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Quando é o filho que ensina o pai


Carlos Araújo
carlos.araújo@jcruzeiro.com.br
Uma história corajosa, intensa, comovente. Uma narrativa que não poupa emoções, não faz concessões. Vidas como travessias. Experiências compartilhadas como forma de traduzir as inquietações de um pai que tem o filho com síndrome de Down. 

Estas sensações são reflexos da leitura do romance "O filho eterno" (Editora Record, 222 págs,) do escritor catarinense Critovão Tezza, que vive em Curitiba. Leitura feita com atraso. Publicado há nove anos, o livro virou filme, ganhou prêmios, foi traduzido em várias línguas, sucesso de público e de crítica.

"O filho eterno" pertence à categoria dos romances que não são escritos para entretenimento. Campanhas de incentivo à leitura pretendem atrair público para o universo literário com a demonstração de que ler pode ser um ato prazeroso e divertido. E isso é verdade. Mas há livros que transcendem esse rótulo e fazem da leitura uma experiência de vida. É nessa categoria que se inclui a história criada por Tezza.

Cada página de "O filho eterno" abre uma possibilidade de mergulho no que há de mais denso na existência. Pai de um filho com síndrome de Down, o autor usa a vivência como inspiração. Segue o lema de Hemingway de só escrever sobre o que se sabe. É uma opção para traduzir a realidade da forma mais verdadeira possível.

O narrador (um personagem sem nome) contraria os discursos de ânimo ouvidos por pais de crianças especiais e se expõe com todas as tintas da insegurança, da perplexidade, das dúvidas que o consomem diante do desafio de criar um filho diferente na comparação com os padrões "normais" de comportamento.

A convivência familiar se torna difícil. A mãe (também sem nome) confronta a nova realidade do casal: "Numa das crises, ela lhe diz, no desespero do choro alto: Eu acabei com a tua vida. E ele não respondeu, como se concordasse --- a mão que estendeu aos cabelos dela consolava o sofrimento, não a verdade dos fatos."

Agora, com o nascimento do filho, há um novo destino a ser cumprido. Pai e mãe não podem fugir da surpresa, não têm para onde fugir. Encaram uma programação de visitas a clínicas, consultórios, especialistas, projetos de estimulação.

Começam uma maratona de atividades em função da esperança. Entregar-se a essa rotina é um importante fator de ativação da fé que os move em direção a um futuro possível para Felipe -- o filho é o único que tem nome, numa sintonia com a força narrativa que faz dele o protagonista. Pai e mãe, embora criadores do filho, desempenham papéis de coadjuvantes.

O autor optou pelo ponto de vista do pai como foco narrativo. Há dor, angústia, aflição em tudo o que ele descreve. Não poupa nem a si mesmo. Confessa que é um escritor fracassado, autor de livros difíceis de serem publicados e, quando os edita, ninguém os lê. Sente-se frustrado como marido e também como pai.

Quem o vê dirá que, mais do que o filho, quem precisa de ajuda é o pai. E é na convivência diária com Felipe, superando cada dificuldade, que ele encontra a redenção e a paz para seguir em frente. No conjunto, Tezza criou uma história de compaixão e esperança.

A linguagem é confessional, embora a narrativa seja em terceira pessoa. O estilo, marcado pela poesia em prosa dinamitada pela dor humana, faz recordar Raduan Nassar (um clássico brasileiro, autor de "Lavoura arcaica"). E também há uma presença oculta de Thomas Bernhard, o genial autor de "O náufrago", que abre o romance com uma de duas epígrafes: "Queremos dizer a verdade e, no entanto, não dizemos a verdade. Descrevemos algo buscando fidelidade à verdade, no entanto, o descrito é outra coisa que não a verdade."

O leitor acompanha o drama do pai com uma cumplicidade de amigo ou de irmão. O inesperado acontece quando, a certa altura, a sensação é de que as inquietações do pai passam a ser nossas. E é como se Felipe também fosse nosso filho. Chegamos a recriá-lo como num processo imaginário de câmera e a suspirar com as pequenas vitórias do menino no relacionamento com a família, a escola, o futebol.

O livro de Tezza não é obra para quem busca só entretenimento na ficção. Literatura é vida pulsante, que às vezes nos esmaga, nos castiga, nos parte ao meio e nos ensina a viver. "E isso é muito bom", como poderia ter dito o pai de Felipe.