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A vida começa aos 90


Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br


Severino Salazar comemorou 80 anos em 7 de janeiro. Quem o visse pela manhã, diria que ele estava indiferente ao aniversário. Aparentava tranquilidade. Engano. A preocupação com a proximidade do fim da existência crescia a cada década vivida. A quem ousasse perguntar se aos 80 anos tinha a sensação de missão cumprida, ele responderia:

- Que nada. Tenho muito o que viver ainda. A vida começa aos 90.

Desde a infância tinha ouvido tantas vezes dizerem que a vida começa aos 40, que não tinha como não acreditar nisso. E, quando chegou aos 40, não teve dúvida em reformular:

- A vida começa aos 50.

E assim foram as coisas para esse homem que duelava com o tempo. A cada década transcorrida, adiava o reconhecimento de que tinha entrado para a terceira idade e renovava a ilusão de que podia prolongar a juventude por mais uma década.

A rebelião contra o tempo não se restringiu ao ponto de vista, mas se estendeu também ao comportamento. Separou-se aos 49 anos, após um casamento de 30 anos, e passou a procurar namorada. Intensificou o ritmo de academia pela manhã e corrida de rua após a bateria de exercícios. Seguia-se um banho, que o deixava pronto para mais um dia de trabalho.

Almoçava por volta das 11h30. Começava a trabalhar ao meio dia e conduzia o expediente até às 22h. Antes de dormir, habitualmente passava em um bar e afogava a solidão na sempre renovada esperança de encontrar um novo amor.

Perguntavam por que não descansava, após muitos anos de trabalho, e por que não se refugiava numa praia para curtir a tão merecida aposentadoria. Ele não queria descanso. Argumentava que o seu coração trabalhava sem cessar e essa era a sua referência de hábito e conduta.

Também gostava de ter a cabeça em funcionamento o tempo todo. Queria estar focado em projetos, desafios, riscos. Abriu um negócio que consumia as suas energias, mas sentia-se satisfeito. E priorizava as oportunidades de ganhar dinheiro. A aposentadoria não era suficiente para sustentar o seu padrão de vida. E, mais do que vocação, correr atrás do dinheiro era o seu destino.

Como parte dessa programação, decidiu ignorar todas as notícias de Brasília. Não tinha dúvida de que os acontecimentos gerados na capital do país causavam muito mal à saúde e deviam ser evitados. Mudava de canal na televisão sempre que aparecia o presidente ou outro político.

Os poucos amigos começaram a dizer, brincando, que era por causa do seu exemplo que o governo brasileiro queria reformar a Previdência. Nos comentários, acusavam-no de mostrar que a capacidade de trabalhar vai longe e que o descanso pode ser adiado por muitos anos. "Nada disso", ele rebatia. "O meu caso é só uma opção de vida."

E uma obsessão também. Severino não tinha dúvida de que o trabalho, somado a outros fatores, era o principal segredo da longevidade. Os outros itens, acreditava, eram ter saúde, preservar o equilíbrio, dormir bem, controlar o estresse, cultivar o bom humor. Mas o trabalho era essencial para manter a cabeça como dínamo impulsionador da existência.

Oscar Niemeyer era a sua maior referência. Se o gênio da arquitetura tinha chegado aos 104 anos, pensava, eu vou passar disso. Agora falavam na possibilidade de o homem viver 150 anos. A ciência alcançara tantos avanços que podia contribuir de forma concreta com a garantia de qualidade de vida. E ele acreditava (e queria com todo gosto) chegar ao menos aos 120. Era a sua maior ambição.

Na semana passada, quem passasse em frente à casa de Severino se surpreenderia com tudo fechado. Nada da presença dele na sua rotina de ir à academia pela manhã, correr pelas ruas do bairro, cumprimentar as pessoas.

Alguém, movido pela curiosidade, perguntou a um vizinho o que aconteceu com Severino.

-- Viajou -- disse o vizinho. -- Conheceu uma nova namorada e viajou. Foi curtir um desses paraísos exóticos, ilhas paradisíacas, sombra e água fresca. Saiu sem data para voltar.

-- O que aconteceu?

-- Descobriu que namorar e viajar também fazem parte do elixir da longa vida -- informou o vizinho.