LETRA VIVA

Na praia (segunda parte)


Nelson Fonseca Neto
nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Semana passada, escrevi um pouco sobre praias que eu considerava boas e praias que eu considerava ruins. Tentei mostrar minha paixão por praias mais tradicionais (por exemplo: Mongaguá, Praia Grande, Santos, São Vicente e Guarujá). E mostrei minha aversão por praias paradisíacas.

Meus critérios são marcados pela subjetividade e, claro, pela memória. Fui feliz nas praias tradicionais. Sei como funciona o esquema nas praias paradisíacas. Mas acho que ficaria meio chato se eu escrevesse sobre o assunto sem entrar em detalhes. Ficaria parecendo coisa de cara birrento.

Quero que o meu julgamento seja, na medida do possível, distanciado. Quero encontrar os fios que possam amarrar paixões e aversões. Acho que encontrei um desses fios: a quantidade de natureza presente nas praias. Convém dizer que eu não sou um apaixonado por praias. Prefiro montanhas. Campos do Jordão ou Santo Antônio dos Pinhais (onde minha mãe nasceu) são lugares de sonho. Um dia eu ainda escrevo sobre o fascínio das montanhas, do tempo nublado, da chuva fininha.

Voltando às praias. Prefiro as que são mais urbanizadas, as que têm as avenidas principais bem iluminadas, as que têm livrarias, shoppings, vários tipos de restaurantes e bons hotéis. Tenho medo de pousadas, pois elas lembram cenários de filme de terror. Eu sei que é maluquice minha, mas as coisas são como são. Ué, mas praia não é natureza? Em partes, sim. Ué, não é paradoxal preferir praias urbanizadas? Talvez seja. Só que eu não consigo desgostar das praias tradicionais.

Acho das coisas mais alegres desta vida ver, tarde da noite, avenidas praianas movimentadas e barulhentas. São os sons que embalam o meu sono. Até que há um pouco de coerência aqui: não importa onde eu esteja, sempre durmo com a televisão ligado num volume baixinho. O silêncio maciço é perturbador para mim.

(Não deixa de ser curioso: passo vários dias do ano reclamando do movimento intenso em nossa cidade, mas fico deliciado com essa movimentação, elevada ao quadrado, nas praias do meu afeto.)

Não é preciso ser muito inteligente para saber que muitas de nossas preferências são moldadas na infância. Se, quando criança, eu frequentasse praias paradisíacas, certamente, hoje, elas estariam entre as minhas preferidas. Mas, para minha sorte, passei os anos cruciais da infância na praia de São Vicente. A família da minha tia Romilda tinha um apartamento lá, de frente para o mar e para a ilha Porchat. Da janelona da sala, víamos a avenida quase sempre entupida. Tarde da noite, eu, meu irmão e meus primos ficávamos jogando Banco Imobiliário na sala, enquanto o zunido se incorporava ao prazer de estarmos na praia, com os horários bagunçados, com as refeições fora de hora e várias outras delícias. Na praia da minha infância, sempre tinha um parquinho de diversões ou um circo por perto. Ver tudo aquilo brilhando, com o marzão ao fundo, foi uma experiência das mais fundamentais.

Como eu dizia, essas experiências da infância são cruciais. Ter feito um intensivão em São Vicente condicionou tudo o que veio depois. Como Santos é continuação de São Vicente, passou a fazer parte dos meus prazeres. Em que pese, pelo menos nos anos 80, um certo quê de esnobismo, o Guarujá também entrou na lista a partir da adolescência. Mongaguá, em escala reduzida, pertence ao mesmo tronco. Só fui conhecer, pra valer, a Praia Grande em janeiro deste ano. Tardiamente, ela entrou na lista, e dela não sai mais.

Passei as duas últimas semanas falando sobre praias, e talvez isso passe uma ideia equivocada: que o meu sonho é morar na praia, passando horas sentado no quiosque de batidinhas e porções. Não é pra tanto. Praia é bom, mas com moderação. Praia é bom pra passar alguns dias. Deve ser angustiante morar na praia nos meses de frio. Gosto do que faço, gosto de onde moro. Em alguns momentos do ano, a gente cansa da correria, mas isso passa. Um dos meus maiores medos: o dia típico de praia sendo replicado 365 vezes por ano.

Praia e férias são que nem leite condensado. Uma delícia nas primeiras colheradas. Um horror quando a lata chega na metade.