LETRA VIVA

Na praia (primeira parte)


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com


Conheço muita gente que adora viajar. É um treco meio místico. Para essas pessoas, o ano sem viagem marcante é maldito. Eu não estou brincando. Conheço gente assim. Se a grande viagem não acontece, o trauma é atroz. Longe de mim, ditar como as pessoas devem agir. Cada um sabe como o sapato aperta. Eu apenas quero falar, aqui, sobre viagens e praias.

Eu não adoro viajar. Digo mais: eu evito viajar. Não pensem que sou paranoico, que fico imaginando os desastres que rodeiam a mais trivial das viagens. Também conheço gente assim, mas não é o meu caso. Eu não viajo porque sou preguiçoso. Preguiça na hora de procurar um hotel. Preguiça de levar o carro pra revisão. Preguiça de enfrentar aeroportos. Preguiça de fazer malas. Preguiça de voltar cansado. Preguiça de encontrar a correspondência acumulada. Essas coisas.

Mas tem hora que não dá pra escapar. Não estou falando de viagens de negócios de suma importância. O que eu quero dizer é o seguinte: tem hora que a pessoa amada profere palavras melífluas, e aí fica difícil dizer não. Se a Patrícia pedir para eu sair pelado pelas ruas, eu saio. Sorte que ela é a mulher das palavras razoáveis. Desta vez, ela quis ir à Praia Grande.

Não tinha como negar. Viagem curta: ir no sábado e voltar no domingo. Meu sogro, minha sogra, meu cunhado e minha cunhada também iriam. Tudo colaborando para uma viagem amena. E foi mesmo. As estradas não estavam entupidas, as acomodações eram confortáveis, pouca bagagem no carro.

Parece pouca coisa, mas não é. Praia Grande estava cheia. A avenida principal estava repleta de carros, motos, bicicletas, trenzinhos e pedestres. Teve show do mágico no calçadão. A credencial do mágico: ter trabalhado no programa do Gugu Liberato. Os quiosques servindo caipirinhas encorpadas e porções cheirosas. Velhinhos nos bancos. A criançada lambuzando a cara de sorvete. Onze e meia da noite: a multidão batendo perna pela orla.

Para muita gente, o parágrafo que acabei de escrever é o retrato da praia ruim. Quem acha que é o retrato da praia ruim, me desculpe, não sabe aproveitar as coisas boas da vida. Quem acha isso, gosta, claro, das praias desertas, paradisíacas, situadas nos cafundós.

Desculpem se exagero, mas prefiro fazer um canal sem anestesia a ir a uma praia paradisíaca. Fazer um canal sem anestesia é ruim, mas a dor passa logo, é só tomar uns analgésicos potentes. O sofrimento que envolve uma praia paradisíaca é muito mais longo.

Começa pela dificuldade de se encontrar a dita cuja. O peregrino precisa de paciência para enfrentar umas estradinhas assustadoras. Mas isso não é o pior. A praia paradisíaca não tem a estrutura mínima para acolher o homem civilizado. Ou você acaba refém de um resort estelionatário ou depende de uma pousada que de ingênua só tem a fachada. Se o pneu do carro estoura, o borracheiro cobrará uns cinco mil reais pelo serviço. Isso se ele estiver de bom humor. Isso se ele for com a sua cara. Mas isso, por incrível que pareça, não é o pior.

O pior, claro, está nas pessoas. É que as pessoas que vão às praias paradisíacas são musculosas, ratazanas de academia, donas de óculos escuros gigantescos, conhecedoras de todas as dietas. Talvez a explicação para a minha aversão seja simples: eu sou gordo. A procissão de corpos perfeitos é um fator inibidor. Melhor dizendo, acho que o meu sobrepeso explica boa parte da minha aversão, mas não toda ela. Completando: os sarados e as saradas adoram tirar selfie fazendo bico. E isso eu não posso suportar. Mas paro por aqui com o azedume. Quero falar de coisas boas.

Na Praia Grande, encontramos os pneuzinhos, as celulites, as barriguinhas e as barrigonas. Lá, todo mundo é feliz com o corpo que tem. Vendo o desfile de tantas imperfeições, não teve como não descobrir que a humanidade ainda é viável. E não teve como não rever as praias da infância e da adolescência.

E é sobre essas praias verdadeiramente paradisíacas que eu escreverei na próxima semana.

Até lá.