sendo machista.

-- Eu nego qualquer machismo. Seria indecente não apoiar as mulheres. Por natureza, sou a favor de todas as mulheres e contra todos os homens. Mas as perguntas têm que ser feitas. E lembre-se que também há mulheres que se comportam sob a influência do machismo. O apoio às vítimas não é unânime entre as próprias mulheres.

-- Sei disso.

-- Essa discussão pode beirar as raias da paranoia. Há risco de confusão entre assédio e sedução. Uma paquera pode ser confundida com imoralidade. Seria exagero. Num futuro como esse, eu seria crucificado só por olhar mulheres bonitas na rua, na academia, no local de trabalho. E esse olhar pode ser lírico, romântico, sonhador. Proibir esse comportamento seria loucura.

No instante em que saíram da padaria, Haroldo falou:

-- Ainda bem que você não ficou brava comigo.

-- Fiquei, sim -- Valéria respondeu. -- Mas a amizade continua.

E continuaram a discussão lá fora.